O Evangelho Segundo o Nosso Grupo.

A história que vou contar para vocês é absolutamente real: na última segunda-feira, dia 08 de Fevereiro, o telefone do rapaz tocou no finalzinho da tarde. Do outro lado, a moça, nervosa, dizia que os dois amigos precisavam se encontrar no dia seguinte, para que ela pudesse conversar com ele sobre uma coisa que lhe afligia. O rapaz concordou, preocupado. A amiga era uma mulher centrada, racional, que sempre pautava tudo na própria experiência acadêmica. No dia seguinte, se encontraram. Após os primeiros minutos de conversa trivial ele quis saber o que tinha acontecido para que ela precisasse daquele encontro com tanta urgência. Lutando para que a voz não embargasse ela começou a contar que na manhã de domingo tinha tido uma longa crise de choro, porque, de súbito, várias fichas sobre seus traumas de juventude tinham finalmente caído.

A moça fora uma vítima das pessoas com as quais se agrupou em busca de acolhimento. Quando jovem, suas peculiaridades, as coisas que deviam torná-la especial; e que ela levara para o grupo de amigos achando que deles teria o mínimo de compreensão, eram as armas da chacota. Por anos, ficou ali convivendo com aquelas pessoas, lutando para ser aceita e ouvindo dia após dia, que havia algo de errado com ela. Piadas, malícia, deboche em doses pequenas e contínuas. O pior tipo de bullying. Aos prantos, ela dizia que finalmente tinha entendido o que aquilo tudo tinha provocado. O rapaz, sem ação, só perguntava o que tinha deflagrado aquela epifania. Ela, que nunca havia assistido ao programa, impressionada consigo mesma, disse: aquele menino no Big Brother. Quando eu vi aquilo eu desabei. Eu vivi aquilo, mas ao contrário dele eu não saí, eu fiquei… eu permiti.

A passagem do Lucas pelo BBB21 foi problemática logo antes que a primeira semana terminasse. Durante a primeira festa, alterado pela bebida e sem os filtros que todo mundo tem quando está sóbrio, ele deixou que suas convicções fossem despejadas para fora de uma embalagem que já era errada. Ser preto, pobre, “da quebrada”, deu a ele uma outra perspectiva do mundo, mas inebriado do que essa luta representa, deixou o próprio discurso azedar, misturando isso com impressões precipitadas e causando um clima negativo entre os colegas. Ele precisava desse wake up call para amadurecer. Uma parte dos participantes também precisava daquela festa… para que uma vítima fosse identificada e eles pudessem construir suas narrativas de perversidade em cima dela.

Vítima sim. Qual o problema com a palavra vítima? A palavra “vítima” e a palavra “vitimização” tem significados muito diferentes. Há muito tempo que pessoas vitimadas se recusam a serem vistas dessa maneira por conta da fragilidade pejorativa que o termo adquiriu, tirando de seus algozes, inclusive, parte do peso dos próprios atos. Vários participantes do BBB21 fizeram vítimas (com tudo que essa palavra representa) e precisam ser declarados por nós dessa maneira, com essas cores, para que nenhum de seus atos seja minimizado e – por consequência – enfraquecido. Cobrar, exigir reparação não é o mesmo que “cancelar”. Aliás, é dessa palavra que deveríamos estar cansados.

Todos sabemos quem são os “manda-chuvas” dessa edição. Karol Conká, Nego Di, Projota e Lumena (e alguns outros em menor escala) criaram O Evangelho Segundo o Nosso Grupo. Quem não anda conforme suas regras está condenado ao fogo do inferno… Ou melhor, está condenado a um festival de microagressões, crueldades, desrespeitos, tudo no melhor estilo “estou vendo a verdade que você não vê”. Afinal de contas, aquele que comete o bullying – não importa o ambiente ou a faixa etária – sempre acha que está prestando um serviço à sociedade. Está dando ao “ser inferior aquilo que ele merece”.

