“Nana neném

Pra Cuca na pegar

Papai foi à roça

Mamãe foi trabalhar…”
Nana Neném, cantiga popular.
 

Boto-Cor-De-Rosa. Cuca. Iara. Saci. Diversas são as entidades folclóricas que a maioria de nós, brasileiros, já ouviu falar, seja em uma conversa com os nossos avós, seja no período escolar. Quem não se lembra das estripulias do Saci Pererê, na segunda versão do seriado infantil Sítio do Pica Pau Amarelo (2001-2007), produzido pela Rede Globo? Partindo dessa premissa, porém, em uma perspectiva mais madura, a Netflix lançou, na última sexta-feira, dia 05 de fevereiro de 2021, a bela série original brasileira, intitulada Cidade Invisível.

A trama, produzida pelo aclamado diretor Carlos Saldanha (Rio e A Era do Gelo) – primeira live-action feita por ele na “gigante do streaming” – tem o protagonismo de Marcos Pigossi (Tidelands), na pele de Eric, detetive da Delegacia de Polícia Ambiental (DPA). A vida do jovem investigador muda completamente após ele ficar viúvo, em virtude de um grande incêndio que vitimizou a sua esposa Gabriela (Júlia Konrad de 1 Contra Todos), na comunidade em que ela trabalhava – Vila Toré -, como antropóloga. Ao seguir em frente, enquanto ele corria pela areia da praia, apareceu em seu caminho, não uma pedra, e sim um boto-cor-de-rosa, animal de água doce. A partir disso, Eric foi descobrindo que a cidade do Rio de Janeiro (RJ) está habitada por entidades místicas do folclore brasileiro.

E esse é o principal ponto positivo de Cidade Invisível: o resgate da magia do folclore tupiniquim. Isso se justifica pelo fato de o seriado não ser somente gravado e produzido no Brasil, como, também, apresentar a nossa peculiaridade: as histórias de personagens folclóricos que ajudaram a criar a cultura nacional. Se eles existem de verdade, eu não sei dizer, mas, depois de assistir ao seriado, além de eu ter ficado encucado – desculpem pelo trocadilho -, torci para para não dar de cara com a Cuca por aí. Ou ninguém vai ficar desconfiado se pousar uma borboleta de forma aleatória perto de vocês? Brincadeiras à parte, vamos ao contexto investigativo:

Em uma narrativa envolvente, acompanhamos Eric à procura de respostas sobre a morte do boto-cor-de-rosa, em que depois, ele se vê pertencente à história. E para chegar até lá, a nossa curiosidade foi aguçada, em virtude de um roteiro coeso de Saldanha, juntamente à fotografia escolhida pela produção. Esse segundo item merece destaque, pois, a capital fluminense, sempre foi retratada , nas produções televisivas nacionais, em tons ensolarados, com belas praias e o Cristo Redentor, em destaque. Já na nova atração, vielas do município ganham destaque, com a retratação, até mesmo, de uma ocupação, regado de mistério, com tons mais escuros e várias câmeras aceleradas. E nesse aspecto, tudo o que foi colocado em cena estava conectado, seja o boto-cor-de-rosa se transformando em homem de verdade, Manaus (Victor Sparapane de Malhação), no carro de Eric, seja os corpos que sumiram do Instituto Médico Legal (IML) local. Olha, Eric, você foi um guerreiro, afinal de contas, como a sua pessoa não entrou em pânico diante de tantas ocorrências “anormais” aos olhos da sociedade, hein?!

As pessoas são cruéis, Isac. Elas têm medo de tudo que é diferente, porque a gente revela como elas são absurdamente iguais e entediantes.” – Inês/Cuca.

Aliado a esses quesitos, é válido ressaltar, inclusive, a bela interpretação da atriz Alessandra Negrini (Paraíso Tropical), na pele da personagem Inês/Cuca. Aos primeiros olhares, de fato, a caracterização causou um certo estranhamento, porque a Cuca na qual estamos acostumados é uma jacaré loira, e não borboletas ao vento. Porém, de forma alguma, a mudança atrapalhou a história, e estranho mesmo seria o policial encontrar com uma jacaré pelas ruas, ainda mais em um contexto urbano,atual e adulto. Oras, então, por qual motivo Saldanha e a sua equipe escolheram borboletas? Na verdade, de acordo com a crítica da minha amiga Gabriela Pagano, em seu blogRomanceteria -, pelo fato de a Cuca ser uma bruxa e ela cuidar das entidades folclóricas que morriam, o animal era uma mariposa-bruxa. Isso significa que “nas crendices populares, as mariposas transitam entre o mundo dos vivos e dos mortos – quando uma mariposa aparece depois de uma morte, acredita-se que é a alma do falecido se despindo.” Ademais, Pagano explicou, com muita maestria, o motivo pelo qual as asas têm círculos semelhantes aos olhos humanos: “Reza a lenda que, se você tocar as asas da mariposa e, depois, esfregar os olhos, fica cego. Na trama, o Corpo-Seco matava sugando a alma do outro pelos olhos – Cuca se transformava em mariposa e tapava os orifícios da vítima (ao cegá-la, salvava).” Não só metafórica, como, também, horripilante essa representação da Cuca, não é mesmo?!

