Voltei. Dessa vez, fechamos o primeiro semestre de 2019 — e não se preocupe: se alguma grande série não apareceu por aqui, (provavelmente) aparecerá entre os cinquenta próximos nomes. Como já adiantei anteriormente, este é o TOP10 mais diversificado da história do Série Maníacos, focado em diversos gêneros, formatos, países e idiomas. Ainda assim, absolutamente todos os itens desta lista têm nota máxima para mim e dava para advogar pelo primeiro lugar com todos eles. A lista, portanto, torna-se ainda mais subjetiva neste momento. Dependendo do dia que você me perguntar, talvez a ordem se torne outra. O importante é reassegurar que são dez recomendações para somar às quarenta outras apresentadas anteriormente.
Lembrando novamente que não há spoiler, está na hora de falarmos sobre os dez melhores episódios exibidos no primeiro semestre de 2019:
10Olhos que Condenam / When They See Us, 01×04: “Part Four” (31/05/2019) [Netflix]
Escrito por: Ava DuVernay & Michael Starrbury // Dirigido por: Ava DuVernay
Se eu digo que todos os episódios desta lista são nota máxima dentro da minha avaliação pessoal, como desempatar para que tenhamos esse ranking decrescente? Bom, podemos utilizar diversos critérios neste processo. Um deles é o seguinte: eu reassistiria todos os dez episódios? No caso de Olhos Que Condenam, não, absolutamente não. Já foi muito difícil passar do primeiro episódio; quando o quarto chega, então, temos a certeza de que é algo para se assistir uma vez e ficar satisfeito com isso.
Aos que deixaram passar o fenômeno que a minissérie se tornou sem parar para assistir ou ler a respeito, Olhos que Condenam é uma adaptação de um caso que ficou famoso no começo dos anos noventa e que tem repercussão até hoje. Em 1989, cinco garotos são presos e acusados de violentar uma mulher no Central Park em Nova Iorque. A população ficou dividida entre condenar os meninos de primeira, atuando como os policiais (o que dá título à produção), ou tentar entender por que a promotoria está se esforçando tanto para levar adiante um caso insustentável e cheio de furos.
Esta é outra minissérie da nossa lista que nasceu nas manchetes de jornal. Assim como as outras mencionadas, é uma história que não pode ser esquecida e que ganha no nosso (confuso) espaço de debate da internet sua plataforma perfeita. Com o alcance que a tecnologia tem, nós podemos montar um histórico que liga os EUA ao Brasil e perceber que um caso nunca é apenas um caso e que os olhos passam por certa educação para verem as coisas como veem.
Com toda a qualidade técnica e inteligência narrativa já demonstradas anteriormente por Ava DuVernay, acompanhamos a vida desses cinco garotos e suas famílias desmoronando. Não há uma relação que não tenha sido abalada, uma vida que tenha ficado intocada ou sem grandes sequelas — algo exposto no especial da Netflix apresentado pela Oprah com o elenco e os Cinco do Central Park. É sempre difícil nos atermos a detalhes técnicos quando a produção parece estar muito acima disso, mas preciso citar a performance dos atores. Asante Blackk fez aqui sua estreia de um modo impressionante. Niecy Nash, Michael K. Williams e Aunjanue Ellis sustentam personagens às vezes antipáticos (no caso dos dois primeiros), mas sempre compreensíveis de algum modo.
O quarto episódio está aqui por diversos motivos. Dava para colocar qualquer um deles nesse patamar, mas o escolhido aparece porque é um episódio que demonstra o respeito de Ava pela história que está contando, atendendo ao pedido de que a série fosse produzida dessa forma. Também está por aqui porque é o episódio que responde nossas perguntas, dá fim a um mistério. É como se a série dissesse “não queriam ver essa parte da história? Pois bem, sentem-se e aqui está a última parte dessa narrativa”. Juntos, quase isolados com as personagens, percorremos décadas, passamos pelos mais diversos tipos de abusos e terminamos exaustos e destruídos.
