Ser reviewer é padecer no paraíso.
Daqui onde estou posso vê-lo em choque… Ele ainda não sabe nada do futuro que lhe aguarda, mas eu posso saber porque tenho a onisciência do narrador. Daqui eu posso ver tudo que aconteceu, que acontece e que está pra acontecer. E ele está ali, com aquela expressão de choque porque está diante de uma tocante experiência de catarse… E as catarses são assim, elas nos deixam catatônicos por alguns minutos, enxugando lágrimas de alegria ou de tristeza, sentindo quase de modo palpável, nossa mente organizar as referências e sínteses, todas em busca de uma plenitude que só os espectadores dedicados sentem.
E começa assim, sendo um espectador dedicado, desses que sofrem de catarses múltiplas. Ele passou boa parte da vida tendo alguns bons exemplos disso… Ele acha que o primeiro deles foi ainda bem infante, assistindo nas tardes da Rede Globo uma série de comédia, dublada para a Sessão Aventura, e chamada Super Vicky. Aquela menina-robô era adorável e sempre que a família demonstrava amor por ela, o coração dele se inundava inteiro. E mesmo tão pequeno, a necessidade de seguir com paixão semana após semana, acompanhando aquela vida de fantasia, se libertava de qualquer amarra do mundo. Estava formado aquele ser intenso, profuso, curioso e cheio de olhares panorâmicos. Ele ainda não sabia, mas ele já era um fã.
O tempo só lapida essa criatura de hábitos estranhos… Quando o coração começou a ser capaz de reconhecer os anseios do corpo, ele amadureceu para coisas como Barrados No Baile. Aqueles jovens de 30 anos, sempre lindos, repetindo frases como “I’m scared” todas as semanas, eram praticamente irresistíveis para um espírito ávido por ligações de identificação. Ele já vivia o tormento de esperar muito tempo pra saber o que ia acontecer, mas naqueles anos de ignorância a respeito de uma TV a cabo, essa espera era sofrida com esperanças bem mais opressivas. As Novas Aventuras do Superman trocavam de horário o tempo todo, mas ele defendia a maturidade da trama como se ela fosse melhor que um episódio de Arquivo X, que ele já ouvia um amigo falar a respeito, mas nunca tinha podido assistir. De fato, quando o sinal de uma TV aberta melhorou e ele pode conferir a trama alienígena, as dimensões do hábito de “acompanhar” um show, se estenderam.
http://youtu.be/rbBX6aEzEz8
Ainda não existia internet naquele mundo de verde e barro (o único que ele conhecia), mas existia uma forma milenar de comunicação que era muito eficiente: a carta. E foi através das mãos de um carteiro, que ele conseguiu, pela primeira vez, disseminar a própria opinião. Tudo bem que essa opinião demorava de três a cinco dias para ser recebida por um colega de correspondência, mas ela existia em substância e era muito, mas muito importante pra ele. A chamada do homem de amarelo na porta de casa era sempre outra catarse… Havia opiniões naqueles envelopes, concordâncias e discordâncias, apontamentos que ele desconhecia e agradecimentos pelos que ele tinha sublinhado. Era uma demorada e artesanal forma de interatividade… E também havia os pacotes, cheios de fitas VHS, onde eram gravados, com muita gentileza, episódios de Will & Grace, Dawson’s Creek, The X-Files e Early Edition. Quando ele viu, naquelas fitas, um intervalo comercial de uma TV a cabo pela primeira vez, o peito dele se encheu de orgulho próprio.
http://youtu.be/FJI534_iH6Y
Antes de virar um Gleek apaixonado, ele fora Excer… Antes de poder escrever sobre os 10 anos de Lost, ele viveu, aos trancos e barrancos, em conexões de lan-houses, a experiência de esperar pela próxima genialidade do show. As cartas já tinham se enxugado num pequeno número de correspondentes e ele podia conseguir se expressar presencialmente sobre um número limitado de programas que a TV aberta ainda conseguia oferecer. Gilmore Girls, The Sopranos, Oz, A Sete Palmos… Todas velhas para o mundo e novas para ele. Ele, que só queria falar e falar, falar e escrever sobre o que ninguém podia ouvir pessoalmente… Até que um dia houve um blog, e depois do blog houve as visitas a um certo blog, e houve o dia mais especial de todos: aquele em que o certo blog perguntou se havia alguém ali que estivesse lendo, mas que também tivesse coisas a dizer. Pois é… Ele tinha.
O primeiro texto que ele mandou para o certo blog foi de uma série chamada Alphas, que tinha acabado de estrear e que ninguém via. Mas, tudo bem… Não tinha problema que todas as séries verdadeiramente importantes estivessem cobertas pelos colegas mais antigos, ele podia viver feliz com comentários sobre esses promissores programas. Alphas acabou sendo um acerto, mas Haven, que ele pegou em seguida, nem tanto. Todo funcionário novo sofre um pouco com as buchas que ninguém quer encarar, mas ele estava feliz de ter uma voz, de ter um olhar debruçado sobre seus textos… Seus textos que, vejam só, parecia que eram mesmo bons. Demorou um pouco, mas logo ele descobriu que havia uma estratégia eficiente para pegar a cobertura de programas que pudessem vir a ser um sucesso, sem que dependesse da indicação do editor. O nome dessa estratégia era dibs.
