Red Tide chega ao fim esquecendo do minimalismo que a tornou um ponto fora da curva na história recente de American Horror Story.
A primeira vez que American Horror Story resolveu ser megalomaníaca foi em Coven, quando o roteiro do Season Finale mostrou a Academia das bruxas se tornando mundialmente famosa. Até então, a casa de Murder House e o sanatório de Asylum tinham uma fama restrita aos universos em que estavam inseridos. O mesmo aconteceu em Hotel. De novo, na sexta temporada, o que acontece em Roanoke ganha os telejornais de uma forma amplificada, o que se repete em proporções diferentes em Cult e em 1984. Contudo, foi em Apocalypse que a equipe de Ryan Murphy brincou de “mudar o mundo”.
Alguma coisa aconteceu com a sala de roteiristas do showrunner desde então. Até mesmo alguns episódios de American Horror Stories tinham esse mesmo senso de espetáculo, uma necessidade curiosa de colocar as histórias num lugar de grandiloquência, tirando delas o fator minimalista que acaba sendo, na maioria dos casos, mais eficiente na hora de trazer o espectador para perto. Histórias gigantescas não são um problema, claro que não. Apocalypse foi uma grande temporada. Mas, enquanto ali – e em Roanoke, quando um documentário determinava a narrativa – tudo era justificado com bases dramatúrgicas condizentes com seus resultados, esse ano algo me dizia que o grande trunfo de Red Tide seria sua modéstia.
No primeiro episódio fomos apresentados a uma história que fazia sua homenagem à literatura de Stephen King, com uma cidade isolada, sombria, em que a morte rondava sendo ignorada e os segredos pertenciam ao tempo. Sabemos que referências não podem ser ditatoriais, mas elas acabam criando expectativas. O tom pequeno e selecionado das primeiras semanas era um respiro na recente linguagem acelerada da antologia, que anda com uma pressa absurda de desenvolver suas tramas, jogando com bases grandiosas, escolhendo finais que sempre parecem mais ambiciosos do que deveriam ser.
Depois de um penúltimo episódio que encerrou as histórias de Karen e Mickey tão bem, sabíamos que a morte esperava pelos restantes. Alma e Ursula foram construídas para serem sobreviventes, desde o começo. Alma para ser o mal em sua forma mais assustadora (a de uma criança) e Ursula para ser o alívio cômico em meio a esse horror. Tanto Ryan Kiera quanto Leslie Grossman encerraram suas participações em Red Tide só com méritos. Leslie, inclusive, já se tornou um dos nomes essenciais da antologia. A trajetória das duas personagens era muito clara, então, os outros precisavam partir.
Aí começaram alguns problemas (e eu ainda atribuo todos eles à pressa para acabar a história). Depois de uma boa aparição de Dot Marie Jones, colocando em perspectiva a organização da cidade (o que serviu para dar algumas explicações importantes), o roteiro quis envolver as criaturas pálidas na ação final e para isso não fez muita questão de ser coerente. Todo o plano de Ursula usando o outro tipo de pílula (que tirava a imunidade dos talentosos) não teve escopo para justificar seu papel. Belle e Austin sucumbiram muito rápido e não sabemos nem mesmo onde estava a esposa de Harry na “revolução dos pálidos”; e muito menos onde foi parar a dentista vivida por Billie Lourd.
É claro que Murphy não iria resistir a especular sobre como seria se as pílulas fossem levadas para Hollywood. E foi justamente por ceder a essa ideia tão sedutora que Red Tide foi saindo dos trilhos e se tornando quase uma paródia. Murphy tem esse “vício” de considerar que seu trabalho enquanto criador está feito apenas se ele citar uma variável, sem explorá-la atentamente. Ele fez isso zilhões de vezes em Glee e algumas vezes em outras temporadas de AHS. Eventualmente, lá estão os fãs chateados da vida porque o homem com cabeça de touro sumiu de Coven, porque os ET’s em Asylum quase não foram explicados; e por aí vai.
Por isso, o arco envolvendo o alastramento da pílula por Los Angeles soou como uma aventura superficial. E embora o texto ainda tenha momentos de puro deleite (como na piada com Lawrence Fishburn ou na maneira como a Química decide punir policiais racistas dando a pílula a eles, certa de que eles não tinham talento algum), Murphy e seu time precisam entender que às vezes só citar não é suficiente. Somos fãs, queremos que a antologia seja bem sucedida, mas ela também precisa entender que tempos de respiração são importantes e que vale mais um núcleo pequeno bem explorado que um espetáculo de fogos de artifício.
Ainda assim o saldo foi bastante positivo. Todo o choque de impressões provocado pela ideia do talento enquanto devorador de almas ficará para sempre como um dos grandes momentos criativos da antologia. Em dado momento desse episódio final, Alma diz que “já que os monstros não eram talentosos, pouco importava que eles fossem monstros”… É incrível ver Ryan Murphy (o adolescente desprezado, agredido, desacreditado) que sempre se valeu do próprio talento como a pilastra que justificava sua existência, dizer em seu trabalho que o sucesso também monstrificou-o de algum jeito. Parece uma mea culpa transgredido, um desabafo dissonante.
E está entregue, enfim, a primeira temporada de AHS que não tem um só pingo de otimismo.















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