“Você é muito inconsistente, acho que não está preparado… meu voto é sim!”

A presença de JLo na bancada do Idol este ano foi, a meu ver, uma boa notícia depois do desastre feminino da bancada no ano passado. Sabemos que ela não canta, que ela não entende tanto de música quanto seus dois colegas, mas a cantora é amável, carismática e esbanja profissionalismo na bancada. E, desta vez, não estamos seguindo iludidos ao longo da temporada. Sabemos que JLo não é uma boa jurada, é apenas uma jurada agradável de se ver e ouvir, e isso nos ajuda a lidar com ela e aceitá-la sem aumentar demais as expectativas.

Ainda assim, quando fazemos um retrospecto dos seis episódios de audições desta temporada – que, apesar desta última semana mais fraca, foram em média excelentes! –, fica impossível não se incomodar muito ao constatar o seguinte: TODOS os cantores que não foram “nãos” unânimes ouviram um “sim” de Jennifer Lopez. Não importa se eram três “sins”, “dois “sins” ou um só. Em absolutamente todos esses casos, se dependesse de JLo, o candidato iria para Hollywood. Não sei se ela faz isso com a falsa impressão de que isso aumenta sua popularidade (talvez entre os candidatos isso aconteça), mas a verdade é que, algumas vezes, sua tendência ao “sim” incondicional apenas irrita e passa a impressão de que ela não é qualificada para a função que está exercendo, o que é uma pena para alguém que representa o único ponto de vista feminino na bancada. “Sim” por “sim” e inutilidade por inutilidade, sou mais o “Definitely yes!” de Britney Spears no X Factor, que ao menos era muito divertido.

O excesso de positividade de JLo e sua dificuldade para dizer “não” acabam gerando algumas anomalias na competição. Dois bons exemplos estão no episódio de Salt Lake City. Vejam as audições de Carmen Delgina (filha de Gabriel O Pensador Wonder Mike, da clássica Sugarhill Gang, diga-se de passagem) e do afetadíssimo e extremamente verde DJ Bradley e digam se acham que eles mereciam seguir adiante (dica: não mereciam):

http://www.youtube.com/watch?v=SKeygV7HApk

http://www.youtube.com/watch?v=Vjb6EANVjoA

Mas toda regra tem exceções, e com JLo e a belíssima audição de Jessica Bassett, não é diferente:

http://www.youtube.com/watch?v=m5ezoeeHe94

O motivo por que o vídeo acima já começa no meio da audição é simples (e, talvez inédito, ou ao menos inédito na minha memória): a edição usou a parte inicial da performance de Jessica nas audições como canção de fundo das tradicionais cenas de bastidores com narração de Ryan Seacrest. Sim, Jessica mandou bem assim! E sabem o que Harry Connick Jr.Keith Urban fizeram? Mandaram um talento desse tamanho, uma abordagem doce, sutil e extremamente competente, ir embora com uma mão na frente e a outra atrás! JLo tentou usar seu positivismo infindável para argumentar, dizer que eles estavam deixando um grande talento escapar, mas de nada adiantou. Foi o primeiro resultado realmente revoltante da temporada, e a situação só se agravou com o sem número de artistas que ficam entre “ok, mais pra menos” e “péssimos, vazem!” na minha escala (incluindo os dois acima) sendo aprovados para Hollywood! O que esses caras andaram bebendo?

Talvez tenha sido essa falta de critérios que me passou a sensação de que a última semana de audições foi consideravelmente inferior às demais. Ainda assim, tivemos alguns destaques interessantes:

http://www.youtube.com/watch?v=ZYM8Q95HTGc

É indiscutível: o American Idol foi o reality musical pioneiro, que abriu as portas para boa parte do que está na TV atualmente. Mas também é interessante ver como ele também consegue se moldar e ser influenciado pelos próprios concorrentes. Em tempos de hegemonia absoluta do The Voice, o Idol não só decidiu perder menos tempo com performance ruins como também tentar evitar o que a FOX tradicionalmente faz em seus realities: esconder o passado profissional de seus participantes. Paisley Van Patten cantou maravilhosamente bem sua versão de “When The Lights Go Down”(Faith Hill) e me deixou muito animado para vê-la novamente. O The Voice ensinou, e o Idol parece disposto a aprender: não é porque essa moça já lançou um CD antes que vamos gostar menos dela. Entendemos que ela está no show porque precisa dele, e é melhor abrir esse tipo de informação do que escondê-la para fingir um anonimato que certamente seria desmentido, como costuma acontecer nos realities da emissora. Gostei muito, tanto da candidata como da nova postura do programa.

