Um pouco adiada por diversos motivos, a tradicional lista do Série Maníacos dos melhores episódios do ano chega num momento turbulento, mas talvez propício para trocarmos recomendações de séries para assistir. Completamos mais uma década desse portal sobre séries (e cinema) e fechamos um ciclo de uma maneira quase mística — assim como no começo da década, a lista agora está sobre a responsabilidade de uma pessoa e sai no começo do ano, não no final, coisa que fazíamos há dez anos. Adiar a apresentação da lista, não a colocando entre os especiais de fim de ano, tem a missão de focar no resultado final, uma lista apurada, bem articulada e que apresente um bom panorama do que a televisão nacional e internacional tem a oferecer dentro das nossas limitações tecnológicas.
Diferente do ano passado, não entreguei uma retrospectiva do ano através das séries (notícias e bastidores), então talvez essa seja a oportunidade perfeita para fazer isso. Item por item, falaremos sobre cem produções diferentes, suas contribuições e como cada seriado se relaciona com a vida real de seus telespectadores. Diferente do ano anterior, as justificativas para as posições serão feitas por mim — ou seja, serei seu companheiro nos próximos dias e a pessoa a se corrigir uma vírgula quando preciso.
Como funciona a lista? Basicamente elege-se os melhores episódios do ano (não as melhores séries ou temporadas). Assim, uma série pode ter uma temporada morna, mas um episódio excelente. Ficaremos com um episódio por série. Não há distinção de formato — se a distribuidora/plataforma chamar de série, é série. Como o objetivo é eleger episódios, aqui a briga é geral: a lista tem série roteirizada, reality show, anime, documentário e tantos outros formatos, até porque espero compor um grande cenário do que foi o ano e te recomendar não só boas comédias e bons dramas, mas produções em geral, fazer o gosto de todo mundo. Com tantos formatos brigando pelas mesmas vagas, vale dizer que a posição é subjetiva, reflete minha opinião (nem sequer a dos colegas resenhistas). No último post, deixo registrado quais as séries assistidas/consideradas. Se falta alguma, é provável que eu simplesmente não tenha assistido.
A regra maior é a data de exibição da série no país de origem. Com a diferença de que, para essa regra, acrescentei um adendo este ano: a série que, em seu país de origem, for exibida por mais de um canal/veículo, poderá concorrer no ano em questão. Isto é, se a Globo decidir exibir na tevê aberta uma série já estreada na Globoplay, os episódios se tornam elegíveis para a lista. Exemplo: Assédio estreou em setembro de 2018, o que a tornou elegível para a lista de melhores episódios daquele ano. No entanto, a série também foi exibida no primeiro semestre de 2019 na tevê aberta. Único caráter eliminatório: ela já apareceu no ranking (#23), então não tem por que colocá-la de novo.
Vale mencionar que NÃO há spoiler. Mesmo em episódios com momentos cruciais para a série, vou tentar revelar bem pouco. Adicionei, como curiosidade, qual a colocação da série no ano passado. Sem mais explicações, vamos à lista:
50. The Virtues, 01×04: “Episode 4” (05/06/2019) [Channel 4]
Escrito por: Shane Meadows e Jack Thorne // Dirigido por: Shane Meadows

Nossa jornada não começa no Brasil e não começa nos Estados Unidos, mas começa com o inglês e começa com uma recomendação. Ou quase. A minissérie que ocupa o último lugar da lista é daquelas que nunca sabemos se deveríamos ou não oferecer como alternativa aos outros. Isso porque ela toca em pontos que não sabemos se queremos que sejam tocados; daquele tipo que, como diria um professor meu, “é horrível, mas é boa”. Horrível porque o mundo às vezes é esse lugar de horrores muitos, algo mostrado em Olhos Que Condenam (Netflix) e Chernobyl (HBO), também minisséries de 2019.
The Virtues tem um nome quase irônico. Isso porque não acompanhamos as virtudes de alguém — muito pelo contrário, temos dois protagonistas fracassados, quase parasitas, vivendo escorados em sua família. Em algum momento, a vida deles se cruza e o passado é investigado numa crueldade que é de se pensar que o roteiro desenterra um corpo. Tudo numa intimidade e formado que faz parecer que os quatro episódios, na verdade, compõem um filme independente de baixo orçamento e cujo apelo se faz nas atuações de seus protagonistas.
