O império dos underdogs.

Spoilers Abaixo:

O mundo está um pouco diferente… Está de um lado diferente da torcida. Se passarmos um tempinho analisando os vencedores de realities ao redor do mundo, vamos ver que uma boa parcela deles é do time dos oprimidos. Claro que não é nenhuma novidade torcer pelo rejeitado no cinema e na TV, mas torcer por pessoas reais sempre teve uma vibe distinta, assim como idolatrar artistas. A indústria é do belo. Do talentoso, sim… Mas quando ele também é belo. E já que o The X-Factor une as duas coisas (a “pessoa real” e o artista musical), é natural que reconheçamos essas novas tendências justamente nele.

Na primeira temporada tivemos um time cheio de underdogs. Havia o morador de rua, o ex-viciado, a cantora fracassada, a gorda, o feio, enfim… Um cardápio de tipos que geralmente são atacados no cotidiano social, mas que na televisão, viram heróis responsáveis por nos expurgar de nossos pecados.

Agora não está sendo diferente…

No episódio passado vimos uma maioria quase brutal de esquisitices. Com esse episódio menor, resolveram priorizar as boas apresentações. No entanto, uma boa parte delas ainda foi protagonizada pelos que não conseguiriam adentrar o show business por melhor que soubessem cantar. Britney está ali pra provar esse ponto de vista. Sem aquele rosto, por onde estaria essa garota nos dias de hoje?

Começamos com Johnny. Eu acho que fiquei mais impressionado com a beleza da mãe dele do que com ele. Não sei se foi o fantasma de Astro vindo me assombrar (eu detestava aquele garoto), mas admito que para 16 anos ele até soava bem talentoso.

No final das contas, já sabemos onde isso vai dar: um monte de apresentações similares com rap e mãozinhas pro ar.

Com a chegada de Lexa à edição, comecei a me perguntar se ela não estava aparecendo no episódio errado. A moça – que dançava como uma louca na fila – prometia mundos e fundos na sua apresentação.

Uma das que presenciou o show de Lexa na fila foi Paige. As duas compartilhavam um pedaço de coincidência, mas havia um mundo inteiro as separando. Lexa, como todas as pessoas que se julgam belas, já dava a vitória como certa. Paige, como todos os que se julgam totalmente comuns, permanecia sempre desconfiada. É um sentimento muito palpável, de como se a qualquer momento alguém fosse aparecer e dizer: quem você pensa que é?

O fracasso de Lexa é iminente. Não ficamos sabendo o que acontece com Paige, mas o recado foi dado. Assim que a morena é eliminada (não sei se notaram, mas é a inversão da morena confiante com a loira pessimista), somos invadidos por uma edição rápida que mostra um monte de participantes “belos” sendo eliminados um por um, como se na tela gritassem: Os tempos são outros. Narcisos não encontram as portas abertas de imediato.

Saímos dessa constatação a respeito da desimportância da beleza, direto para um participante que foi julgado como “nada belo”. As caretas que (principalmente) L.A faz são quase de asco. Quando Jason sobe no palco com toda sua energia positiva, ele recebe rejeição, desconfiança e deboche.

O rapaz não está nem aí pro mundo. Ele faz Britney dizer “oi” pro namorado japonês, divaga sobre suas ambições e ignora totalmente as expressões negativas dos jurados, sendo totalmente simpático com eles.

Assim que começa a cantar, Jason arrepia. No mundo que conhecemos, ele jamais ganharia uma oportunidade, mas no mundo televisivo dos underdogs, ele tem chances.

Saímos então, de San Francisco e chegamos à Providence. De cara, temos que lidar com uma piadinha forçada da edição, que aproveita o jeito meio assustador do jovem Patrick, pra dar a ele ares de psicopata.

É bem verdade que ele chega a dar medo, mas o exagero depõe desnecessariamente contra o rapaz. De certa forma, mesmo curtindo secretamente a insistência dele em permanecer no palco, fico consternado quando vejo pessoas abrindo mão de suas identidades para viverem à sombra dos famosos. Patrick vai embora fingindo que seu maior ídolo não acabou de ser totalmente indiferente à ele.

Graças a Deus, temos a audição de Carly.

Fechamos outra noite com um verdadeiro desbunde de talento. A menina é simplesmente incrível e protagoniza outra pérola do programa. O choque dos jurados é notável e ao final da brilhante performance, Carly é aplaudida de pé.

O que ela, Jason e Johnny têm em comum? Eles são personagens de uma trama contemporânea, que agora não quer saber de rostinhos angelicais. Curiosamente, a edição do programa não conseguiria nada sozinha… O que os realities musicais querem é o talento. Somos nós, depois, que damos as costas. Somos nós os responsáveis pela proliferação das Britneys. A que está lá eu já gosto, e já basta. Sigamos fazendo como os mentores do The Voice: apertando o botão pra um dom audível, e não visível.

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