Chegou a hora da América escolher seu Top 3 e finalistas da primeira temporada do revival do American Idol na ABC. Será que foram as escolhas certas?

Após uma semana de ausência por conta de problemas técnicos de quem vos escreve, estamos de volta para celebrar o Casamento Real os louros da renovação para uma nova temporada (como vocês já haviam lido aqui), mas também ver perdas inesperadas e uma formação de finalistas que nos remete à décima temporada.

Diferentemente da semana da Disney, não tivemos um programa megalomaníaco na questão de entretenimento. Com episódios mais contidos e mais sérios, ainda que Perry e Bryan insistam em manufaturar momentos engraçadinhos, o programa encaminha sua temporada para a reta final com boas apresentações, mesmo repetindo os erros apontados anteriormente. Ainda temos jurados passivos demais e um processo de votação que soleniza a popularidade e não o talento, além de eliminações brutais em formato expresso à la The Voice, mas se a produção não despendeu esforços para corrigi-los até agora, não deveremos ver mudanças ao menos até o fim deste ano, infelizmente.

Quanto à competição, no primeiro destes dois episódios, vimos o Top 7 prestar tributo a Prince e à sua discografia, além de passar por canções dos anos de nascimento dos participantes, um tema clássico da franquia, acompanhados de uma sessão dispensável de mentoria com Nick Jonas. Em compensação, no episódio seguinte o Top 5 teve a oportunidade de ter uma sessão e tocar na infinidade de hits da mais bem sucedida vencedora da história deste programa, Carrie Underwood, que ainda subiu ao palco para cantar See You Again” com os participantes e também performar seu novo single, “Cry Pretty”. Além de ter Carrie como tema, os candidatos ainda prestaram uma bela homenagem às suas mães cantando músicas para suas progenitoras em celebração ao dia delas.

Começando esta análise pelas eliminadas do Top 7, não tivemos surpresa ao não ver o nome de Jurnee ser anunciado como salva por Ryan Seacrest. Jurnee abriu os trabalhos com um bom tributo a Prince, em uma performance vocalmente excelente e com uma boa condução de palco com “Kiss”, dando uma boa interpretação e alcançando um registro altíssimo de forma extremamente elegante e sem fazer grandes esforços. Jurnee demonstrou todo o seu alcance na noite de sua eliminação, se expondo ainda mais ao fazer “Back at One”, embora tenha tido problemas em algumas notas. Era de se esperar que ela, a última dos escolhidos exclusivamente pelos jurados para ir ao Top 10, seria eliminada nesta primeira parte e não houve surpresas por aqui.

Mas com Catie Turner o tombo veio e foi real. Front-runner e favorita desde o primeiro dia, eu imaginava que Catie sofreria da síndrome do segundo lugar (ou talvez terceiro, depende da temporada) e seria eliminada ao menos entre os três primeiros lugares, mas engano meu. Não acredito que o esquecimento dos primeiros versos de “Manic Monday” tenha sido crítico e decisivo para seu adeus ainda no Top 7, claro que por conta do erro ela tenha ficado nervosa e errado notas que normalmente não erraria, mas mais de três quartos dos votos já haviam sido registrados naquela altura da noite, além de que este tipo de erro seja a princípio mais benéfico do que maléfico, do ponto de vista estatístico (só para esclarecer, erros normalmente causam um efeito de “simpatia” no público, desde que não seja reincidente). A popularidade de Catie acabou sendo uma virtualidade na disputa, nunca se concretizando em realidade e uma leitura errada por grande parcela do público (eu incluso). Catie ainda performou “Oops… I Did It Again” como canção do ano em que nasceu, dando uma versão diferente e interessante, que me lembrou ao que Joey Cook havia feito com “Fancy” na décima quarta temporada. Tive novamente alguns problemas com afinação e novos erros em algumas notas, mas foi uma performance interessante e bastante inteligente. A analogia de Katy Perry dizendo que foi como ver Amy Winehouse cantando uma música da Britney Spears resume perfeitamente o que foi esta apresentação.

Agora, avançamos pela temporada e trocamos o foco para os outros dois eliminados do Top 5, a começar pelo roqueiro Cade Foehner. Ainda pelas apresentações pelo Top 7, Cade fez uma performance pavorosa com “Who Will Save Your Soul”, com um registro grave incompreensível (e o já recorrente problema de emissão e dicção, que a este ponto estou exausto de apontar) e tentando segurar em notas mais agudas, que também apresentaram problemas de afinação. Até mostra uma melhora com “Jungle Love”, mas nada muito significativo, demonstrando novos problemas vocais, com uma apresentação extremamente linear, sem dinâmica e variação vocal, montada em um único tom e sem alcançar nota alguma. Cade se tornou na minha maior decepção dos “Live Shows” na temporada e eu comecei a ficar preocupado de ele roubar uma vaga na semana final apresentando estas performances em tão baixo nível.