Todo mundo deveria assistir Olhos que Condenam, mas não sei se todo mundo conseguiria. Não é apenas a televisão como meio de nos fazer passar por uma catarse ou a tragédia como modo de entretenimento, mas a realidade de alguns invadindo a televisão de todos.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a.]
9Yakusoku No Neverland / The Promised Neverland, 01×12: “150146” (29/03/2019) [Fuji TV]
Escrito por: Toshiya Ono // Dirigido por: Mamoru Kanbe e Yoshiki Kitai
O último anime dessa primeira parte da nossa lista é o meu favorito do ano. Favoritismo à parte, sua recepção foi tão positiva que ele já figura entre as 100 séries com maior nota do IMDB. Misturando horror, drama e aventura, temos uma trama simples, mas que faz uma verdadeira investigação no comportamento infantil e em como o instinto de sobrevivência cresce e se desenvolve em todos nós. Mexe um pouco com nossa infância, fazendo-nos lembrar da fragilidade e fantasia que definem a primeira fase de nossa vida, tão apoiada no zelo dos adultos.
Dá para adiantar que The Promised Neverland, série baseada no mangá de mesmo nome, conta a história de um grupo de crianças e pré-adolescentes que vive em um orfanato governado por uma mulher a quem chamam de Mamãe. Por acaso, duas crianças descobrem que, na verdade, o orfanato é meio que uma fábrica de comida para demônios. Isto é, as crianças são alimentadas, ensinadas e protegidas até certa idade. Depois disso, são supostamente “adotadas”. Na verdade, a promessa de adoção termina na boca de demônios devoradores de humanos. Sim, essa é a história.
Assombrosa, a narrativa não nos poupa de nada: temos algo terrível já no primeiro episódio, enquanto nos outros, a desesperança e melancolia crescem entre as crianças e é compartilhada com o público. É assustador e triste na mesma medida. Ainda assim, temos espaço para reviravoltas, para uma interessante briga por poder entre os seres mais frágeis do orfanato e quem realmente comanda o lugar. Temos planos de fuga interessantes de acompanhar e personagens cativantes.
O episódio doze está selecionado porque ele é o que sublinha toda a crueldade, melancolia e genialidade do roteiro. Há uma das crianças fazendo um discurso tão deprimente que não há quem não sinta um certo desespero. Aqueles que se lembram de como era ter doze anos e já sofrer de tristezas que a vida adulta só agrava talvez tremam na cadeira.
Diferente de Olhos que Condenam, Promised Neverland dá para recomendar sem medo e sem pensar duas vezes. E o final ainda nos deixa empolgados pelo que virá a seguir.
[País: Japão // Idioma: japonês // Gênero: aventura // Status: renovada para a segunda temporada // AP: n/a.]
8Veep, 07×07: “Veep” (12/05/2019) [HBO]
Escrito por: David Mandel // Dirigido por: David Mandel
Veep acabou e nenhuma comédia futura da HBO passará intocada por ela — e talvez a comédia na tevê a cabo em geral. Ainda longe de alcançar o grande público das sitcoms, a comédia que satiriza a política norte-americana (ou a política no geral) vai ficar escondida no excelente catálogo do seu canal de origem. Veep não é fácil e se envolveu em diversas polêmicas, principalmente nas duas últimas temporadas quando as piadas começaram a repercutir negativamente na internet.
Entre o hiato e a última temporada, muita coisa aconteceu no mundo. A política internacional se tornou tão assustadora (e cômica) que os comediantes passaram a ter o dobro de trabalho para conseguir parodiar alguma coisa. O mundo se tornou uma paródia de si mesmo, e algumas manchetes são tão absurdas que não existe distopia que nos assuste mais ou sátira que consiga ser tão estúpida quanto. Não só Veep teve esse desafio, mas basicamente toda comédia ou drama dos últimos tempos: como fazer piada de uma situação que já é uma piada? Como comover os telespectadores que já vivem num mundo em que nada mais os comove?