Dessa forma, a produção britânica inaugura nossa lista para nos lembrar que o drama (gênero) precisa nos mover; a televisão precisa nos mover. Alcançarmos a catarse durante um episódio, esse momento no qual algo parece estar explodindo ou desmoronando na gente, é quase terminar uma boa refeição. E para que isso ocorra não é necessário uma produção megalomaníaca: um bom texto, uma boa edição e bons atores dão conta da receita. Stephen Graham está aterrorizante de tão bom. Há pelo menos uma cena em cada episódio para aplaudir o ator no conforto de nosso sofá.
Os temas são pesados e preciso deixar o aviso para que você não vá desinformado para uma possível maratona. Além de falar sobre relações familiares disfuncionais, paternidade, fracassos e vícios, temos abuso sexual — e de um jeito complexo até difícil de se debater. Eu diria que o final é melancólico, mas a minissérie inteira é. Dividida em apenas quatro episódios, o quarto tem suas personagens encarando o grande dilema de suas vidas. É quando temos, além de toda a atmosfera pessimista, momentos de tensão que elevam a experiência.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: drama // Status: finalizada // AP: n/a ]
49. Schitt’s Creek, 05×11: “Meet the parents” (19/03/2019) [CBC]
Escrito por: Daniel Levy // Dirigido por: Jordan Canning

Então todo mundo parou para assistir Schitt’s Creek — inclusive eu. Ano passado até ensaiei começar, mas desanimei pelo trailer. Então aí vai a primeira dica: não se deixe enganar por ele. Outra dica: dê um tempo para a primeira temporada. Você pode chegar ao fim do terceiro ou quarto episódio e se perguntar, assim como eu, por que diabos você está acompanhando a saga de personagens tão antipáticos e mimados. Com o tempo, então, percebemos que os defeitos da família Rose é o que a torna memorável para nós — em outras palavras, nos apegamos aos defeitos, sempre um grande mérito às séries que alcançam isso.
Das comédias atualmente exibidas na televisão internacional, temos aquelas que fazem (bem ou mal) o esperado, o feijão com arroz de sempre, e aquelas que desafiam os limites do gênero, do audiovisual e se tornam futuras referências dentro do seguimento. Schitt’s não traz nada novo, então acaba ficando no primeiro grupo. Mas não me entenda errado, ela sabe construir seu mundo com muita propriedade. Assim, mesmo de história simples e execução simples, a série nos conquista por saber cultivar esse afeto entre o público e suas personagens.
A maior ousadia de Schitt’s talvez seja a de não se entregar ao humor ácido e autodestrutivo e apelativo de tantas produções — e nem por isso deixa de ser engraçada. Aqui, acompanhamos a história de uma família que perde tudo e precisa ir para uma pequena cidade, propriedade deles. No município, morando em um hotel, eles fazem amizades e tentam lidar com esse novo estilo de vida, além de buscar maneiras de voltar ao status de antes. Com seis temporadas e milhares de fãs conquistados após entrar no catálogo da Netflix norte-americana, seu fim acontece logo mais, previsto para o começo de abril.
Para a lista, o episódio escolhido foca no filho mais velho, em seu pai e em uma confusão que ambos fazem. Daniel Levy, roteirista, ator e criador da série, ameaça ir para um lugar diferente aqui, quase como uma provocação a seu público. No fim, temos, novamente, uma série para sorrir e tratar temas absurdamente sérios e dramáticos e (infelizmente) tristes de uma maneira mais amena e confortante, algo pouco visto na televisão, principalmente com o tema em questão. É um bom episódio para se celebrar a conquista de novos territórios da série, indicada ao Emmy e ao SAG pela primeira vez em 2019.
Dá para ver com os amigos, com a família e, diferente da série anterior, é para ver, rever, decorar as falas e deixar iluminar seu dia.
[País: Canadá // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: na última temporada // AP: ausente]
48. Irmão do Jorel, 03×18: “Meu amigo Vicente” (29/04/2019) [Cartoon Network]
Escrito por: David Benicá // Dirigido por: Juliano Enrico

Do Canadá, voltamos para as nossas terras para comentar o primeiro episódio nacional dessa lista — e esse ano me esforcei ainda mais para colocar séries brasileiras no ranking. Começamos, então, com uma animação já recomendada ano passado, mas que dispensa minha benção, uma vez que se tornou um grande fenômeno da internet. Na segunda parte de sua terceira temporada, Irmão do Jorel começa a quebrar algumas regras do próprio universo e rumar para aquilo que eu mencionei antes: o desafio de romper os limites da própria mídia. Por essa razão, fiquei muito tentado a colocar por aqui os últimos episódios, aqueles que ameaçam mudar de maneira drástica o desenho. No entanto, talvez o décimo oitavo seja um episódio para se sublinhar.