Outro personagem super interessante foi o Iberê/Curupira, que ganhou um maior destaque somente no clímax do sétimo e último episódio desta primeira temporada. É claro que existe todo um cuidado para não entregar as histórias de cada um deles, pois, para fazer jus ao nome do seriado, Curupira e companhia, têm que esconder as suas verdadeiras identidades, isto é, serem invisíveis. E de maneira muito inteligente, colocando pistas para que o telespectador pudesse interpretar o personagem com a nossa própria bagagem cultural, os roteiristas escolheram colocar o Curupira como uma pessoa em situação de rua. Tal fato se justifica no quesito da invisibilidade social, porque, no século vigente, a população, ao ver um morador de rua, por exemplo, passa por por ele desapercebido, aliado, infelizmente, ao medo e ao preconceito. Porém, a pessoa em vulnerabilidade socioeconômica é um ser humano e merece ser vista, ser viva e, principalmente, ser ouvida. E o que a gente mais ouviu na infância? Pois é: as lendas folclóricas, tendo o Curupira com os pés virados para trás e a cabeça vermelha, remetendo ao fogo, como visto na série, na excelente representação do ator Fábio Lago (O Outro Lado do Paraíso).

Isac, anagrama do nome Saci (Wesley Guimarães de Irmandade), além de ter sido um personagem pra lá de divertido, serviu para conduzir a trama a pequena Luna (Manuela Dieguez de Carinha de Anjo), filha do policial. Em virtude da naturalidade de ambos nas cenas, deu vontade de ser amigo deles e sair por aí fazendo “artes” e redemoinhos pelas ruas. Infelizmente, o Saci não sobreviveu, mas, para o nosso alívio, o Corpo-Seco não ficou no corpo da pequena Luna, e ela permaneceu viva. E os questionamentos vieram à mente: quais são as motivações das mortes da entidades? Até que ponto Eric, filho de Manaus, é crucial para o desenrolar dos fatos? Seria Cuca a vilã ou ela está apenas tentando proteger os seus entes? Depois daquele cliffhanger, o famoso gancho no final da temporada, com certeza, as respostas virão em uma possível e necessária segunda temporada.

Além disso, Cidade Invisível abordou questões pertinentes ao mundo contemporâneo, como a necessidade da preservação da natureza. Isso é crucial, seja para a proteção efetiva da fauna e da flora, seja na manutenção do trabalho de indivíduos que usufruem daquilo que a natureza oferece, caso da pesca. Concomitantemente, acompanhamos o incêndio criminoso na comunidade, sendo de maneira análoga ao que ocorre na realidade, como os fogaréus e o desmatamento na maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica. E as entidades estão nesses locais, perto de nós, justamente para preservar e não deixar que o homem, em prol do lucro, continue açoitando o meio ambiente. Por favor, Netflix, queremos mais episódios do Curupira, defensor das matas!

Essas coisas [entidades] são o espelho da gente.” – Seu Ciço.

Por fim, destaca-se o resgate da cultura popular brasileira, mais especificamente o nosso rico folclore. Tal característica é importante, tanto para democratizar a temática – por favor, não me julguem, mas eu nunca tinha ouvido falar no Corpo-Seco -, quanto para desmistificar a ideia de que os personagens citados são destinados somente ao público infantil. Muito pelo contrário: o folclore, sendo parte da cultura do Brasil, é de todos e para todos. Confesso que eu não imaginava o folclore sendo abordado em uma produção fora do gênero infantojuvenil, uma vez que o audiovisual brasileiro, até o surgimento de Cidade Invisível, parece nunca ter arriscado o conteúdo em uma visão mais adulta. E nessa linha de raciocínio sobre a cultura, o ditado popular que diz que “quem não arrisca, não petisca”, positivamente, mostra que o seriado “petiscou” sucesso. Segundo dados publicados nas redes sociais, por fãs, a série, em menos de uma semana desde o seu lançamento, esteve no TOP 10 de seriados mais vistos na Netflix, em vários países, caso da Austrália, da Costa Rica, da Itália e de tantos outros mais. Aliás, a primeira posição, é claro, foi atingida aqui nas “terras tupiniquins”, sendo um alívio, pois mostra que Cidade Invisível não é entediante, muito menos igual ao que já está no mercado audiovisual. Logo, ela é única, diferente, peculiar, justamente o contrário da fala da Cuca exemplificada acima. Por favor, entidades brasileiras, peço que vocês façam com que o seriado continue sendo um sucesso! Dessa forma, de invisível a série terá só o nome, pois se tornará inesquecível!