Veep está na lista por ter encarado o desafio e o vencido. Depois de alguns episódios dessa curta e última temporada, nós nos rendemos e aceitamos que a série consegue ser ainda mais chocante do que a realidade — o muro foi mesmo reconstruído. Assim, a comédia aparece aqui para apontar um caminho para que a televisão continue nos surpreendendo quando o mundo já não o faz. Isso tudo foi conquistado por um texto tão selvagem que ficamos constrangidos se não assistirmos sozinhos e com talvez o melhor elenco de comédia de 2019. E, falando em atuação, Julia Louis-Dreyfus é o grande nome da televisão neste gênero da década passada.
Dito tudo isso, é engraçado reparar que o episódio final de Veep é melancólico. Bem triste mesmo. Tem seus inevitáveis momentos engraçados, mas acaba de uma forma agridoce — e não só porque sentimos a despedida da série. Em poucos momentos, anteriormente, a saga de Selina Meyer atravessou os limites de seu gênero e foi para o drama. Quando o fez, foi com um jeito debochado e que não deixava a sátira de lado. Aqui, em um ou dois momentos, parece que tudo perde a graça e a série fica terrivelmente triste. Triste porque todo seriado impecável tem que acabar, triste porque Julia é tão boa no que faz que é quase de se chorar de orgulho e gratidão por sua volta, triste porque pessoas como sua personagem existem na vida real ou triste porque o mundo cada vez mais nos requer algo novo, mais ousado e mais cruel porque tem se tornado, assim como Veep, insuperavelmente cínico.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: finalizada // AP: n/a.]
7Dark, 02×06: “An Endless Circle” (21/06/2019) [Netflix]
Escrito por: Jantje Friese & Martin Behnke / Dirigido por: Baran bo Odar
Agora temos uma série que foi a favorita de muita gente em 2019, surpreendendo até mesmo os críticos que receberam sua primeira temporada sem muita empolgação lá em 2017. Dark traz duas misturas muito conhecidas com as histórias de ficção-científica: aquela com o thriller e que rende um bom mistério, e aquela com o drama que nos faz pensar sobre diversas coisas. Aqui, além de nos perguntarmos para onde as coisas estão indo, questionamos nossa noção de destino e mesmo o amor entra na conversa.
Dark tem um roteiro tão refinado que provavelmente se tornará referência para as séries de seu gênero. A temática de viagem no tempo na série foi elevada a um patamar que é quase uma provocação às futuras produções. Em busca de excelência, de aclamação e de ser memorável, qualquer série terá de ir ainda mais longe — e neste momento, depois de uma maratona da segunda temporada, não sabemos bem o que há para ser feito além. Afinal de contas, nenhuma série quer ser apresentada ao público e este responder com um “ah, mas Dark fez melhor”.
Esse desafio ao público, à crítica e às séries-irmãs foi lançado em uma temporada com oito episódios que estreou em junho de 2019. Nela, vemos um novo ciclo ser apresentado na série, novas possibilidades de tempo e um retorno aos primeiros acontecimentos da primeira temporada. Parece confuso? Bom, Dark é confusa. E se há algo a ser criticado na série é a unanimidade a respeito de como nos esquecemos totalmente de tudo no primeiro intervalo de meses entre as temporadas. Ou mesmo se alguém assistir aos episódios muito pausadamente vai se perder no caminho. Talvez não seja sua culpa que nos desafie tanto a memória e a imaginação, mas a verdade é que Dark é um tipo de série muito específica e que também perde por suas especificidades.
A primeira temporada também apareceu na nossa lista de melhores episódios (também organizada por mim) e aqui não seria diferente. O sexto episódio, An Endless Cycle, varia muito bem entre a tensão e a melancolia da série, comprometendo mesmo o telespectador com uma decisão que o protagonista precisa tomar. Isso me faz pensar que a série funciona por muitos pontos, e um deles é saber onde nos tocar para que mesmo a realidade de uma família de uma cidade pequena na Alemanha pareça um pouco com a nossa. É a ficção científica em seu auge.