Se Irmão do Jorel se tornou uma animação tão popular que, além de espalhar bordões, as pessoas foram atrás da vida dos criadores para traçar paralelos entre a realidade e a ficção, temos outra personagem muito popular no meio digital nesse episódio: Vincent van Gogh. O pintor tem sua Noite Estrelada espalhada pela internet e estampando os mais diversos objetos. Foi também parar no Óscar interpretado por William Defoe em At Eternity’s Gate (Julian Schnabel) e em forma de animação com Loving Vincent (Dorota Kobiela e Hugh Welchman). Já na animação brasileira, a figura passa pelo filtro de nosso humor brasileiro para entrar em seu mundo lúdico.
Em onze minutos, a série bagunça o Vincent do nosso imaginário e o apresenta ao público mais jovem, não deixando de ser um ponto de partida para que se converse sobre arte. É uma homenagem divertida, meio bagunçada e apoiada na grande (boa) insanidade que são os roteiros apresentados nessas três temporadas. O único problema vem de fatores externos: assim como quase toda série nacional, Jorel sofre com distribuição e acesso estranhos. No site oficial é impossível assistir, não há boas páginas (oficiais) dando detalhes sobre o seriado e tudo fica num mínimo vergonhoso. O problema de acrescentar séries nacionais a listas como esta é que elas são difíceis de achar; inacessibilidade quase total.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: comédia // Status: desconhecido // AP: #34]
47. Survivor, 38×08: “Y’all making me crazy” (10/04/2019) [CBS]

Chegamos aos Estados Unidos, o grande núcleo de produção de séries e o maior referente a nós, colaboradores do site e telespectadores. Antes se prosseguirmos, preciso fazer duas revelações: a primeira é que o número de séries norte-americanas foi limitado na lista. Daria para fazer uma lista dos cem melhores episódios de cada semestre só de séries norte-americanas, e ainda teríamos só episódios de qualidade em ambas. Então, sim, todos sabemos que boas séries são produzidas por lá. Mas o investimento em uma lista que só favorece esse mercado nos daria uma falsa impressão sobre o que se produz a nível mundial, ou ocidental. Assim, diferente do ano passado, neste ano temos vinte e cinco vagas (nessa primeira parte) para as séries norte-americanas, sendo esta a primeira.
Já minha segunda revelação se refere a uma cobrança do ano passado. Muitas pessoas vieram (com razão) puxar minha orelha nos comentários sobre a ausência de Survivor, o clássico reality show estadunidense que coleciona fãs pelo mundo há mais de vinte anos. A verdade é que, como expliquei nos comentários à época, eu não assistia ao seriado, comecei em 2019 e com o objetivo de reparar essa falta. Pois então, cá estamos com uma temporada detonada pelos fãs e mídias relacionadas ao programa. Para mim, passageiro de primeira viagem, ignorante do que seria o tal “Survivor raiz”, a temporada pareceu divertida, com um jogo interessante e que quebra as regras relacionadas a moral e princípios, usadas à exaustão para comentar realities como Big Brother e Rupaul’s Drag Race.
Mesmo sem as outras trinta e sete temporadas como base, deu para perceber que algo aconteceu neste episódio. Todo o jogo de intrigas e manipulações construído durante a temporada através de mentiras, trapaças e combinados (coisas bem-vindas e aceitas aqui) é posto em cheque quando o melhor participante dessa edição decide usar o momento da eliminação, parte mais crítica do programa, para jogar uma verdade no ventilador: a maioria só o é porque a minoria não se une. Isto é, se no Big Brother, por exemplo, que também conta com votação entre os participantes, o pessoal que não faz parte de um grupo decidisse se unir, isso tiraria o poder do tal grupo.
O episódio tem talvez o momento mais divertido da temporada; tem bons discursos e um final que nos deixa satisfeitos pela surpresa. É o primeiro passo na jornada mais interessante do ano, com um participante que soube entender o jogo e manipulá-lo a seu favor. Se você é uma pessoa muito competitiva como eu e gosta de realities, mas nunca encarou Survivor, fica a recomendação de alguém que começou a partir da trigésima sétima temporada, mas correu para as outras assim que ela terminou.
