Farelos pela goela abaixo.

Quando éramos crianças, as nossas mães costumavam ser mais tolerante e perdoar algumas de nossas escolhas sociais. Criança brincando com criança, segundo elas, não poderia gerar danos morais a longo prazo, ainda que os coleguinhas não viessem de áreas previamente aprovadas por elas. Na adolescência, entretanto, a coisa muda de figura. Muitas são as razões que levam os pais a desaprovarem ligações que possam representar danos futuros. Eu sempre ouvia da minha mãe: quem se mistura com porcos, farelo come. Ainda que haja exagero na afirmação, existem certas companhias que, direta ou indiretamente, podem provocar reflexos de alto teor de risco.

O episódio nove dessa segunda temporada de House Of Cards, veio pra começar as condenações de quem está do lado mais fraco do cabo de guerra. A briga entre Frank e Tusk passou do jogo de pressões discretas para o embate político direto. E agora, nesse ponto da história, passou a lançar mão de ataques pessoais bastante inconvenientes. E essa inconveniência virou uma pedra no caminho de Frank, por que, enfim, sua reputação já não está mais tão ilibada quanto antes. Ele tem o que temer, e Claire também.

Tusk tentou agir pela lateral, em primeira instância… Afetar Claire seria uma forma de tornar as feridas de Frank menos imunizadas. Ele não poderia fazer qualquer movimento de resposta sem pensar primeiro no que isso faria com a esposa. Curiosamente, apesar de termos passado tanto tempo imaginando que a principal falha no plano de Claire era a mentira que contou no meio das verdades sobre o aborto, no final das contas, o caso com Adam é que acabou vindo à tona e expondo-a como potencial traidora. 

Ou não… O Sistema de Cobertura de Danos de Frank Underwood agiu e daquela boa e velha maneira agressiva, que mata qualquer ternura na forma como Claire e seu amante se viam. A foto dela, vazada pra imprensa, seria suficiente para sacramentar as dúvidas que a opinião pública começaria a ter sobre ela, mas se tudo vira um embuste da oposição para caluniá-la, os fatores podem se inverter até um ponto em que a imagem do casal permaneça segura. E é isso que acontece, ainda que custe à Claire o desprezo e o ódio do homem a quem ela recorria quando queria ser meramente desejada. Adam comeu os farelos que lhe custaram a reputação de uma vida. 

A outra “baixa moral” da semana ficou por conta do obscuro Freddy. Nunca soubemos muito sobre ele ou sobre como a amizade com Frank surgiu, mas ficou bem claro que o plot do filho rebelde surgiu para tornar esse momento mais forte. Tusk atacou pelas trincheiras que podia e usou as vulnerabilidades do cozinheiro pra mostrar à Frank que tem mais gente por aí que sabe usar a lama como munição. A perspectiva de Freddy perdendo tudo foi incômoda, não chegou a comover, mas me atingiu. De certa forma, ele sempre era responsável por mostrar o protagonista com alguma ternura no olhar. 

O jantar de farelos malditos pode não ter terminado aqui… A cada episódio, Remy soa mais como um capanga de Tusk do que o lobista orgulhoso dos próprios argumentos. Stamper já sabe qual é o seu lugar, mas a chegada de Seth e sua insistência em manter Rachel viva podem lhe tornar uma outra opção de descarte. O curioso é que ao mesmo tempo em que House of Cards aproxima Frank de objetivos muito maiores, ela também o cerca veladamente, como uma serpente silenciosa, sem anunciar o bote, mas também sem passagem visível para o centro dos acontecimentos. Por enquanto, os farelos estão sendo digeridos por presas enfraquecidas, mas logo a orgia moral vai precisar lidar com os porcos grandes, aqueles que mandam no chiqueiro, aqueles que obrigam inocentes a se aniquilarem em nome deles.

Artigo anteriorNCIS 11×17: Rock and a Hard Place
Próximo artigoThe Good Wife 5×14: A Few Words