Bill e Gary numa aventura nada excelente. Porém, digna.

Spoilers Abaixo:

Era de se esperar que depois de cinco semanas sendo o coadjuvante nervosinho que suava e derrubava portas, Bill ganhasse um episódio pra ele. É bem verdade que os roteiristas já parecem ter consciência das ausências carismáticas do personagem e providenciaram, durante esse início de temporada, uma ligação dele com Gary. Tudo para que ele precisasse dividir com o autista, o estrelato do episódio em questão. Temos então essa história um pouco desarrumada, estranha e com um título infantil que soa deslocado, mas que pelo menos é honesto com seus objetivos.

A equipe de Alphas parece ter entrado numa competição para ver quem conseguia escrever o teaser de abertura mais rápido da história. Segunda semana com zero tensão nesse prólogo. E eu sou um entusiasta dos bons teasers. A ótima abertura da série ganha muito mais depois de uma boa preparação. Entretanto, ninguém quis perder tempo com isso e passaram logo para a clássica cena inicial do protagonista do episódio dentro de seu cotidiano. Assim como com todos os Alphas, Bill também tem seus problemas e ficamos sabendo que o grandalhão foi demitido do FBI por “problemas no controle da raiva”. São os ressentimentos de Bill com essa demissão e consequente segregação à organização de Rosen , que permeiam o episódio.

Não sei se vocês concordam comigo, mas esse plot poderia ser uma grande e óbvia chatice investigativa – algo aliás com que Alphas precisa se preocupar – mas a ferramenta Gary, usada com moderação, pode salvar qualquer história da mesmice. E foi exatamente o que fizeram.

Gary roubou todas as cenas em que apareceu. Desde a conversa com Rachel dentro do carro (para depois ser preso por estacionamento indevido) até as espertas intervenções que ele fazia durante toda a investigação. O personagem é uma tentação para qualquer autor, sobretudo porque ele alivia e quebra a estrutura estabelecida para uma trama de ação, mas também porque ele flerta com o perigo da saturação. Ficou claro pra mim que os roteiristas já entenderam a força de Gary, mas também ficou claro que ele pode acabar virando uma muleta. Essa tentativa de vender um épico dando à história um título infantil, é quase uma desculpa para o excesso de importância que deram a Gary, num episódio que devia ser do Bill.

Até o precipitado envolvimento de Nina e Hicks perdeu força. Parecia sério demais, dramatizado demais, deslocado. De fato, toda a tentativa de redenção construída para Bill também parecia descolada. O drama, a tensão, o medo, tudo isso parecia inadequado para uma história chamada “A excelente aventura de Gary e Bill”.

No entanto, Alphas ainda consegue um grande feito: administrar todas essas contradições com um bom texto. Os personagens dizem, na maioria das vezes, as coisas certas nas horas certas. Sem demagogias e exageros. E isso é muitíssimo importante para manter a credibilidade de uma série em que um autista vê ondas de frequência coloridas passando na sua frente. Warehouse 13,muito citada nos comentários da review da semana passada, por conta de um crossover entre personagens, também sofre para equalizar essas fatores. Vi a primeira temporada da série e abandonei porque o excesso de raios coloridos, comunicadores fantásticos, mecanismos jocosos (e que fazem parte da mitologia da série, entendo isso), me distanciava cada vez mais dos personagens e com o tempo, parei de me envolver. Não quero que isso aconteça com Alphas. A série precisa investir pesado em boas histórias e bons textos.

Tem conseguido até aqui. A aventura de Bill e Gary não foi fantástica, mas se reunirmos todos os momentos de Gary dando uma de agente, mais a cena de Nina e Hicks sendo flagrados por Rachel, já teríamos aí algumas boas razões pra gostar do episódio.

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