OBSERVAÇÕES FOLCLÓRICAS:

p.s.01: Fico muito feliz em saber que a série é mais um exemplo de que nós, brasileiros, temos capacidade de produzir seriados e filmes tão bons quanto os de outras nações. A equipe médica-hospitalar de Sob Pressão, da Rede Globo, desde 2017, já comprova isso, e tomara que o bendito e tedioso “Complexo de Vira-Lata” não seja mais usado e praticado pela população. Vamos valorizar o conteúdo nacional!;

p.s.02: Seguindo esse debate sobre a importância da valorização do audiovisual “tupiniquim”, Cidade Invisível se torna crucial para registrar, guardar e perpetuar o folclore. Tal fato é fundamental, porque, assim, o nosso folclore, caracterizado por ser difundido pela oralidade de geração para geração, pode ter mais uma forma de registro, além dos livros infantis;

p.s.03: Achei a atuação de alguns personagens mediana, pouco desenvolvida, como a da colega de trabalho de Eric, a Márcia (Áurea Maranhão de Prova de Coragem), sem transmitir emoção. O mesmo ocorreu com o Tutu Marambá/Bicho-Papão (Jimmy London de All for the Music), que poderia ter manifestado mais pavor, mais medo em suas vítimas, como no ataque na porta da casa do Eric, quando ele chega do trabalho;

p.s.04: Apesar de alguns clichês e falhas, caso do intragável delegado Ivo (Rafael Sieg de Desalma), das diversas voltas cíclicas que a trama teve ao longo dos 7 episódios e da sereia Iara/Camila (Jéssica Córes de Verdades Secretas) encantar os homens no mar, e não em um rio, todos eles ficaram em segundo plano. Vale a pena assistir ao seriado e, claro, indicar para o amigo que deseja maratonar uma novidade;

p.s.05: Fico imaginando os gringo assistindo ao seriado e, como eles não têm familiaridade com as entidades, não devem entender bulhufas. No entanto, eu acredito que eles devam gostar, justamente por ser diferente, fora da realidade em que vivem. Não é pra menos que a série 3% foi um sucesso lá fora;

p.s.06: Marco Pigossi, ao ser entrevistado pela Revista Quem, afirmou com propriedade sobre a importância da série para o país. “É 100% nossa história, nosso DNA. Vem das nossas tradições que surgiram desde o tempo da colonização”, afirmou o ator;

p.s.07: Em entrevista exclusiva ao portal Notícias da TV, Alessandra Negrini disse que se sentiu lisonjeada em interpretar a Cuca. “Não precisei estudar quase nada [para a série], porque já conheço essas histórias desde a infância. Eu cresci ouvindo as histórias do nosso folclore. O folclore é vivo, são histórias que as pessoas passam de geração para geração. Foi assim comigo e com meus filhos, depois que ouvi minha mãe e minha avó contá-las”, disse a atriz;

p.s.08: Marco Pigossi continua lindo e talentoso como sempre, né?! Desejo que todos os 190 países, em que a “gigante do streaming” está situada, possam te adorar, Pigossi. O Brasil já te ama, e eu, também;

p.s.09: Ah, Netflix, a senhora nem ouse nos deixar sem uma segunda temporada, hein?! Caso contrário, eu mando a Cuca te pegar!;

p.s.10: Por falar em uma nova temporada, Netflix, segue a listinha das entidades que a gente deseja ver em cena: Boitatá, Boi da Cara Preta, Caipora, Lobisomem, Mula Sem Cabeça, Negrinho do Pastoreio, Vitória-Régia e por aí vai…;

p.s.11: Aliás, só mais um item que não pode faltar na segunda remessa de episódios: gravações na Floresta Amazônica, dando espaço para a população local trabalhar, seja entre os atores principais, seja entre os figurantes. Por favor, não nos decepciona, Carlos Saldanha!;

p.s.12: Pela internet, percebi que as pessoas, ao assistirem Cidades Invisíveis se lembraram bastante da série americana Grimm (2011-2017), que teve seis temporadas no total. Nela, o protagonista, Nick (David Giuntoli de A Million Little Things), também foi surpreendido por fazer parte de um outro mundo. Será que Eric terá o mesmo final de Nick ou as semelhanças cessam por aqui?;

p.s.13: Será que em outro país, a perícia de um boto-cor-de-rosa seria suspensa devido ao jogo de futebol? Talvez exagero, mas não tem como negar que o Brasil é o país do futebol, sendo a torcida do Flamengo uma das mais vibrantes e apaixonadas pelo time;

p.s.14: E você, caro série maníaco? Gostou ou não da nova original Netflix? Deixem as suas opiniões logo abaixo, nos comentários!

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-cidade-invisivel-da-netflix-resgata-a-magia-do-folclore-brasileiroValorizando o folclore em um novo panorama, repleto de mistérios, de segredos e de personagens nostálgicos de nossa infância, ‘Cidade Invisível’ é uma bela surpresa. Muito obrigado, Netflix!