[País: Alemanha // Idioma: alemão // Gênero: ficção científica // Status: renovada para a terceira e última temporada // AP: n/a.]
6Barry, 02×05: “ronny/lily” (28/04/2019) [HBO]
Escrito por: Alec Berg & Bill Hader // Dirigido por: Bill Hader
Se você acompanhou a lista de 100 do ano passado, sabe que eu tive por muito tempo um problema com Barry. A comédia de humor negro da HBO não me conquistou de primeira, mesmo que seja inegável seus momentos de brilhantismo no primeiro ano. Nessa segunda rodada, mais conquistado pela ousada criação de Alec Berg e Bill Hader, não posso mais ser a única pessoa torcendo o nariz para a produção — não com um episódio como este.
Até agora, falei sobre diversos aspectos da televisão e dos gêneros que a transformam e sustentam. Mas e o entretenimento? E as séries que são para, basicamente, nos entreter? Bom, chegamos a esta categoria, porque mesmo com Shakespeare aqui e ali, Barry é, resumidamente, uma série com esta tarefa. Sua boa execução tem auge no quinto episódio da segunda temporada, uma viagem alucinante, cômica e com alguns toques de horror. Com ronny/lily, dirigido pelo criador, ator e roteirista, Bill Hader conseguiu a nomeação a diversos prêmios, dos quais levou o Directors Guild.
Tudo começa quando Barry precisa assassinar uma pessoa. Não é spoiler, a série fala sobre um assassino de aluguel que se descobre com uma paixão para o teatro. Nessa altura da narrativa, mais um assassinato e todos os seus problemas serão resolvidos. O problema é que cometer (ou não cometer) esse crime não será tão fácil. Numa sequência de eventos digna de Fargo, absolutamente tudo começa a dar errado. Em pouco tempo temos reviravoltas bizarras e empolgantes que nos fazem sorrir de um jeito diferente — com muito sangue envolvido no processo. Mesmo nessa bagunça toda da personagem de um lado para o outro, é tudo bem filmado e coreografado num ousado esforço de não só dar formato ao caos, mas organizá-lo.
Se você, assim como eu, não foi fisgado pela primeira temporada de Barry, dê uma chance à segunda. Se ainda assim não funcionar, assista até o quinto episódio. Ele precisa ser visto.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: comédia? // Status: renovada para a terceira temporada // AP: #44.]
5Sob Pressão, 03×10: “Episódio 10” (26/06/2019) [Globo]
Escrito por: André Sirangelo // Dirigido por: Andrucha Waddington e Júlio Andrade
Chegamos à última série nacional desta lista. E já quero começar dizendo que este episódio talvez seja o grande ato da tevê brasileira da última década. Não o mais famoso, não o mais comentado e possivelmente não o que ficará na nossa memória coletiva, mas talvez o melhor. Talvez. Coincidentemente (ou não) também dirigido por seu ator principal, o episódio é quase um atestado do que nossa televisão pode fazer: ostenta uma das melhores atrizes trabalhando hoje na indústria, tem uma produção impecável e um enredo que leva para a tela as precariedades e aflições da nossa rotina.
No ano em que Sob Pressão fez alguns paralelos com Grey’s Anatomy, tivemos nosso “episódio do tiroteio”. Se na irmã norte-americana o tal episódio ainda é lembrado como um de seus melhores, aqui não seria diferente. Sob Pressão alcança seu auge numa decisão ainda mais pretensiosa: filma o episódio em um plano sequência. Acompanhamos os médicos Evandro e Carolina sendo os corajosos e teimosos que conhecemos e amamos e a cada nova mudança vai ficando ainda mais inacreditável que a câmera intrusiva não se afaste e não respire num corte que seria até justificável. (Temos um corte, mas não por esse motivo.)