E vamos combinar… Os “heróis da verdade consciente” são como soldados romanos, que sempre acham que cabe mais uma chicotadazinha. Karol Conká e Nego Di são os mais perigosos. Ambos tem senso de liderança e escondem a perversidade entre frases de efeito que conquistam os amigos. A cabeça dos dois é dada ao delírio, criando cenários que colocam seus desafetos em posições extremadas e sem distinção. Lucas vira um estuprador potencial, Carla Diaz vira uma vagabunda oportunista. Para os dois não importa o que o rival faz, porque o que ele não fizer, eles vão criar.

Projota já é pura vaidade. Todas as escrotices que ele fala partem desse lugar de auto-importância. No Evangelho Segundo o Nosso Grupo ele é Jesus e todos são apóstolos. Ele nem discute por essa posição de poder, porque para ele não existe outra configuração. Lucas, quando chegou, tratou-o desse jeito mesmo, como se ele fosse divino. Deu ouvidos a tudo que o guru tinha a dizer. Aceitou todas as broncas. Até que um dia, teve a chance de fazer uma batalha de rap com seu ídolo e o momento que para ele foi inesquecível, para Projota foi mais uma oportunidade de envenenar. Sem cerimônia, agiu como se fosse invencível e como se Lucas fosse um fracasso. Ridicularizou suas rimas, sua postura, sua vontade. E fez mais: delirou também sobre as intenções do menino. Para o Grupo do Evangelho, Lucas não era uma pessoa, era um alvo, uma – por que não dizer – vítima.

Lucas / Gilberto / Liberto

A exclusão também oferece a qualquer pessoa que a experimenta um novo ângulo. Lucas teve a chance de se aproximar de Sarah, Gilberto e Juliette, três participantes que já começavam a ver que havia algo de podre no reino da lacração. Juliette, em especial, tinha em comum com o Lucas o mesmo tratamento esnobista sofrido no dia a dia da casa. Quando os torturadores psicológicos cansavam de esmagar a auto-estima de Lucas, iam se divertir um pouco atazanando Juliette. Ela, que tem uma personalidade peculiar, nem sempre sabe a hora de falar, mas está acordada para o que está acontecendo no jogo.

Em seus últimos dias na casa, Lucas tentou se divertir, tentou se enturmar. A festa do sábado correu bem, até o momento em que ele decidiu beijar Gilberto e teve a audácia de descumprir a “palavra” dos soberanos. Lumena – de quem não falei ainda – é a apóstola mais fervorosa. Mas, coitada, virou uma caricatura, um meme ambulante, uma pessoa que ridiculariza todos os dias as bandeiras que foi lá levantar. Não se pode perguntar para Lumena se ela está bem, porque o que vem de volta pode ser um TCC verborrágico sobre como você está deslegitimando o direito dela de não querer ouvir essa pergunta. Mas, assim como Karol, Nego Di e Projota, Lumena ainda engana os presentes com sua suposta intelectualidade.

Do outro lado dessa noite, Karol Conká criava sua própria narrativa absurda contra Carla Diaz. Bil foi passivo ao não intervir na situação, mas ao mesmo tempo, como lidar com o tamanho dos delírios de Conká? Ela passou dias se jogando para cima do moço, sem que ele nunca tivesse feito o mesmo com ela. Carla também nunca tinha chegado perto dele dessa maneira. Egocêntrica ao extremo, Karol não dá ouvidos a nada que não seja o enredo que ela monta no meio da fantasia. Carla foi extremamente elegante, segura e respondeu à altura. E abriu o coração para a explicação de Karol sobre a própria animosidade. Explicação essa que é coerente com suas ações.