O primeiro dibs (o nome de um sistema de reservas) foi para essa estranha combinação de referências criada por Ryan Murphy. Deu certo e logo que se tornou um sucesso, também fez com que o trabalho dele também começasse a sofrer severos julgos. Quando veio o primeiro xingamento, a coisa se sacramentou: ele era um reviewer. E ele não soube lidar com isso muitas vezes… Quando começou a conseguir pegar os grandes hits, também vieram os hits do ódio e da intolerância. Ele montou até um ranking:
Greatest Hits Haters
1.Você só sabe reclamar – O grande clássico dos clássicos. Falar mal, mesmo que pelo mínimo de tempo, vai trazer à tona a fúria dos magos do tempo, que apagarão todo e qualquer elogio feito até aquele momento. Inevitavelmente, a faixa dois tem que ser:
2.Se está de má vontade, passa pra outro – Muitas vezes eles não compreendem que pode ser que NINGUÉM mais queira pegar a cobertura de uma série-tormento. Mas, falar mal não é uma questão de má vontade de quem vê. Na maioria das vezes, tudo se resolveria se não tivesse havido má vontade pra fazer o episódio.
3.Você não gostou porque não entendeu – Esse é tão popular que é usado até entre eles, uns contra os outros.
4.Não tem o que falar, fica calado – Geralmente a recíproca é verdadeira.
5.Geralmente concordo com você, mas dessa vez só falou merda – Essa assopra primeiro e depois morde. O único tratamento possível é parar de contrariar, o que já trai por si só o princípio de liberdade de expressão.
BONUS TRACKS
1.Não enrole, vá direto ao ponto – Essa faixa foi mais voltada pra ele, que como efeito colateral de tanta paixão, se expressa com deleite pelas palavras. Nem todo mundo entendia isso, então sempre parecia que ele era…
2.… pretensioso. Vai falar difícil na sua casa e chega de filosofia de botequim – A mais dolorida de todas, sem dúvida. Era nessas horas que ficava difícil respirar e evitar o impulso da resposta. Algo que ele nem sempre conseguiu fazer. Houve muito engano até que ele compreendesse que não precisava agradar todo mundo. De fato, ele ainda está exercitando essa compreensão.
Muitas vezes ele incomodou os colegas com pedidos de aprovação, com inseguranças que só o tornavam mais egocêntrico, simplesmente porque em alguns momentos, desagradar doía muito, muito mesmo. Quando ele imaginava uma pessoa, no trabalho ou em casa, dedicando algum tempo simplesmente para abrir e ler um texto dele, o que ele mais queria era que aquele momento valesse a pena. Mas, acontecia com muita frequência o desencontro entre intenção e reação. Tudo bem, fazia parte, ele podia aprender a filtrar. Se houve temporadas de muito ódio ao falar mal de Homeland e falar bem de Coven, também houve o prazer quase transcendental de falar para os espectadores apaixonados de Asylum e Spartacus. Falar… Falar… E ser ouvido. Para um adorador da escrita, nada pode ser mais importante na vida que poder ser lido.
Por causa do exercício do Dibs ele quase se matou… Chegou a cobrir mais de 10 séries ao mesmo tempo. Mas, as compensações eram lúdicas e concretas. Ele sabia que havia gente esperando pelos textos, cobrando os textos e esse senso de obrigação, para ele, era definidor. Ele queria ser lido na mesma proporção em que certas coisas precisavam ser ditas. Então, um dia de dor passado com as críticas a um episódio de Game Of Thrones, podiam ser eclipsados pela chance de conhecer atores da série, o que só foi possível porque ele esteve ali, sempre disposto a seguir, a trabalhar, a ser espectador e analista, a ser fã e crítico, a ser leitor e autor… Tudo porque foi com esse trabalho que ele se aproximou do sonho. Há encantamentos que são reais, enfim.
Essa semana o texto número 500 dele foi ao ar. Nada demais se comparado a quem escreve há muito mais que 5 anos. Mas, para ele é como se essa fosse uma marca não do que ele foi capaz de fazer, mas do que teve o privilégio de sentir. 500 expectativas, 500 chances de ser lido, 500 vezes em que poderia ter sido elogiado ou criticado, 500 pedaços dele espalhados pela rede, ganhando o mundo, provocando um arrepio ou um franzir de testa… 500 momentos em que a vida teve mais sabor… Hoje começa a nova jornada e a página 501 só carrega agradecimentos e plenitudes. Nem sempre é bom, tem vezes que dói, há noites mal dormidas, há bloqueios e amarguras, mas nada disso supera o prazer de ser um reviewer, de ser um fã, de ser maníaco, de ser um Série Maníaco.
Michel Arouca, um agradecimento especial a você, que torna isso possível. Thank you, Boss.





