http://www.youtube.com/watch?v=qbbauQPjVzU

Alex Preston não tem a aparência mais convidativa do mundo, mas fui com a cara dele. Além disso, adoro quando o talento é grande suficiente para que qualquer aspecto físico de um candidato se torne um detalhe esquecível, e foi exatamente o que aconteceu aqui. Sua música original mostrou não só voz, mas também talento musical e criatividade invejáveis. O Idol não costuma gostar de levar candidatos que não sejam fisicamente atraentes até os Lives, mas espero que voltemos a ver Alex e que ele continue fazendo um trabalho que o possibilite quebrar esse paradigma.

http://www.youtube.com/watch?v=Fh8YKqJTgD8

Quem não terá problemas com a aparência é Austin “bad-ass-name” Wolfe, que tem uma voz tão linda quanto ela própria. O fato de uma candidata como ela ter escolhido a sensacional “Radioactive” (Imagine Dragons) só me deixa ainda mais intrigado em relação ao que ela tem a nos oferecer. Austin figura facilmente no meu Top 10 da etapa de audições com essa apresentação.

http://www.youtube.com/watch?v=mzhbGtWkl7c

O último candidato de Salt Lake City que destaco é Johnny Newcomb. O rapaz de 16 anos tem uma bela voz, mas realmente soou parecido demais com Eddie Vedder, do Pearl Jam, em sua interpretação de “Last Kiss”. Houve também uma sensação de voz tremida, provavelmente devido ao nervosismo. Ainda assim, os jurados tomaram a decisão certa em deixá-lo passar. Há uma boa dose de talento não lapidado nesse garoto, e mesmo que ele não esteja preparado para uma competição do nível do Idol e provavelmente vá ficar pelo caminho ao longo da Hollywood Week, é importante para alguém com esse perfil acreditar em si mesmo para, quem sabe, retornar no futuro.

O episódio de Omaha foi ainda menos aproveitável do que o de Salt Lake, mas há duas moças que merecem, e muito, nossa atenção.

http://www.youtube.com/watch?v=9CS-lcZQtzU

Casey McQuillen tem o tipo de sutileza que eu adoro em candidatos de competições musicais, onde timbres supercaracterísticos ou acrobacias vocais costumam dominar. Sua versão de “Skyscraper” (Demi Lovato) foi repleta de simplicidade e, ao mesmo tempo, de decisões vocais extremamente bem tomadas e bem executadas. Fiquei apaixonado pela rouquidão de sua voz e pelo belíssimo vibrato, e, mesmo com uma edição bastante discreta, acabei considerando Casey a minha favorita da semana.

Essa mesma edição nos havia reservado, sem muito alarde, outra bela surpresa para nos apresentar por último nesta temporada:

http://www.youtube.com/watch?v=SGQ-t8TIH9s

Pra não dizer que eu só falei mal de JLo, vou dizer que o feedback com o qual mais me identifiquei para Tessa Kate e sua versão de “Folsom Prison Blues” (Johnny Cash) foi o da jurada. Fiquei com a mesma sensação de “chipmunk territory”, mas, no meu caso, isso pode, sim, ser levado a mal. Além disso, é levemente estranho ouvir alguém cantando uma música com esse conteúdo tão alegremente, e isso, a meu ver, denota falta de conexão. Apesar de tudo isso, Tessa tem um enorme e naturalíssimo talento e cantou muito bem, além de parecer extremamente simpática. Mas, se não tomar cuidado com esses dois aspectos, pode acabar incomodando e sendo eliminada precocemente da competição.

No fim das contas, a etapa de audições do Idol acabou sendo extremamente bem sucedida no propósito de funcionar como um aquecimento para o que vem por aí. Senti um frescor, um ar de novidade, que não estava presente desde a décima temporada, e achei as novas decisões tomadas, como a câmara que precede a audição e as interações com os leitores nos intervalos (“adivinhe se essa pessoa vai passar”), extremamente bem-vindas! Estou animado com o restante da temporada, consideravelmente feliz com o painel de jurados e muito otimista em relação ao talento que ainda veremos daqui para a frente.

E me despeço tanto das audições do Idol como das reviews. Na próxima semana, daremos as boas-vindas não só à Hollywood Week (minha etapa favorita do reality), mas também ao nosso mago do American Idol, Rodrigo Coletto. Agradeço a todos que acessaram, comentaram e prestigiaram de alguma forma o meu trabalho. É claro que não pretendo desaparecer, continuarei acompanhando e comentando nas reviews. Mas espero que a cobertura destas primeiras semanas de Idol tenha sido tão proveitosa para vocês quanto foi pra mim. Fiquem à vontade pra mandar ver nos comentários e dar o feedback de vocês, tanto do programa como da review. Concordam com minha posição em relação a JLo, ou será que estou muito rígido? Salt Lake e Omaha também foram um pouco abaixo do esperado pra vocês? Quem foram seus favoritos até aqui? Obrigado por tudo, e nos vemos pelo SM!

 

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.