[País: Estados Unidos // Idioma: inglês // Gênero: reality // Status: renovada, em exibição // AP: ausente]
46. Gentleman Jack, 01×04: “Most Women Are Dull and Stupid” (13/05/2019) [BBC One/HBO]
Escrito por: Sally Wainwright // Dirigido por: Sarah Harding

Não dá para falar que há produções tentando romper as barreiras de seu próprio gênero e não dar exemplo, certo? Nessa posição, encontramos uma série que fez isso — e foi repreendida pelo público no processo. De volta ao Reino Unido, berço de tanta série de época (talvez porque os produtores dão dois passos e já têm um cenário perfeito), temos uma co-produção. Gentleman Jack se passa no começo do século XIX e leva para a tela os diários de Anne Lister, uma rica proprietária de terras. Através das confissões dela, vemos não só o comportamento de sua classe à época como a dificuldade de ser uma mulher lésbica naquele período — e tudo baseado em diários reais, deixados pela mulher aqui interpretada por Suranne Jones.
A grande diferença entre essa produção de época e outras feitas por algum canal da BBC, além do foco em uma protagonista homossexual, está na quebra da quarta parede. Seguindo a influência (da primeira temporada) de Fleabag, temos uma personagem conversando com o público, fazendo-lhe caretas e se explicando para ele, exatamente como nos sentiríamos se estivéssemos lendo o diário de alguém ou como nos sentimos lendo livros narrados em primeira pessoal. Tal escolha revoltou os telespectadores mais conservadores que não gostaram nada desse rompimento na tradição de se contar histórias de época.
Além dessa adição às produções voltadas aos séculos passados, Gentleman se apoia na complexidade de sua personagem e no talento da atriz que tenta equilibrar seus defeitos e qualidades. Anne Lister é uma das melhores personagens do ano, principalmente porque está afastada do nosso regimento moral e há muito falecida para se importar com nossa opinião a seu respeito. Anne é corajosa, ousada e astuta, mas também é teimosa, preconceituosa e cruel. É um misto de sensações acompanhar seu relacionamento com a mulher pretendida (Ann Walker) que às vezes parece um jogo de manipulação pra lá de condenável.
O quarto episódio é a reunião de todos esses detalhes: temos a protagonista investindo num projeto arriscado, temos intrigas trazendo turbulência a seu relacionamento e a atriz Suranne Jones fazendo discursos de forma impecável. É um bom episódio para se curtir essa história antes que as personagens, por mais que bem escritas, tornem-na intragável demais.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Status: renovada // Gênero: drama // AP: n/a]
45. Documentary Now!, 03×04: “Waiting for the artist” (06/03/2019) [IFC]
Escrito por: Seth Meyers // Dirigido por: Alex Buono e Rhys Thomas

No ar desde 2015, Documentary Now! estreia este ano em nossa lista. Na terceira temporada, com sete episódios exibidos entre fevereiro e março de 2019 na tevê a cabo, temos novas paródias para nos provocar, provocar a indústria e seus objetos de análise. No episódio aqui separado, temos a arte como contexto, assim como o episódio de Jorel sobre o qual falamos há pouco. Dessa vez o roteiro, assinado por Seth Meyers, volta-se a Marina Abramović, o grande nome da arte performática. Muito famosa no meio artístico, talvez ela não o seja na escala de Yoko Ono, conhecida no nosso imaginário popular e em seu nicho. O objeto de paródia é o documentário Marina Abramovic – The Artist is Present (Matthew Akers, 2012) que foca no preparo da artista para uma exposição de seu trabalho no MoMa, importante museu de Nova Iorque.
Há diversos motivos para se recomendar esse episódio. Em primeiro lugar, ele é curto, assim como boa parte das séries de comédia. Em segundo lugar, temos Cate Blanchett sendo Cate Blanchett. Atriz convidada para protagonizar essa paródia, ela nos lembra rapidamente por que tem dois Óscars — e meio que merecia um terceiro. Em Waiting for the artist, ela interpreta uma artista comprometida com sua arte, esse universo que às vezes só faz sentido ao artista. Vemos sua história, suas crises e sua filosofia pessoal. A recomendação do episódio também pode ser por isso: provoca-nos a meditar sobre a arte em seus momentos mais confusos, inusitados e perturbadores.
Não me entenda errado, mas há diversos seguimentos em que não sabemos muito bem se a performance apresentada é ou não real — e, em alguns casos, poderia ser. Este é o poder da paródia: cutucar a obra original enquanto nos faz refletir sobre ela. É ideal que se tenha na memória o documentário original, mas funciona mesmo sem essa base. Tem um formato muito interessante (uma ficção que finge não ser ficção para parodiar uma não-ficção), mas, ainda mais importante que tudo já falado: é muito engraçado.