Me incomoda que as pessoas chamem Conká de psicopata. Sabemos que a personalidade psicopata não é só aquela que ligamos imediatamente ao serial killer, mas existe uma diferença importante que separa essas pessoas do egocêntrico crônico. A conversa e as desculpas para Carla também fazem parte desse jogo de vaidade, quando Karol se mostra consciente das direções absurdas para onde vão suas conclusões, mas com isso consegue apenas mais um passe para continuar no meio desse ciclo horripilante. Sem tratar seu transtorno ela apenas avisa a todos que estão em volta que funciona desse jeito e as pessoas são obrigadas a administrar os danos.

A bissexualidade é um conceito elusivo para a maioria das pessoas. Um casal heterossexual formado no BBB pode ser sim colocado sob dúvida. Um casal homossexual ou bissexual, de acordo com as diretrizes daquelas pessoas tão “esclarecidas”, deveria receber o mesmo tratamento. Uma pulguinha ali atrás da orelha, mas o direito de ser só um movimento em busca de conforto, de prazer. De todo mundo ali, ninguém precisava mais de algumas doses de alegria que Lucas. Porém, ao invés de aproveitar o beijo para conversar tranquilamente sobre bissexualidade, em outra oportunidade; ou até mesmo só esperar para ver o que iria acontecer, Lumena e mais alguns outros preferiram o ataque, a deslegitimação (que ironia usar a palavra).

E aí você pergunta: por que Lucas não deixou pra lá e esqueceu o que aquelas pessoas pensavam? Porque ele precisava de aceitação, ele precisava de validação, ele precisava saber que ele seria compreendido dessa vez, já que daquela vez ele não foi. E mesmo tendo se desculpado tanto e feito tudo conforme mandava o figurino, o beijo em Gilberto foi julgado como um marketing, uma apropriação, como uma problematização maior do que o simples ato de beijar. Gilberto só queria – como ele mesmo disse – a “safadeza”. Inseguro com o que pensariam aqui fora, Lucas só queria que alguma daquelas pessoas que ele ainda admirava, lhe dessem uma palavra de apoio. Quando isso não veio, ele deixou o desespero transbordar novamente.

Aos prantos com Camilla de Lucas tentando acalmá-lo, sua decisão já parecia tomada. Com quase toda a casa decidida a julgá-lo como mera autopromoção (como se aquilo fosse promoção) e com até a direção do programa reduzindo-o a um bêbado inconsequente, o que ele ainda podia fazer ali dentro? Talvez sua permanência tivesse piorado tudo, talvez tivesse prejudicado-o cada vez mais; e também pode ser que um belo romance com Gil pudesse ter acontecido. Como vamos saber? A cúpula dos alecrins dourados nos tirou esse direito. Tirou deles esse direito.

A saída de Lucas acabou sendo mais um capítulo inesquecível da história do BBB. A ele e a Gilberto devemos a imagem daquele beijo, que rodou a internet, que rodou todos os programas da casa, sendo exibido às 11 da manhã para todo o país, sendo atrelado apenas à palavras de compreensão e afeto. Num país polarizado como o nosso, o beijo entre o casal Liberto atravessou as barreiras morais e – que loucura – foi aceito em massa de um jeito que um microcosmo confinado não foi capaz de fazer. Aqui fora, nas quebradas, na selva reacionária, Lucas está mais seguro que lá dentro. Por isso é que sua saída não pode ser “fantasmizada” como a de outros desistentes. Assim como disse a moça lá do início desse texto, aquele menino não desistiu do programa, ele persistiu por si mesmo.

Se não temos nada de bom para dizer para alguém, não precisamos dizer nada. Se alguém lhe pediu desculpas, considere. Se um grave erro foi cometido, dê ao outro a chance de redimi-lo. Intransigência não é personalidade forte, é burrice.

REVISÃO GERAL
Nota:
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big-brother-brasil-21-lucas-e-gilberto-e-igual-a-libertoA saída de Lucas acabou sendo mais um capítulo inesquecível da história do BBB. A ele e a Gilberto devemos a imagem daquele beijo, que rodou a internet, que rodou todos os programas da casa, sendo exibido às 11 da manhã para todo o país, sendo atrelado apenas à palavras de compreensão e afeto.