As séries comentadas anteriormente (e a seguir) são resultado de décadas e mais décadas de um processo de amadurecimento do gênero e da tecnologia que torna possível que dragões voem na nossa tela. Sob Pressão não é diferente: é o resultado de tudo o que foi experimentado nas últimas décadas pela Globo, desde ingredientes internacionais à adição de nossa cultura, o cotidiano brasileiro que é tão nosso. O episódio tem nossa vibração, nossa forma apaixonada de atuar, nossos problemas com violência e com a saúde pública — e mesmo com tramas novelescas que envolvam… Bom, o acontecimento mais impactante da temporada, digamos.
Indicada a diversos prêmios, elogiada na internet mesmo por aqueles que duvidam do poder do nosso audiovisual, Sob Pressão em 2019 chegou ao maior prêmio da televisão mundial (o Emmy), no qual Marjorie Estiano foi indicada. É um novo alcance para uma série que ainda tem muito caminho (se a emissora permitir), e é também mais uma temporada para a galeria de obras de arte produzidas na mesma televisão que exibiu Justiça, Capitu e Hoje É Dia de Maria, entre tantas outras.
Poucas séries dessa lista conseguem representar tão bem seu país quanto esta. Não é a Alemanha fantasiosa de Dark, mas o Brasil nosso de cada dia visto através de uma lente melodramática, mas que não deixa de ser o Brasil. Aquele dedo na ferida de Olhos que Condenam, sabe? Com a diferença de uma adrenalina e tensão que lá não caberiam.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: drama // Status: renovada para a quarta temporada // AP: #08]
4Nosso Planeta / Our Planet, 01×02: “Frozen Worlds” (04/04/2019) [Netflix]
Dirigido por: Sophie Lanfear
Entre as cinquenta séries comentadas, já tivemos documentários, mas nenhum sobre esse tema, essa proposta. Our Planet aqui representa as diversas séries sobre natureza que têm aparecido na televisão nos últimos anos. Exemplos temos em A Terra à Noite, lançado este ano, e na franquia Planeta Terra da BBC. Os mesmos criadores do fenômeno britânico, inclusive, produzem aqui uma nova jornada pelo nosso planeta, só que tendo a Netflix como casa.
Falar sobre nosso planeta tem sido cada vez mais urgente e mesmo o grande nome do streaming entra no debate. Falar de nossas experiências, nossos traumas, nossas diferenças e semelhanças é importante, mas às vezes há assuntos de maior grandeza — e que acabam relacionando todos esses itens. O estado do planeta diz muito sobre quem o vem habitando, assim como a organização e a limpeza de nossos quartos dizem muito sobre nós. E essa conversa é responsável por nos fazer questionar aquilo que tem importância e aquilo que pode ser deixado de lado. Em outras palavras, quase todos os assuntos e os conflitos apresentados nessa lista se tornam pequenos e medíocres perto do grande debate proposto por Nosso Planeta.
O documentário faz uma fusão interessante entre o deslumbrante e o desesperançoso: é uma série indiscutivelmente linda, mas é uma série também indiscutivelmente melancólica. O exemplo perfeito é o segundo episódio, quando a série vai aos polos mostrar como a mudança climática do planeta tem alterado a vida de diversas espécies de animais. Acompanhamos ursos polares, morsas, pinguins e outros animais enfrentarem problemas trazidos pelo aquecimento global num estado de observação criado pela série documental que é cruel — e não à toa gerou polêmica.
De tudo que eu poderia destacar no episódio, sublinho uma cena envolvendo um penhasco — quem assistiu vai se lembrar dela automaticamente. É uma das coisas mais tristes que eu vi na televisão em 2019, e olha que de tragédias e dramas não estamos mal servidos. Nosso Planeta fala de uma realidade urgente utilizando a natureza para apresentar suas narrativas. Dentro de seu gênero, é a melhor série do ano passado. Faz uma nova denúncia nessa longa lista de denúncias da televisão e do cinema que só aumentarão e tomarão espaço até que não haja mais planeta para se denunciar.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: documentário // Status: finalizada // AP: n/a.]
