American Horror Story, uma série de meias verdades.

O ano de 1919 foi complicado para os moradores de Nova Orleans. Se o medo era comum entre as ruelas da cidade, viver com ele dentro do próprio lar não era uma realidade fácil. E por causa do Axeman, a experiência de deitar-se e dormir no conforto do quarto passou a ser realmente assustadora. O medo vinha na forma do estranho que invade e aniquila, a representação do pior pesadelo de qualquer indivíduo. Ser ceifado da vida pelo pior motivo de todos: motivo nenhum.

O mal em sua essência sempre foi tema de American Horror Story, que em sua primeira temporada já misturava elementos reais e fictícios para exemplificar essas procedências. Além da Dalia Negra, o “bem” distorcido e megalomaníaco dos atiradores do colégio Columbine estavam presentes na criação de Tate (toda a sequência dos assassinatos na biblioteca se fundiu bastante com o que aconteceu na terrível versão “real” do evento). Já em Asylum nós vimos até mesmo Anne Frank aparecer para unir-se com aquela insana dramaturgia.

Coven é um prato cheio dessas convergências. LaLaurie e Fiona já representam uma boa dose de liberdade histórico-criativa e para manter-se fiel à própria identidade, a série lança mão de aparições pseudo-procedurais de outras figuras históricas. O Axeman é mais uma delas, e com machados, realmente levou a cidade à loucura. A carta que praticamente ordenava à cidade que tocasse Jazz em todas as casas na madrugada daquela terça-feira, é conteúdo verídico. A questão é que em detrimento de todo o mal sendo ilustrado com o sobrenatural, Coven preferiu interpretar Axeman com uma proposta mais humanista.

A carta de 1919 era o diário de um demônio, praticamente. Axeman se diz mais espírito que carne. Coven resolveu fazer o caminho inverso, mostrando-o apenas como mais um assassino, que pra seu azar, entrou na casa errada. As moradoras daqueles tempos não o receberam como ele esperava e em mais um poderoso teaser, assassinaram-no com requintes de crueldade. Espiritualmente preso, Axeman tem a chance de agora sim se tornar aquilo que se elegia: um demônio espectral.

Dizem que a passagem de um cometa muda os ânimos e as energias. Axeman realmente foi chamado de “cometa” devido à sua devastadora passadinha. Em Coven ele passa de novo e serve para mexer com uma personagem que há muito tempo precisava ressurgir: Zoe. Entendo algumas críticas feitas por vocês nos comentários, sobretudo a respeito da forma como alguns personagens encontram dificuldade de se impor na história, mas, pessoalmente, acredito que o fluxo definitivo de alguns desses investimentos surgirá em forma de compensação, nos próximos seis episódios que se aproximam. Os personagens da série nunca tiveram trajetórias lineares.

Zoe resolveu fazer alguma coisa a respeito de Madison e com a ajuda da Fada Verde (O Absinto), levou consigo Quennie e Nan na busca pelo contato com a “amiga”. Os tabuleiros Ouija são velhos conhecidos no mundo das séries, mas minha experiência com invocação de espíritos se limita à uma versão tupiniquim pouco difundida: Não, não é “a brincadeira do copo”. Nos meus tempos de adolescente, no interior de Cabuçu, uma amiga resolvia de vez em quando fazer perguntas aos espíritos, e tinha uma forma muito peculiar de fazê-lo. Ela amarrava uma tesoura dentro de uma revista, de modo que as auréolas para os dedos ficassem de fora. Uma vela e um copo d’água eram colocados no centro da roda. Duas pessoas apoiavam as auréolas nos dedos indicadores, por baixo, e a revista ficava suspensa. Após a reza de invocação, o lado direito era um “sim” e o esquerdo, o “não”. A revista jamais poderia cair e após as “sessões”, a água do copo precisava ser jogada do lado de fora da casa, com a pessoa de costas para onde ela cairia.

