A coroação do talento e da diversidade artística.
Se tem algo que marcou essa temporada revival de American Idol na ABC é a constante mudança. Mudança de emissora, do pessoal responsável nos bastidores, das tomadas de decisões, dos jurados, de timeslot e até da escolha do vencedor, o velho American Idol é um novo American Idol. Ainda que na primeira semana havia dito o quanto o programa parecia o mesmo, como se nunca houvesse sido encerrado, com sua edição e espírito intactos, o programa acompanhou o movimento de mutação durante suas semanas de duração e celebra pela primeira vez o diferente.
A coroação de Maddie Poppe como a vencedora da décima sexta temporada do programa é revigoradora. A primeira cantora e compositora multi-instrumentista, de nicho muito específico, a vencer o Idol é algo inimaginável ao comparar com o histórico dos vencedores, principalmente quando pensamos no apelo de seus adversários com um gênero muito mais popular como o country. Apesar de tudo, é uma vitória merecida e dominante.
Sua regularidade e consistência foi crucial para a vitória e, mesmo com o pouquíssimo tempo de tela recebido antes do Top 24, Poppe conseguiu crescer na competição ao demonstrar que para ser um Idol basta ser competente.
Como temporada em si, o primeiro ano do American Idol na ABC é marcado por um misto de erros e acertos. A temporada, que pode ser vista como um teste da emissora, foi extremamente curta e tivemos de abrir mão do desenvolvimento dos participantes por conta da limitação das datas (limitação em parte contribuída por conta da agenda de shows de Katy Perry, registra-se), o que contribuiu para uma série de eliminações apressadas e precoces.
Falando nas eliminações, eu fui bastante crítico quanto ao formato e à janela de votação durante a temporada. Gosto do imediatismo do formato e da exclusão do “filler” que o programa de resultados causava, além de que é uma solução mais simples e menos confusa comparado ao que a Fox fez em suas últimas temporadas, mas há aspectos que precisam ser revistos. Mantenho a opinião de que abrir os votos antes das apresentações torna o programa em uma competição de popularidade e não de talento, e por isso acredito que seria mais funcional e justo se tivéssemos uma janela de 10 ou 15 minutos após o último competidor a se apresentar (ou, no caso das últimas semanas, com cada um se apresentando mais de uma vez, abrir os votos ao final da primeira rodada de apresentações).
O painel de jurados, que começou excelente durante as audições, precisa entender que eles estão lá para cumprir o papel de julgar e criticar as apresentações, os “Live Shows” foi um show de irrelevância e de ausência de críticas construtivas, ainda que Katy Perry tenha subido o tom durante a primeira noite da final. Falando especificamente de cada, Perry foi a alma da temporada, para o bem e para o mal. Fornecendo bons momentos cômicos e se tornando a jurada mais vocalmente crítica do painel, Perry fez um excelente trabalho pré-“Lives”, fornecendo feedback construtivo para os participantes, em contrapartida os esqueceu no churrasco ao chegar na fase ao vivo e passou a dedicar seu tempo a momentos constrangedores para ganhar atenção (como sua interação com a nova Bachelorette, Becca Kufrin, durante a final).
Confesso que a maior surpresa da temporada acabou sendo Luke Bryan. Talvez não sendo o mais criativo com suas críticas, foi possível ver Bryan mais solto e menos comedido no painel, crescendo junto com a competição e entendendo seu papel, além de protagonizar com Perry os momentos mais divertidos dessas onze semanas. Já Lionel Richie nunca conseguiu entregar o que se esperava dele. Mais experiente entre os três, fiquei decepcionado ao ver Richie evocar o passado recorrentemente em analogias forçadas e ser extremamente passivo com as críticas.
Quanto ao nível dos participantes, me surpreendi positivamente com a capacidade de o programa, após dezesseis anos, continuar a revelar bons artistas dos mais variados estilos musicais, além do claro tom progressista da temporada, nos dando o mais diversificado e inclusivo grupo de finalistas da história da franquia.

Falando sobre o que cada finalista nos apresentou para ganhar o título, precisamos olhar em perspectiva a jornada de cada um deles. Começando pela terceira colocada Gabby Barrett, o próprio programa decidiu endereçar uma das principais críticas que Gabby recebeu durante toda a temporada, que foram as alegações de querer personificar Carrie Underwood. Em conversa com o radialista e mentor Bobby Bones, que retornou nesta última semana, Barrett diz que recorreu à Carrie por estar nervosa e que durante as semanas tentou compensar em suas apresentações tentando ser mais “ela mesma”. O problema é que durante as semanas Gabby acabou emulando diversas artistas ao interpretar suas músicas: foi assim com o tom nasal de Miley Cyrus em “The Climb”, alguns movimentos de palco de Miranda Lambert em “Little Red Wagon” e até mesmo “Last Name” da própria Carrie Underwood na semana passada. Inconscientemente, Barrett deixou de mostrar sua própria identidade e uma progressão da sua identidade enquanto artista, mas não acho que este tenha sido o maior problema dela nesta final.