3The Good Fight, 03×04: “The One With Lucca Becoming a Meme” (04/04/2019) [CBS All Accesss]
Escrito por: Nelson McCormick // Dirigido por: Jacquelyn Reingold
Começo dizendo que The Good Fight zerou a televisão em 2019. Isto é, depois de assistida a terceira temporada, fica a impressão de que não há nada mais para ser feito no mundo das séries além do que foi feito por ela. Assim como Sob Pressão é o auge da produção brasileira e Dark é o auge do texto de ficção científica, The Good Fight é o ponto alto da televisão — aquela nota dez incontestável. Outros shows chegaram a esta nota, mas nenhum dessa forma e tendo tanto a oferecer para o próprio formato. Qualquer pessoa que decidir estudar audiovisual e produzir suas séries ou filmes, mesmo de forma independente e pequena, precisa assistir este grande ensaio acadêmico sobre televisão e sociedade esperando para ser analisado.
Explico:
O que se espera de uma boa série e de um bom episódio? Um bom texto, uma boa direção e boas atuações? Tendo isso, para onde dá para ir? E se quebrarmos o formato e adicionarmos animações de um modo tão coeso e bem colocado que mesmo os que não gostarem vão dar o braço a torcer e aceitar? Junto com isso, dá para tirar as personagens (e atores) do próprio plano narrativo em que estão inseridos e fazê-los conversarem com o telespectador, quase como cientes de sua ficcionalidade. Junto com isso, dá para criar conflitos tão bem entranhados na cultura e nos jogos políticos que explicam não só o que está acontecendo nos Estados Unidos como o que vem ocorrendo no Brasil — mesmo que aqui o sistema de votação seja tão diferente. É possível, ainda, mexer nas motivações e princípios das personagens de uma forma que dê para debater suas brigas ficcionais, mas também dê para debater nossa vida.
The Good Fight faz tudo isso e mais um pouco. Mais um pouco? Sim, temos uma trilha sonora vibrante, um humor ágil e cínico e uma paridade entre a tecnologia daqui de fora e do mundo da série constante. Acaba se tornando uma série para se entender, refletir e discutir nosso comportamento social. Mais especificamente, o racismo estrutural no qual a nação americana está fundada.
Um conceito explorado na terceira temporada é a chuva: chove muito durante os episódios e demoramos a entender por quê. Conforme avançamos, percebemos que é um anúncio da grande tempestade, das reviravoltas que nos esperam. E a tempestade chega neste quarto episódio. As três protagonistas precisam lidar com as novas mudanças em sua firma de advocacia, quando percebem algo “estranho” entre a rotina dos associados brancos e dos negros. Isso cria uma bola de neve que esbarra, por consequência, no grande acontecimento da temporada até então. É a prova de um roteiro inteligente que começa dando indícios aqui e ali para depois nos deixar acurralados em cenas tensas. De bônus, temos provocações deliciosas e diálogos que poderíamos usar sempre por aí se The Good Fight não fosse uma série tão pouco conhecida.
Por muito tempo, escutei que The Good Fight era melhor que The Good Wife, série da qual foi derivada. As pessoas partiram para essa conclusão muito rápido, e eu sempre discordei — talvez porque a segunda é minha série favorita. Com esta terceira temporada, entretanto, não há mais para onde correr: é uma verdade absoluta. E se não o era antes, com este quarto episódio se tornou.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: quarta temporada em exibição // AP: #03.]
2Chernobyl, 01×04: “The Happiness of All Mankind” (27/05/2019) [HBO]
Escrito por: Craig Mazin // Dirigido por: Johan Renck
A quantos quilômetros da sua casa fica a usina nuclear mais próxima?
Essa e tantas outras perguntas surgiram depois de maratonar Chernobyl. Diversas perguntas, inclusive, para as quais nós já deveríamos ter respostas ou algum conhecimento maior do que temos. Também falando sobre o planeta e sobre as marcas deixadas pelo homem nele, a minissérie mistura diversos pontos citados na conversa de hoje: tem a inteligência narrativa de Olhos que Condenam, porque mesmo para falarmos sobre tragédias precisamos de uma estética, de uma sabedoria; tem o refinamento de Dark, a sofisticação de The Good Fight e a urgência de Nosso Planeta. Ou seja, todas as qualidades que fizeram e fazem programas de tevê serem tão bons foram reunidas nesta produção da HBO, o que a tornou, indiscutivelmente, a melhor minissérie do ano — e a melhor em muito tempo.
