A um passo de uma temporada irretocável.

Spoilers Abaixo:

Primeiro eu devo me desculpar com os fãs de Alphas. Tenho atrasado as reviews da série não pelo potencial dela, mas pela má administração do meu tempo. O programa não tem tantos seguidores (o que é um absurdo) e por isso acabo sempre o preterindo, mas que isso não desmereça essa sensacional temporada.

Em mais uma review dupla (sorry, eu sei) vamos dar uma conferida nesses dois episódios pós-apocalipse-morte-da-Dani e saber quais os rumos finais da luta entre Lee Rosen e Stanton Parish.

Em Life After Death, a temática não poderia ser outra senão os efeitos terríveis do episódio passado. A quase season finale que resultou na morte de Dani parecia ter esvaziado as motivações dramatúrgicas, e de fato, foi o momento de assentar as coisas e redirecionar as tensões.

Para lidar com a morte, nada melhor que o nascimento. Um bebê vira o foco das atenções dos personagens e é o contraponto necessário ao inferno pessoal vivido por Rosen e Hicks. Esse inferno, no entanto, não é um quadro insistente no episódio, o que pode fazer com que alguns pensem em indiferença. Eu prefiro acreditar em dinâmica. No meio de uma guerra, não dá muito tempo mesmo de lamentar as perdas.

Boa parte do episódio é dedicada a apenas dois grandes pontos: a descoberta da habilidade do bebê alpha e a evolução do relacionamento de Rachel. E ficou muito claro que o que os roteiristas buscavam era um alívio cômico, uma leveza que tirasse a série do peso dramático dos eventos anteriores.

Rachel foi o melhor exemplo disso. Enquanto poderíamos ter acompanhado um sofrimento excessivo provocado pela constatação de que ela não conseguiria nunca se concentrar no sexo, fomos surpreendidos com aquele humor de sitcom providenciado pela chegada do pai. Acaba o drama quando vemos o namorado de cuecas sendo flagrado.

E mesmo com todas as dúvidas sobre a procedência do tal bebê, a sutileza cômica estava presente o tempo todo enquanto víamos Gary se relacionando com a criança. Não podemos esquecer que a habilidade do pequenino estava diretamente correlacionada à relação de Rosen com Dani.

Lee nunca teve uma relação muito fácil com a filha, então, não deixou de ser curioso que a habilidade do bebê fosse a manipulação dos hormônios responsáveis pelo instinto de proteção. Algo levemente irônico… E que grita o destino diferente que pai e filha poderiam ter se tivessem sido afetados por essa habilidade.

Era de se esperar então que diante de tantos arrependimentos e derrotas, o episódio seguinte tratasse de um ponto sempre vigente em Alphas: a memória. Lembrar, não lembrar, induzir e resistir… Uma sempre rentável esteira de possibilidades que são exploradas com muita competência pela equipe de roteiristas.

Dessa vez não foi diferente…

Chega a ser incrível que nunca tenhamos nos perguntado como seria a memória de um homem que viveu 200 anos. E seria uma bagunça, não poderia concordar mais. Partir dessa premissa é ponto positivo novamente para a série, já que essa é uma perspectiva nova sobre Stanton e que o humaniza como nenhuma outra tentativa anterior tinha conseguido.

E falar sobre memória acaba esbarrando em vários pontos de tensão da série. Um deles é Kat. A personagem só se torna mais irresistível a cada aparição. Ela é bem construída, bem interpretada e tem uma habilidade muito interessante. Além disso, é o equilíbrio perfeito entre humor e drama e teve uma participação lindíssima nesse episódio.

É muito importante que notemos que nessa semana tivemos uma quantidade incrível de correlações e metáforas. O que pra uma série de ação, é definitivamente respeitável. E um grande responsável por isso foi Mitchell.

Vamos comemorar muito a participação de Sean Astin. Eu sou fã de carteirinha do ator, que já deixou sua marca na história do cinema em momentos como Os Gonnies e O Senhor dos Anéis. Sean entrou para viver um alpha com a habilidade de absorver e transferir memórias. Diante disso, que parceiro de cena melhor do que Kat? A Alpha que aprende qualquer coisa, mas que não registra memórias por muito tempo.

Foi fantástico… Simplesmente fantástico… Kat não consegue lembrar, Hicks não consegue esquecer, e Mitchell poderia resolver o problema dos dois se eles quisessem. Porém, pairava sobre Hicks e Kat a noção de que interferir no processo natural de memorização talvez os descaracterizasse de alguma maneira. Por mais que doesse lembrar-se de um amor perdido, no caso de Hicks, ou por mais assustador que fosse matar e esquecer o sentimento de horror perante isso, no caso de Kat.

Do outro lado, Rosen e Nina continuam seu cabo de guerra moral, trocando de papéis o tempo todo. Uma hora ele suprime e na outra, exige flexibilidade. No meio disso, as capacidades de indução dela vão começando a virar uma espécie de coringa. Não deixa de ser muito bom ver que Rosen não veste completamente sua carapuça de “doutor bonzinho”, e bota pra quebrar quando precisa.

Acredito que a descoberta de que Stanton também aje por motivações emocionais deve provocar uma reviravolta interessante. Por mais preciosas que sejam as sequências de ação do programa (e elas são), vai ser interessante ver o grupo agindo com estratégias mais sofisticadas.

Enfim, Alphas é só orgulho. Com o Season Finale se aproximando (ele será dividido em duas partes) fica muito claro que essa foi uma temporada pensada, estudada, produzida para fazer a diferença. Com todo respeito aos fãs de procedurais, mas uma boa série precisa ser desafiadora mesmo em sua repetição. E com Alphas estamos diante de um procedural 2.0, que mesmo se repetindo, não perde a chance de ser intenso, engraçado, metafórico e nervoso.

PS Alpha: Ainda não sei onde querem chegar com Gary. Além de uma participação avulsa nessa temporada, esse plot da doença da mãe parece totalmente deslocado.

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