Competindo com dois cantores extremamente regulares, Gabby sentiu a pressão da final e teve a sua pior semana na temporada exatamente quando não podia. Em sua primeira canção, o possível winner single “Rivers Deep”, escrito pela ex-The X Factor Ella Henderson, senti que tivemos um problema no corte da música e no arranjo que a prejudicou. Como dito por Perry e Richie, a versão de estúdio acaba funcionando melhor e a transição para a versão ao vivo acabou matando as melhores qualidades do winner single mais bem escrito entre os três.
Ao reprisar “Little Red Wagon” como sua canção da temporada, Barrett acabou contida e presa por conta do figurino, sem poder explodir e explorar o palco como na primeira vez, apesar de me parecer ter sido melhor conduzida vocalmente, ainda que tendo uma tensão não natural em sua voz. Mas o grande desastre da noite ainda viria com “Don’t Stop Believin’”, em um número problemático vocalmente, nível karaokê na Liberdade, vimos Gabby assassinar a música e ver o coitado do Steve Perry, vocalista da Journey, sair de casa pra chamar isso de “melhor versão que já ouviu na vida” como o momento mais vergonhoso e problemático da temporada. Pareceu que a produção tentou criar um momento para Gabby, com essa “surpresa” planejada, mas ela própria se sabotou de maneira cruel e o tiro saiu pela culatra.
Apesar de tudo isso, eu ainda acredito que Gabby tem potencial e pode vir a ser uma grande estrela country. Ela é uma grande vocalista e, sem a pressão e o nervosismo da competição, tem tempo e espaço para se desenvolver enquanto artista, mas pra isso ela precisa encontrar sua própria identidade, procurar seu próprio estilo e, principalmente, parar de tentar emular outros cantores, só assim conseguirá sobreviver em um saturado mercado country.

Antes das apresentações da final, eu confesso que temia pela vitória do Caleb Lee Hutchinson porque não vinha gostando do que ele tinha apresentado durante os “Lives”, mas isto era puro viés e gosto pessoal. Eu até gosto bastante de country, mas nunca me senti conectado com o que Caleb apresentou previamente na competição, até esta final.
Sua primeira apresentação, com o possível winner single “Johnny Cash Heart”, escrito por James Slater, Kat Higgins e pelo vocalista da Rascal Flatts, Jay DeMarcus, começou com um pequeno erro na entrada do primeiro verso, com Hutchinson o antecipando, mas seria um erro irrelevante se a música lhe oferecesse mais. Enquanto produto, me parece uma música que mais compõe um álbum do que um primeiro single e, principalmente, um single de lançamento de carreira. Acredito que ela até atenda a seus vocais e evidencia suas qualidades, mas é linear e acaba sendo monótona, ainda mais quando Hutchinson fica nervoso por conta do deslize e não relaxa como a música exigia.
Por outro lado, é preciso dar créditos para Hutchinson onde créditos são devidos. Sua reprise com a belíssima “Don’t Close Your Eyes” é basicamente perfeita. Mais confortável com uma canção que explora seu registro mais grave, Caleb conseguiu entregar uma apresentação com excelentes vocais e transmitir uma emoção genuína, que é ainda mais evidente se comparada ao seu possível primeiro single. Já “Folsom Prison Blues” foi uma mudança de ritmo interessante, vê-lo com algo mais upbeat e tendo um solo de violão para explorar com seu carisma deveria dar certo se não fosse pela completa falta de traquejo e de presença deste rapaz no palco. Não há problemas vocais aqui, como eu imagino que eu não tenha tido nenhum problema com vocais em alguma apresentação dele, mas ele não consegue se soltar no palco nem quando a canção praticamente implora para isto.
No mais, havia sido uma noite sólida e regular de Hutchinson, com uma excelente apresentação e duas exibições regulares (e, ainda assim, superiores às de Barrett), mas que não lhe foram suficientes para o premiá-lo como vencedor do programa, encerrando sua participação em segundo lugar. Em relação ao futuro, Caleb Lee Hutchinson tem uma excelente voz e também apresenta potencial para crescer na indústria, tempo e experiência serão fundamentais e um bom time de produção com canções que consigam explorar seu timbre devem lhe dar o mesmo sucesso conseguido por Scotty McCreery, sem sombras de dúvidas.

Se você tem acompanhado os textos desta temporada com regularidade, deve saber o quanto Maddie Poppe cresceu em minhas preferências e deve imaginar que eu torci por sua merecida vitória na última segunda-feira. É inegável a capacidade de Maddie em transformar suas escolhas musicais em versões extremamente bem construídas, fora sua competência regular em suas execuções. Entendo quem não goste de seu gênero e, portanto, possa não ter comprado o seu apelo, mas não podemos diminuir o feito da sexta mulher a vencer o programa (se juntando às históricas Kelly Clarkson, Fantasia, Carrie Underwood, Jordin Sparks e Candice Glover).