[País: EUA // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada // AP: ausente // MP: #45]
44. Crazy Ex-Girlfriend, 04×17: “I’m in love” (05/04/2019) [The CW]
Escrito por: Aline Brosh McKenna & Rachel Bloom // Dirigido por: Aline Brosh McKenna

Entre as cem séries selecionadas para nossa conversa, temos muitas que chegaram ao fim e exibiram sua última temporada em 2019. Como exemplo, podemos citar Game of Thrones (HBO), que basicamente redefiniu nosso modo de acompanhar seriados; e temos The Big Bang Theory (CBS), que teve uma audiência gigantesca, na casa dos milhões. Enquanto a primeira aparecerá mais para frente por aqui, já adianto que a segunda está ausente. Falando em ausência, se fizéssemos uma lista de séries importantes que ninguém está vendo, talvez Crazy Ex-Grirlfriend, que também chegou ao fim no ano passado, estivesse entre elas.
Crazy fez um piloto interessante e ousado, mas não deixou que a energia ficasse apenas na primeira temporada. Nas outras, decidiu se voltar a sua protagonista, fazendo um estudo de sua sanidade, além de abordar diversos outros temas importantes e que nos ajudam a digerir assuntos sérios. Tudo ainda com certa paródia (e homenagem) a musicais, contribuindo para nossa playlist pessoal com canções que ouviremos por muito tempo. Com quarenta minutos, a comédia dribla o formato quadrado em que está inserida graças ao talento e humor de sua criadora, Rachel Bloom — também atriz, roteirista, cantora e compositora na série. Crazy é tão importante que pode aparecer em vídeo numa conversa com algum amigo sobre antidepressivos ou autoestima.
O episódio escolhido fecha a história. Depois dele, no último, temos os atores cantando as músicas mais famosas em um especial ao vivo. Assim, Crazy faz algo parecido com Girls (HBO), série com a qual eu a comparei lá no começo. A resolução para o destino de Rebecca Bunch, advogada que largou uma carreira de sucesso para se mudar para a cidade de um ex-namorado que encontrou ao acaso, é meio previsível. Tem algo que nos lembra comédias românticas e a saída fácil que muitas utilizam. No entanto, diferente de GOT, ter obviedades aqui não estraga a experiência. Temos números bonitos e emocionantes, que celebram a história da série e fazem um resumo tocável do que foram quatro anos contornando os limites da tevê aberta norte-americana.
Finalizada, vale a maratona. Parabéns, Rachel Bloom, você não arruinou nada.
[País: EUA // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: finalizada // AP: #31]
43. One Punch Man, 02×03: “The Hunt Begins” (23/04/2019) [TV Tokyo]
Dirigido por: Ryō Andō

De uma comédia musical norte-americana, vamos para um anime japonês de aventura. Pois é, eu prometi uma lista variada, e aqui está a prova.
No retorno de One Punch Man, anime baseado em uma celebrada webcomic, damos continuidade à saga de Saitama, um super-herói meio incomum, mas super poderoso, capaz de vencer seus inimigos com apenas um soco — o que dá nome à animação. Mesmo com tanto poder, ele é desdenhoso com o mundo em que está inserido e parece não ligar muito para aquilo que creditamos como o comportamento comum de um herói. Conforme faz amizades e enfrenta outros perigos, Saitama se percebe interessado em ser famoso e respeitado dentro de sua profissão. É um mundo em que heróis não só existem, como participam de uma espécie de sindicato. Não é de se espantar que haja muita intriga, ego e disputa dentro desse meio — coisas que não despertam o interesse do protagonista.
Punch Man é perfeito para se colocar duas coisas em debate: o anime de ontem e o anime de hoje. Na paródia (e ao mesmo tempo homenagem), o que lembra a série anterior, falamos sobre os heróis antigos e os clichês com os quais nos acostumamos desde crianças. Há todo o extremismo e exagero que assistimos por décadas, mas dessa vez ressignificados com muito humor, deixando o grande drama por trás das lutas de lado. Assim, o mangá e a série animada se tornam uma boa referência para o que se pode fazer com um formato quando as regras já estão postas e você parece ter chegado muito tarde para inventar qualquer coisa.
No episódio escolhido, temos um investimento em novos personagens, além da preparação do enredo para uma nova fase. Tão divertido quanto os melhores momentos da primeira temporada e às vezes sombrio como boa parte da produção desse seguimento, The Hunt Begins faz um anúncio em seu título que é presenciado pelo telespectador em seus vinte e poucos minutos. Para quem quer começar ou voltar a assistir animes, é aquele para se adicionar à lista.