Chernobyl veio logo depois do fracasso da última temporada de Game of Thrones com a missão de assegurar os assinantes do canal de tevê a cabo de que aquilo foi um deslize e que são capazes de coisas grandiosas — e Watchmen veio no segundo semestre para manter essa chama acesa. Se esta era a intenção, dá para aceitar sem muita briga e confirmar que a HBO tem um catálogo que a Netflix não chega perto de tocar — e não à toa, afinal, há décadas de diferença entre os dois serviços. Mas a realidade de agora continua a realidade de agora e 2019, GOT à parte, foi um ano fantástico para o canal: Chernobyl está empatada com Breaking Bad em avaliação no IMDB como a quinta série de melhor avaliação da história; foi indicada a mais de cem prêmios e encabeçou muitas listas.
Outra coisa que vale destacar é a grande razão para Game of Thrones ter aparecido na parte anterior desta lista: a produção. Isto é, em diversos momentos de Chernobyl, nós, como crianças em um recém-descoberto parque de diversão, ficamos admirados com os cenários grandiosos, a cinematografia quase esnobe de tão poderosa e uma precisão na adaptação histórica (pelo menos visualmente) que é de se aplaudir. A televisão pode ser tão grandiosa assim? É algo que talvez nos perguntemos durante a maratona. Outras questões podem ser levantadas a respeito da monopolização do poder, a responsabilidade da ciência diante do mundo e mesmo até onde vai nosso comprometimento moral com a verdade.
Então temos o quarto episódio. Se você não chorou ou ficou profundamente perturbado com os três primeiros, este é o momento. A quinta parte é muito boa e tem momentos espetaculares, mas nada me tira da cabeça que The Happiness of All Mankind é o clímax de Chernobyl. Dá para comentar, por curiosidade, que o episódio foi tão perturbador que o criador da série foi ao Twitter dizer: calma, o próximo episódio será mais leve. Considero de tal forma porque a minissérie retrata uma história irrecuperavelmente cruel. Pessoas morreram, animais morreram e não dá para contornar isso, para tornar agradável ou para adoçar com o citado humor de The Good Fight.
A prova da inteligência do roteiro é demonstrada em como o episódio é construído, como ele começa com uma pessoa sendo apresentada, junto ao telespectador, à rotina pós-catástrofe. Temos momentos de tensão, com destaque para a cena dos “noventa segundos” e uma cena envolvendo um berço tão melancólica que só de lembrar já fazemos careta. Dito tudo isso para já te alertar sobre o que te espera em Chernobyl: assista! É daquelas produções que desafiam nossa noção de subjetivo, afinal, a minissérie é indiscutivelmente impecável.
[País: Estados Unidos/Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a.]
1Fleabag, 02×01: “Episode 1” (04/03/2019) [BBC/Amazon]
Escrito por: Phoebe Waller-Bridge // Dirigido por: Harry Bradbeer
Não faz sentido aplaudir a televisão. Ainda assim, ao final deste episódio, foi o que eu fiz.
Em primeiro lugar, talvez eu devesse explicar por que eu acho que entre todos os quarenta e nove episódios do primeiro semestre apresentados, este é o melhor — e por que diabos eu acho que é melhor que a inegável obra de arte anterior:
Se você for ao ranking dos usuários do IMDB que eu mencionei duas vezes por aqui, você encontrará diversas séries: a mencionada Nosso Planeta em oitavo lugar, Game of Thrones em nono e mesmo Fleabag está por lá em #86. Temos dois tipos de séries nesse ranking: i.) séries que farão um sucesso estrondoso quando lançadas e que serão aclamadas naquele momento e ii.) séries que ficarão conosco para sempre e mudarão o rumo da televisão com sua influência dentro ou fora do gênero. Breaking Bad é do segundo tipo — a gente meio que vai citá-la para sempre. Acredito que Chernobyl seja da primeira classe. Fleabag, no entanto, fez algo com sua segunda temporada que a tornou uma presença necessária em qualquer conversa sobre televisão. Não à toa, a comédia estrelada por Phoebe Waller-Bridge foi incluída em diversas listas de “melhores da década”.