Assisti a umas duas sessões dessas, sempre me recusando a segurar a tesoura. Tudo parecia extremamente aterrorizante, com a casa sempre toda fechada e muito silêncio. Um dia, claro, a tesoura caiu e posso jurar que quicou no chão, se recusando a permanecer lá. Minha amiga entrou em pânico, surtou mesmo, afirmava ter começado a ouvir coisas e quando chamou uma “rezadeira” para abençoar a casa, ouviu dela que nada parecia errado, mas que uma nova sessão, seguindo todos os parâmetros, talvez revertesse o processo. Ela o fez e depois nunca mais repetiu.

Histórias assim fazem parte do nosso imaginário, mas não é porque parecem corriqueiras ou fruto da sugestão emocional, que deixam de ter elementos realmente mitológicos. Quando Zoe abre a porta para Axeman, o roteiro só está sendo fiel à esses princípios. Lembram da palavra de ordem dessa temporada? Necromancia. Zoe, eu, você e todos que já fizeram a “brincadeira do copo” ou a “brincadeira do compasso” ou “a brincadeira da tesoura”, já fomos necromânticos em uma pequena proporção. No caso do que vimos no episódio, Zoe invocou primeiro a necromancia do tabuleiro ouija, depois invocou a supremacia da prática: Misty. E então, trouxe Madison de volta, ainda apenas no propósito de ser fiel ao que foi proposto pela temporada: “viver” sem realmente viver.

E Madison já voltou pedindo nicotina. Claro que providenciaram uma amnésia básica para adiar a derrocada de Fiona, mas foi muito bom ver as quatro bruxinhas em cena por tanto tempo de episódio. Elas funcionam muito bem juntas. Por causa delas, fomos levados também à uma das grandes reviravoltas da temporada: Laveau e o marido de Delia estão juntos numa missão de levar as bruxas à extinção. Kaylee foi só mais uma da lista.

Essa é uma associação profana que me agrada, principalmente porque dá uma função segura para um personagem que até então só parecia ser o marido louco de alguém. Delia também voltou muito mais interessante e estou ansiosíssimo para saber como ela se comportará nessa nova versão bem menos flexível de si mesma. Enquanto ela se fortalece na desfiguração, Fiona aparece frágil, numa sessão de quimioterapia, num recadinho vindo direto dos roteiristas: Fiona não é invencível, muito pelo contrário. A despeito de todos os seus poderes, ela está sendo vencida pela falência de seu corpo e pelo desespero de suas atitudes.

Contudo, as gerações de bruxas seguem decididas a cometer os mesmos erros. Insistem em trair a natureza, vencer a morte sendo espiritualmente sujas, prolongar a vida por meios fantasmagóricos, firmar acordos com o inferno. Zoe quer consertar Madison liberando Axeman para o mundo, numa receita que não a redime em nada de buscar alguma justiça. É a verdade histórica servindo de estabelecimento da “verdade” fictícia. No meio de tanta escuridão, a necromancia mais limpa acaba sendo praticada por uma personagem que desafia essas lógicas malignas. Misty é o cometa benigno dessa trama, porque quando ela ressuscita pessoas ela só quer que elas desfrutem a vida com flores, ervas, ventos, guloseimas, poesia e principalmente, música.

Potion Number One: Myrtle sendo regada com cuidado. Uma vingança cega brotará em algumas semanas.

Potion Number Two: Spalding é o saco de pancadas da temporada, mas mesmo que ungida de uma repentina coragem, adorei Zoe com seu modo torturadora ligado.

Potion Number Three: Cansei do Kyle.

Nota: Em respeito à quantidade considerável – mesmo que menor – de críticas à forma e ao conteúdo das minhas reviews, achei que seria válido dar duas explicações bem importantes: a primeira é que as referências que eu encontro e as analogias que faço não são absolutistas. Elas fazem parte das minhas impressões, são coisas a que sou levado a pensar. Não tenho a pretensão de achar que elas tenham sido pensadas para o episódio, mas acho que o maior prazer de ver American Horror Story está em sofrer tantas sugestões. Você estão livres para encontrar tantas outras referências e analogias, por favor, o façam. A segunda é que meu estilo de escrita se debruça sobre divagações, que em produtos tão ricos e especiais como esse, se fortalecem. Faço o possível para equilibrar comentário e reflexão, mas sinto jamais poder esvaziar-me completamente do que me constitui. Estou atento, estou buscando o melhor. Estou aqui por mim e por vocês.

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