Mas foi uma preocupação que passou, ao ser eliminado em uma nova rodada de apresentações. Dando sua voz à “Undo It”, da discografia de Carrie Underwood, tivemos uma apresentação que começou com um filtro cafona e seguiu um bom nível de atitude, mas atitude não é tudo, e seus problemas de tom e notas problemáticas em seu registro mais grave se repetiram aqui também. Aqui cabe mais uma daquelas nossas comparações com antigos participantes e o registro fica para a versão de Caleb Johnson, vencedor da décima quarta temporada, e fica ainda mais gritante a diferença em qualidade do que Foehner tem trazido quando comparado a um outro cantor de seu nicho. Sua despedida só não foi ainda mais melancólica, em questão de qualidade de execução porque sua versão de “Simple Man” é bastante consistente, bem conduzida e seu melhor trabalho vocal até então nestes “Live Shows”.

Por fim, o último eliminado dessa leva foi mais uma vez inesperada pelo seu nível e regularidade de apresentações. Dono do melhor humor e melhor personalidade da temporada, ver Michael J. Woodard ser eliminado para a manutenção do status quo country foi decepcionante. Sua apresentação de “I Would Die 4 U”, no entanto, não foi perfeita, com um sério problema de enunciação que o fazia engolir os finais das palavras. Por outro lado, foi uma performance energética, com bom domínio de palco e que o fez parecer bastante confortável, mesmo ao interagir durante o número com Sheila E., parceira musical de Prince que acompanhou os participantes em seus tributos. Para o tema do ano em que nasceu, Michael foi buscar em Titanic, filme que até então não havia visto, sua inspiração para escolher o clássico “My Heart Will Go On” e apresentar um número coeso e intrigante, bem construído e bem conduzido vocalmente (apesar de algumas notas erradas aqui ou ali).

E sua caminhada de boas apresentações continuou no Top 5 com uma presença de palco genuína e extremamente confortável com o hino “Flat on the Floor”. Dentro das limitações do tema, eu esperava que ele buscaria uma fuga mais previsível na discografia de Underwood, mas não, ele novamente mostrou sua versatilidade em uma boa apresentação. De volta à sua zona de conforto, homenageou sua mãe com “Still I Rise”, de Yolanda Adams, em uma excelente exibição vocal, demonstrando seu alcance, ao mesmo tempo entregando emoção. Não acho que foi maravilhosa e acredito até que tenha sido uma escolha errada, mas foi no geral uma performance sólida. Sua eliminação é decepcionante no escopo da competição, mas Katy Perry também está certa de que este rapaz tem o potencial de ter uma carreira tão bem sucedida quanto Jennifer Hudson.

Enfim, chegamos aos três participantes que irão disputar o título de American Idol no próximo final de semana, com lembranças e similaridades com a final ocorrida em 2011. Na décima temporada, vimos o cantor country Scotty McCreery levar o título batendo a também cantora country Lauren Alaina, com Haley Reinhart em terceiro. Temos, este ano, basicamente a mesma configuração. Dois cantores country, Caleb e Gabby, e Maddie na mesma situação, embora deseje por um resultado diferente.

Não acho que Caleb Lee Hutchinson mereça o prêmio com base no que tem apresentado ou pela sua jornada na competição. Ele não tem a força e o carisma de Scotty, mesmo sendo um cantor com um alcance e uma extensão vocal maior. Apesar de eu acreditar que ele não mereça vencer, isso é diferente do que eu acho que irá acontecer. É bastante provável que a América decida por premiá-lo, mas caso vença acredito que seria injusto com suas adversárias, que tem demonstrado uma regularidade maior e apresentações com melhor qualidade. Sua versão de “Amazed”, de Lonestar, é vocalmente muito boa, mas tem a profundidade e o apelo emocional de uma porta, em mais uma de suas escolhas previsíveis e sonolentas que ninguém se importa. Entretanto, vimos um outro Caleb em “When Doves Cry” e sua melhor apresentação vocal da temporada, em uma versão que funcionou para o seu estilo e que o faz entregar a emoção com o peso que ela deveria ter sido entregue.

Reforçando esse aspecto de irregularidade em suas apresentações, Caleb voltou a apresentar problemas ao tentar interpretar “So Small”, de Carrie Underwood, com vocais problemáticos e instáveis, extremamente afetados por nervosismo. Katy Perry, mais uma vez, é precisa ao criticar sua falta de presença e sua execução preguiçosa, dizendo que há (ou havia, no caso) gente performando melhor do que ele. Já “Stars in Alabama” o coloca de novo em seu habitat natural (ainda que cantar Carrie Underwood não fuja muito do que ele faz), mostrando o poder de seu grave e com uma execução melhor acertada, mas o faz parecer um “one-trick pony”, sem recursos e sem versatilidade. Isso é suficiente para ser um American Idol?

