A síndrome do ninho vazio.

Spoilers Abaixo:

Este quarto ano foi bastante produtivo para os fãs de “The Middle”. Primeiro porque a série saiu do seu lugar comum, buscou inovar, apostar em formas diferentes de humor e criar novas situações para seus personagens. Os membros da família Heck não estiveram parados no tempo, como se os atores não envelhecessem e, consequentemente, os personagens. Formaturas, empregos novos, romances… tudo o que faz parte do cotidiano de uma família comum, temperado com o bom humor dos nossos losers preferidos.

Fico muito chateado comigo mesmo quando atraso justamente bons episódios. E foi assim que me senti justamente após assistir o excelente 4×23, talvez mais engraçado que o próprio season finalle. ‘The Ditch’ reuniu todos os elementos que fizeram o diferencial nessa quarta temporada, envolvendo cada um dos Heck em plots que só se tornaram possíveis a partir de decisões tomadas tendo como base características conhecidas dos personagens ou avanços que o roteiro já havia tomado em episódios passados.

Frankie, por exemplo, pode explorar a confusão que o seu novo emprego causou, tomando vantagem pela admiração popular à profissão de médico. O mais interessante disso é notar como “The Middle” se apropria do humor para fazer uma crítica bastante contundente: o tratamento diferenciado dado às pessoas por seu status, profissão ou condição financeira. E mais, isso trouxe ainda o que Frankie tem de melhor, que é mostrar como as produções televisivas influenciam sua vida e ajuda a salvar sua pele. Foi graças a “Grey’s Anatomy” que ela conseguiu se passar por médica, citando termos e procedimentos da medicina, abrindo espaço na fila até o atendimento. Ao ser reconhecida no consultório, a atitude de tentar se passar pelo dentista me pareceu inverossímil porque não queria que seu chefe “pensasse que ela era louca” e foi exatamente o que ele pensou depois de vê-la se metendo na consulta. Porém, me lembrei que eu estava analisando Frankie, a pessoa que logo no piloto se vestiu de super heroína, foi assaltada e ficou perdida na beira da estrada com um celular sem sinal, e tudo passou a fazer sentido.

Outra coisa que me chamou a atenção em ‘The Ditch’ foi a utilização de objetos inanimados para fazer humor. É um gênero de comédia bastante recorrente na série – lembram quando a lavadora parou de fazer barulho e pensaram que ela tinha se consertado sozinha?, mas que nessa quarta temporada havia surgido em poucas oportunidades. Entretanto, ele apareceu duas vezes no mesmo episódio, quando Sue citou a exata frase que estava escrita em dos cartazes e quando a lancha apareceu andando sozinha ao lado do carro de Mike.

Aliás, após fazer essa viagem ao quarto de Sue, sinto que conheço um pouco mais da personagem. Todos aqueles cartazes pendurados nas paredes são atitudes que combinam muito com uma adolescente e ainda mais com a altruísta Sue. A série, mais uma vez, recorreu a seu histórico para fazer piada relembrando o prêmio “Presença Perfeita”, que a gente conheceu em ‘Back to Summer’ (2×24). No contexto dos telespectadores, que acompanham o esforço da Sue para entrar em diversas atividades, a provocação de Axl não fez muito sentido. Porém, no contexto do irmão mais velho, que não liga para o que a do meio faz ou deixa de fazer, ela foi ferina e serviu para desencadear uma série de emoções em Sue.

Isso acabou se tornando um prato cheio para Eden Sher abusar das expressões corporal e facial no desenvolvimento das cenas seguintes, com Sue saindo à espreita para não pegar o ônibus, entrando em casa e tendo que lidar com a sucessão de desastres que foram acontecendo ou, ainda, pelo fato de que ela perdeu o melhor dia de aula ever!

Depois de se despedir de Brick no 4×22 e de Sue, na abertura do 4×23 (que ele jamais admitiria, mas por que Axl estaria deitado no quarto de Sue?), Axl teve o momento ‘despedida’ com seu pai. Assim, eles saíram para pescar e se distrair com gatinhas. O mais legal desse plot foi ver Neil Flynn se entregando ao ridículo, coisa muito comum com Axl, Sue, Brick e Frankie, mas pouco usual com o patriarca, geralmente marcado por tiradas secas ou sarcásticas. A cena com o motor ligando e disparando lama em Mike teve bastante efeito cômico porque não estamos habituados a vê-lo passar por essas situações.

Só quem me pareceu mais apagado foi Brick e venho percebendo isso no decorrer da temporada. Ele foi o mais prejudicado ao longo desses 24 episódios porque foi o que teve mais arcos sozinhos, sem envolver outros personagens da família. Brick sempre foi engraçado por ser esquisito e sussurrar, à medida que ele cresce, deixa de ser fofo e o sussurro passa a cansar (porque isso acontece com o tempo e é normal), o personagem acaba ficando preso e perdendo um pouco da graça. Minha fagulha de esperança foi ver sua explicação para não querer chegar ao Middle School: a posição dos bebedores. Me lembrei de Sheldon Cooper e vejo bastante potencial para que Brick Heck seja um nerd de TBBT em miniatura.

Em seguida, “The Graduation” foi um daqueles episódios que consegue ser bom, mesmo não apostando muito no humor. Primeiro porque vimos Sue conseguindo tirar sua licença, com louvor, uma luta que já acompanhávamos há alguns episódios. Como ela é a personagem mais carismática, é impossível não vibrar e ficar com vontade de fazer sua dancinha ao vê-la tendo alguma conquista. E nesta quarta temporada Sue conquistou muitas coisas, como o direito de ser uma lutete e um namorado de verdade.

Brick conseguiu se destacar na season finalle, graças a excelente adição da vice-diretora Dunlap. Desde Ms. Rinsky, sua interação com algum personagem relacionado à escola não era tão divertido. As duas possuem em comum o fato de pegarem no pé do caçula dos Heck para que ele cumpra suas obrigações. É certo que Brick se virou muito bem com a apresentação das histórias da classe, compromisso que ele assumiu e esqueceu durante quatro anos, mas ganhou um novo carrasco e eu espero que Marion Ross (que também já foi avô de Lorelai Gilmore, em “Gilmore Girls”), retorne como regular.

Além disso, repare na qualidade dos diálogos envolvendo Frankie, Axl e Mike, a respeito da formatura do filho mais velho e sua fatídica ida para a faculdade. Perceba que o tom cômico foi dado graças à interpretação dos atores. O mesmo texto, em uma “Parenthood” ou “Brothers & Sisters”, adquiriria um tom mais dramático e a cena da briga pela meia branca, poderia ser um daqueles mega barracos de novela mexicana. Só que não. Tudo foi suavizado e dinamizado pela veia cômica de Patricia Heaton, Neil Flynn e Charlie McDermott. Ainda assim, conseguiu emocionar na cena final, quando Frankie e Mike presenteiam Axl com o tão desejado carro e são deixados pelos compromissos de seus filhos adolescentes e a mãe pede para que Brick nunca a abandone. É a síndrome do ninho vazio. A mesma que eu enfrentarei até outubro, quando “The Middle” retornará com novos episódios. Nos vemos lá!

 

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