Talvez outras séries em 2019 tiveram uma melhor temporada que Fleabag, mas nenhuma bate o Episode 1 e o que Phobe e Harry Bradbeer fizeram. Resultado: ambos ganharam um Emmy de escrita e direção pela parceria, e Phoebe ainda levou outro por atuação e outro pela série, batendo a última temporada de Veep e sendo a única atriz a tirar o prêmio de Julia Louis-Dreyfus. Cá entre nós, Julia é imbatível fazendo comédia e está fenomenal na última temporada da série da HBO. Considero o prêmio, então, uma homenagem ao excelente trabalho de Phoebe, uma vez que sua concorrente já tinha oito estatuetas dessa em casa.
No primeiro episódio deste retorno que nem mesmo a criadora achou que existiria, temos a personagem em outro estado mental, tentando levar uma vida diferente. Tudo nos é apresentado em uma dinâmica ágil em que a personagem, Fleabag, brinca com o público. Eu diria que a edição aqui merecia um prêmio, mas ela de fato o levou — outro Emmy para a conta. Temos a apresentação de uma nova personagem enquanto as outras nos demonstram seu familiar lado detestável. Os atores estão em seu melhor momento e o roteiro faz questão de não deixar que todas as personagens pareçam a mesma pessoa — algo que falta em Maravilhosa Sra. Maisel, por exemplo, em que absolutamente todo mundo fala do mesmo jeito.
E o humor? Britânico, eu diria. Precisa elaborar mais? Bom, é meio selvagem. Há uma fala em especial, gritada por Claire, personagem de Sian Clifford, numa cena em um banheiro que é uma das grandes falas do ano. É terrível fora de contexto e ainda mais terrível dentro dele. Porque prova, entre outras coisas, que Fleabag é uma série terrivelmente triste, mesmo que terrivelmente engraçada. É indelicada, agressiva e melancólica como o bom humor (ou a vida?) é.
Em Episode 1 não há nada fora de lugar, nada sobra. Dá para rever outras vezes (acho que eu já vi umas quatro) e sempre encontrar novos detalhes, como gestos dos atores ou piadas que havíamos deixado passar. Se a referida Sra Maisel nos dá uma aula de produção e cinematografia, Fleabag pega a ousadia de Veep e incrementa quebrando a quarta parede e depois quebrando a quebra da quarta parede (!) de modo que as comédias futuras precisarão ter seus roteiros escritos e reescritos se um dia almejarem se tornarem tão fundamentais quanto esta foi em 2019.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: finalizada :/ // AP: n/a.]
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MAPA DA LISTA
Primeiro Semestre:
[50-41] [40-31] [30-21] [20-11] [10-01]
Segundo Semestre:
[50-41] [40-31] [30-21] [20-11] [10-01]
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Chegamos ao fim do primeiro semestre. Se sua série favorita não apareceu, lembre-se que ainda temos cinquenta séries do segundo semestre (verifique a data de exibição do episódio antes de se desesperar). Dando tempo para respirarmos, a próxima parte começa a sair já no começo de maio, então há alguns dias para você conferir algumas séries citadas até aqui. Quem sabe não ajude a passar o tempo nessa época de quarentena?
Se você conseguir separar uns minutos, monte sua lista de melhores episódios e deixe nos comentários. Bora trocar recomendações?
Estou pensando em, de algum modo, disponibilizar minha tabela com todas as listas caso alguém um dia queira assistir a essas séries. Se é de seu interesse, deixa nos comentários para eu elaborar como fazer isso.
As capas desses rankings são do André Zuil, que generosamente aceitou participar novamente este ano.
