Quando ouvi seu winner single, “Going Going Gone”, co-escrito com a cantora pop Julia Michaels, eu senti uma vibe Phillip Phillips e, considerando o fracasso em primeiros singles desde “Home” do próprio Phillips, foi a canção que mais se aproximou de algo que eu consumiria e que eu vejo com potencial comercial. Com um refrão extremamente cativante e fácil, é uma música que me parece funcionar no rádio e que tem o melhor conjunto entre os três apresentados, com bons valores de produção (principalmente a versão em estúdio) e bem escrito, além de ter sido bem conduzido por Poppe em sua apresentação ao vivo.
Se Caleb conseguiu ser extremamente feliz em sua reprise, o mesmo precisa ser dito sobre Maddie. “Don’t Let Your Children Grow Up”, canção originalmente apresentada no Solo Round da Hollywood Week, é possivelmente uma das melhores canções originais a serem apresentadas neste programa por um competidor (talvez ao lado de “21st Century Machine”) e a delicadeza com que Poppe impõe seus vocais é impressionante, além de demonstrar sua autenticidade, reforçando a imagem de sua competência não apenas como cantora, mas também como compositora. Por fim, “Landslide” coroa tudo o que Maddie Poppe construiu durante a temporada, mostrando sua competência vocal e seu autoconhecimento enquanto artista, além de provar todos os motivos que a levaram ao título de American Idol.
Quanto ao seu futuro, eu espero que sua futura gravadora lhe dê a liberdade criativa que merece e que consiga reproduzir com a mesma qualidade o mesmo nível de canções as quais apresentou durante sua jornada vencedora no programa. Capacidade e habilidade nós já vimos que Maddie possui, basta apenas botá-los em prática.

Com uma vitória merecida e que premia o talento e a qualidade artística, o American Idol encerra sua excelente primeira temporada pós-revival, com uma competição em ótimo nível. Para a próxima temporada, espero que a produção comece mais cedo e que tenhamos mais semanas, para poder acompanhar melhor o desenvolvimento dos participantes, e que também reveja a questão em relação à votação e implemente uma janela que seja mais justa e que não celebre a popularidade sobre o talento. Além disso, espero e torço para que os jurados voltem a encontrar o tom apresentado durante as audições e voltem mais críticos, voltando com seus comentários construtivos que tanto elogiei nas primeiras semanas, mas que ficaram esquecidos nos “Live Shows”.
> THE HANDMAID’S TALE – TEMPORADA 2, ficou torturante? 😡 feat. Carol Moreira!
Desta forma, encerro a cobertura da temporada agradecendo a vocês que que acompanharam estas onze semanas e participaram ativamente aqui nos comentários. Retornamos em 2019 para um novo Idol, ou antes para você que acompanha o The X Factor. Meu muito obrigado e até logo.
Anedotas da final que são irrelevantes para o texto, mas já que exibiram vamos falar mesmo assim:
– não entendi direito o que a produção quis ao exibir o medley de canções originais, com Harper Grace, Jonny Brenns, Michelle Sussett e Catie Turner, mas fica aqui o questionamento: como a Harper Grace não chegou no Top 24? Roubada;
– não achei que eu queria tanto um dueto entre Nick Jonas e Jurnee até eu ver isso no palco. Tinashe está orgulhosa em algum lugar da Filadélfia;
– alguém disse alpaca? Wig;
– eu não acredito que eu vivi pra ver um dueto entre Maddie Poppe e o sapo Caco (ou Kermit, se vocês insistem), só não foi mais bonito que o belíssimo dueto entre Poppe e seu outro sapo, Caleb Lee Hutchinson;
– podem criticar ou fazer piadas o quanto quiserem sobre a capacidade e competência vocal de Katy Perry, mas seu dueto com Catie Turner foi provavelmente o ponto alto da temporada pra mim, só queria esta versão no iTunes, nem é pedir muito;
– tivemos outros duetos com os demais finalistas, Cade Foehner e Dennis Lorenzo cantaram com Gary Clark Jr., Patti LaBelle com Ada Vox, mas fiquei impactado mesmo foi com Michael J. Woodard cantando com Yolanda Adams, um hino;
– nem acredito que esse programa se deu o trabalho de ressuscitar Sanjaya Malakar, tudo para promover o programa de Jimmy Kimmel que contaria com outras figuras memoráveis da história do programa… tá;
– para encerrar, as grandes vencedoras da noite foram Layla e Dyxie Spring, que receberam a surpresa de cantarem com LeAnn Rimes no momento mais adorável da temporada. Uma fofura.






















