Até onde um pai iria para defender seu filho? Inicialmente, é assim que Em Defesa de Jacob, nova minissérie da AppleTV+, se apresenta para o público, com um questionamento brutal em cima de uma clássica relação pai e filho. Adaptação de um livro de 2012, a obra conta a história de Andrew Barber, um promotor de uma pequena cidade que acaba pegando o caso de um garoto encontrado morto em pleno parque público à luz do dia. Tudo muda, entretanto, quando seu filho Jacob, de 14 anos, se torna o principal suspeito do crime e o protagonista é afastado do caso.
Tendo ambos interpretados por Chris Evans (o Capitão América) e Jaeden Martell (de “It: A Coisa” e “Entre Facas e Segredos”), já seria previsível que as atuações da série seriam ao menos eficientes, e ambos conseguem entregar a complexidade necessária para cada personagem. Completando o núcleo familiar da série, temos a mãe interpretada por Michelle Dockery (de “Downton Abbey” e “Godless”), a qual chega de fininho, sem grande destaque, mas que aos poucos também ganha o espectador com uma interpretação brilhante que consegue superar a dos dois companheiros de elenco.

Assim, cada ator consegue entregar seu personagem com a grande quantidade de camadas que necessitam para fazer com que a série funcione. A complexidade de cada membro da família Barber é o que a torna tão instigante, pois assim como “How to Get Away with Murder” e “Big Little Lies”, nenhum personagem é apresentado preto no branco. A família perfeita, ali, não existe, e personagens impecáveis muito menos, assim se constituindo a inteligência dramática que, pouco a pouco, cria a identidade de Em Defesa de Jacob. A estética melancólica e o uso de cortes velozes para passar ideia de memórias confusas, de certa forma, são outros elementos utilizados para compor uma linguagem fortemente dramática, a qual busca intensificar o suspense e a confusão do espectador entre as verdades, mentiras e dúvidas que surgem ao longo da história.
Por ser uma obra seriada da Apple TV, o formato de lançamento se mantém igual aos demais do streaming: três episódios lançados inicialmente, seguidos por um semanal até o final da temporada. Logo de cara, é possível dizer que os três episódios conseguem, facilmente, criar um ambiente de suspense para os próximos que estão por vir, imergindo seus espectadores em uma incansável torcida pela inocência do jovem Jacob.
É possível dizer que a série se sustenta majoritariamente pelo teor afetivo criado entre o espectador e a família de protagonistas, pois assim como já vimos diversas obras onde um personagem deve se defender de uma acusação, Em Defesa de Jacob mostra seu brilhantismo ao plantar uma semente de dúvida em seus espectadores: “será mesmo que Jacob é inocente”? A preocupação pelos Barber e o mistério acerca do crime, portanto, é o que gira toda a proposta da história, e são desenvolvidos com maestria a partir dos últimos momentos do primeiro episódio, onde Andrew encontra um canivete no quarto do filho.

Em outras palavras, todo o sentido da narrativa proposta na obra, portanto, gira em torno dessa dualidade criada entre os espectadores, onde ao mesmo tempo em que torcem pela liberdade do garoto, são submetidos a uma curiosidade acerca das constantes coincidências que ligam Jacob ao caso.
Mas, ainda que seja uma história de mistério e investigação policial, Em Defesa de Jacob não demora para apresentar seu grande trunfo: um amontoado de reflexões acerca da opinião pública. Logo quando Andy descobre que seu filho será acusado do crime, insiste para que sua chefe não o prenda, pois isso acabará com a vida do jovem. A partir deste momento, somos levados a acreditar que terá seu futuro arruinado por causa da prisão preventiva, que ficará em seu histórico pra sempre, mas a ficha na polícia não é nem metade dos problemas: mesmo que vencesse o julgamento e provasse a inocência, Jacob Barber estaria, desde então, marcado na opinião público como um problemático assassino.
Quando se encontram com a advogada pela primeira vez, ela sugere que não devem emitir emoção nenhuma em frente às câmeras: “se vocês sorrirem, vão dizer que não estão levando a sério; se vocês chorarem, vão dizer que estão fingindo; na televisão, só a imagem importa”. Mesmo que a família tenha seguido as orientações, programas de televisão ainda os acusam de terem “agido de forma muito fria”. A série, a partir disso, debate o quão frágil é a imagem pública e, ao mesmo tempo, o quão sugestionáveis são as pessoas ao redor.

Uma simples acusação inicial fez com que o caso repercutisse em toda a cidade, e evidentemente quase todo mundo já tinha a própria opinião sobre o caso: não só a imagem de Jacob, mas também a de seu pai e sua mãe, estavam destruídas. Foram afastados de seus empregos pela visão negativa que trariam, perderam amizades, e foram tratados com hostilidade aonde quer que iam.
Em Defesa de Jacob, assim, debate sobre quão facilmente a imagem de uma pessoa pode ser destruída em uma sociedade extremamente midiática, ainda mais em uma era onde a política do cancelamento é tão poderosa. Se ele é inocente ou não, nem o espectador nem a Justiça da série sabem com total certeza, mas tudo o que importa para as pessoas ao redor são suas opiniões pessoais que legitimam um pesado julgamento interpessoal de ódio e a hostilidade.
Atuações memoráveis, um mistério intrigante e uma reflexão provocativa em relação aos personagens e à nossa sociedade: com isso, a nova minissérie da AppleTV+ abre caminho para uma cativante viagem dentro da mente humana, onde o comportamento dos indivíduos, sejam por si sós ou coletivamente, é o que instiga a curiosidade dos espectadores e torna Em Defesa de Jacob tão promissora quanto pode ser.