[País: Japão // Idioma: japonês // Gênero: aventura // Status: desconhecido AP: n/a ]
42. Derry Girls, 02×03: “The Concert” (19/03/2019) [Channel 4]
Escrito por: Lisa McGee // Dirigido por: Michael Lennox

Derry Girls é uma série desconcertante por vários motivos: os temas que traz, o humor ácido e suas personagens. Mas a série também o é porque me deixa numa situação difícil: escolher o melhor episódio de sua segunda temporada para essa lista. Eu poderia advogar por absolutamente todos os seis episódios, desde o começo indisciplinado até o final comovente e delicado, algo que a primeira temporada também fez. Nesse caso, os que já assistiram à série, sintam-se à vontade para me corrigir nos comentários e apontar qual episódio deveria estar aqui, representando-a.
Para nossa conversa, escolhi o terceiro. Nele, nosso grupo de garotas de Derry, cidade da Irlanda do norte, decide fugir da vigilância dos pais e ir ao show de uma banda que elas gostam. Como é de se esperar, principalmente aos que viram a (ótima) primeira temporada, nada dá muito certo… Quer dizer, dá tudo meio que errado. Temos um episódio em roadtrip (ou quase) que traz-nos a experiência nostálgica de sair às escondidas com os amigos e viver uma aventura longe da escola.
Se diversas séries dessa lista estão aqui para representar algo, essa pode apontar muitas coisas: aquilo que se acha quase escondido no catálogo da Netflix (distribuidora internacional), como o humor britânico é ousado e absurdo e como as mulheres estão criando coisas fantásticas no audiovisual (Lisa McGee, que ainda roteiriza). Também é possível sublinhar que dá para investir tudo em personagens carismáticas e histórias mirabolantes — isso muitas vezes é o suficiente.
[País: Reino Unido // Idioma: inglês // Gênero: comédia // Status: renovada // AP: #33]
41. Shippados, 01×07: “Logados” (07/06/2019) [Globoplay]
Escrito por: Alexandre Machado e Fernanda Young // Dirigido por: Ricardo Spencer e Renata Porto D’ave

“Ai meu Deus! Acabei de me dar conta que a gente é um casal!”
Além de toda a literatura deixada, uma outra prova de que Fernanda Young fará muita falta nas áreas em que estava inserida (e brincava) é a série Shippados, estrelada por Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch e que estreou na Globoplay em junho de 2019. Temos muitos nomes para chamar a atenção do público para essa produção, desde o texto ágil e característico de Young, passando pela dupla de protagonistas, dois grandes nomes da comédia contemporânea, e citando também diversos membros do Porta dos Fundos. Assim, ninguém chega muito ao acaso a essa série.
Basicamente, Shippados narra o encontro de duas pessoas que não têm boas experiências com relacionamentos ou sequer maturidade para começar um. Juntos, ambos começam a descobrir o que é se relacionar de verdade com uma pessoa, quais as responsabilidades e dramas que isso desperta. Antes de bater o martelo na recomendação, preciso dizer que a série começa melhor do que termina. Depois de certos episódios, as personagens e a trama vão tomando um rumo muito estranho, condenável — e chato, o que é o pior de tudo. Temos vícios do gênero nos diálogos e situações que fazem a série às vezes parecer datada, mas em muitos outros momentos há um frescor dentro do audiovisual nacional que nem sempre se aventura do modo como ocorre aqui.
No sétimo episódio, as personagens estão se preparando para a “primeira vez”. Como são atrapalhadas, temos um misto de confusões que só deixam ainda mais constrangedor um momento que assim já o é para muita gente. Dá para assistir em busca de identificação, para apreciar Tatá e Eduardo dando o melhor de si ou para celebrar o trabalho de uma artista que nos deixou muito cedo. Ou pela trilha, que é ótima.
[País: Brasil // Idioma: português // Gênero: comédia // Status: desconhecido // AP: n/a]
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Chegamos ao fim da primeira parte. Nos próximos dias, volto com mais dez séries que compõe os 100 melhores episódios desse ano. Não deixe de deixar nos comentários sua lista, seus palpites sobre os próximos colocados, quem não pode faltar. E de voltar daqui a pouco para continuarmos o papo.
As capas desses rankings são do André Zuil, que generosamente aceitou participar novamente este ano.






