Falta de versatilidade ou irregularidade na competição são coisas das quais não podemos atribuir à Maddie Poppe. Maddie tem demonstrado, desde o início da temporada, uma habilidade absolutamente incrível de variar entre gêneros e explorar lacunas inesperadas mesmo quando fazia canções previsíveis, algo raríssimo em qualquer artista pop da atualidade. Além disso, ela tem demonstrado um excelente gosto musical, com escolhas sempre muito precisas e que oferecem a ela oportunidade de demonstrar toda a extensão de seu registro vocal nas mais variadas formas. “Nothing Compares 2 U”, por exemplo, é praticamente perfeita, com muita autenticidade e artisticidade própria que falta a seus principais adversários, além de impor a emoção necessária pra se criar uma conexão com o telespectador. Além de excelente cantora, Maddie também vai expondo sua variedade em quantidade de instrumentos tocados na temporada, tocando piano nesta canção e guitarra na próxima. Com “If It Makes You Happy”, Maddie explora até o seu lado country-rock/pop-rock de Sheryl Crow. Foi mais uma excelente condução vocal, com um controle incrível e um tom rouco belíssimo nas notas mais altas.

Se isso não fosse suficiente para dar a ela uma vaga na final, ela ainda voltaria ao palco para outras duas ótimas performances. A primeira sendo “I Told You So”, com uma habilidade muito parecida com a de Carrie em contar uma história. A forma como Maddie trabalha os versos e como olha para as câmeras é muito mais impressionante do que uma música com notas altas e sem apelo emocional, é muito mais eficaz do ponto de vista técnico e muito mais eficiente do ponto de vista do telespectador, você se sente cativado pelo apelo dela. E “God Only Knows”, uma de minhas músicas preferidas de todos os tempos, é ainda mais impactante, como se fosse possível. Se tem alguém que merece esse prêmio, este alguém atende pelo nome de Maddie Poppe.

Por fim, a última finalista da temporada é a pessoa que tem o maior apelo comercial da disputa. Gabby Barrett tem a aparência, tem a voz e tem a personalidade de uma estrela, mas sinto que não é algo instantâneo, ela precisará se desenvolver muito mais ao final da temporada para efetivamente se tornar uma estrela do que Maddie, por exemplo, que parece pronta neste momento. É indiscutível que Gabby terá um futuro brilhante independente do resultado, ainda que precise trabalhar estes pontos negativos. Um deles é sua inabilidade de criar conexão entre o telespectador e a canção. Um performer é um emissor da mensagem e se ele é incapaz de a compreender para emiti-la a nós, receptores, a mensagem se torna vazia. Isso é perceptível quando ela tenta criar momentos que funcionariam na teoria, porém são como conchas no oceano. Aconteceu com “I Hope You Dance” e com, principalmente, “I Have Nothing”. São duas interpretações muito bem feitas, com vocais impecáveis e um domínio pleno dos aspectos técnicos, mas que não funcionam porque ela não se conecta à música e, por consequência, não nos traz a emoção necessária.

As outras duas músicas apresentadas por Gabby nestes dois episódios foram melhores, entretanto. “How Come U Don’t Call Me Anymore” é um espetáculo vocal e que funciona, diferentemente das duas anteriores, com atitude, com alma e conseguindo transmitir a mensagem da canção. Já com “Last Name” voltamos àquela questão levantada anteriormente na temporada em outra vez que ela fez uma canção da Carrie. Há diversas formas de se interpretar um artista, mas Gabby insiste em querer emular a artista que está cantando, sem botar sua própria identidade na canção. É mais um bom número vocal, extremamente consistente, mas o que a diferencia da original? E este é o meu maior problema com ela no geral, eu quero um novo Idol, não alguém imitando uma pessoa que já foi coroada treze anos atrás.

Assim sendo, com Gabby Barrett, Caleb Lee Hutchinson e Maddie Poppe, o American Idol apresenta seus três grandes finalistas e coroaremos já na próxima semana o sucessor de Trent Harmon (que apareceu da cova para se divulgar, é claro). Foram dois episódios com eliminações questionáveis, em um misto de choque e previsibilidade, mas com boas apresentações no fim das contas. Temos a confirmação do tradicional retorno de “Homecoming” para a próxima semana, mas não mais que isto, nem como funcionará a dinâmica da semana final. Por isso, hora de abrir o nosso tradicional espaço de discussão na caixa de comentários: quem vencerá a décima sexta temporada do American Idol? Descobriremos semana que vem.

PS: Fica registrado que o Top 7 se juntará ao vencedor da oitava temporada Kris Allen (quase 10 anos depois e ainda não aceito a derrota de Adam Lambert ou de Allison Iraheta) na turnê de verão do programa.

REVISÃO GERAL
Nota:
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american-idol-16x16-17-top-5Com episódios mais contidos e mais sérios, ainda que Perry e Bryan insistam em manufaturar momentos engraçadinhos, o programa encaminha sua temporada para a reta final com boas apresentações, mesmo repetindo os erros apontados anteriormente.