Lançado pelo canal estadunidense Epix em 2019, a série documental em quatro episódios Punk chega ao Globoplay e, com ela, a velha questão: o Punk está morto? Com Iggy Pop (avô do movimento) e John Varvatos (designer de moda) entre seus produtores, a série traz figuras conhecidas – a maioria já dinossauros do rock – e outras menos conhecidas, como alguns editores de revistas e jornalistas. Com um material de pouco mais de 200 minutos, há uma abordagem simples, direta, porém, muito eficaz que passa pelas várias fases do movimento e culmina nos tempos atuais.

O primeiro episódio se concentra na formação das primeiras bandas na virada dos anos 60 para os 70 e como o termo Punk surgiu. Figuras como Iggy Pop e os Stooges, sempre lembrado como a grande inspiração, mesmo em episódios posteriores, e membros de bandas da época, como MC5, New York Dolls, Jayne County (na época ainda chamada por Wayne County) e Blondie estrelam essa primeira parte. Para os mais estudados, algumas passagens do documentário podem não impressionar, mas essa primeira parte dificilmente não seria deleitosa para todos, com fotos e registros audiovisuais raros dos primórdios do que viria a ser o punk. É curioso como, embora atualmente todos digam com muito orgulho que são punk, na época o termo tinha uma conotação negativa e eles não se identificavam com ele. Só com o tempo e com a revista Punk foi que uma identidade foi criada. Os Ramones surgiram e a figura do sujeito de jaqueta de couro, jeans e all star se popularizou. O trabalhador comum se identificava com aquele músico que se vestia como ele. O Punk finalmente estava entre nós.

O segundo episódio, focado mais nos britânicos, mostra a influência de bandas como Sex Pistols, The Clash, The Damned e The Slits tiveram na cena e como eles foram essenciais para que o que estava sendo feito nos EUA não fracassasse. Embora houvesse já muitas bandas na terra do Tio Sam, eles não conseguiam muitos shows além do que acontecia pelo CBGB. Com a turnê dos Ramones na Inglaterra, tudo mudou. Apesar de focar bastante no controverso Johnny Rotten, com vários momentos egocêntricos e cansativos, a segunda parte do material toca em assuntos muito relevantes, como as Slits, uma banda majoritariamente de mulheres, surgiu no movimento, foi uma das pioneiras na inserção das mulheres na cena e tem a admiração de muitos dos mais consagrados e reconhecíveis figuras. Outra questão importante está relacionada a como o The Clash, principalmente na figura de Joe Strummer, ajudou a politizar o movimento e também integrou negros e latinos à cena com a miscigenação de estilos jamaicanos em seu som.

Entretanto, o estilo sofreu uma grande queda com a separação dos Sex Pistols e morte de Sid Vicious (baixista do grupo). Infelizmente, na visão do diretor Jesse James Miller, não era necessário mostrar a fase London Calling, do Clash, e o que aconteceu com a parte britânica do movimento, a qual continuou após os eventos envolvendo os Sex Pistols e é muito rica. De qualquer modo, no terceiro episódio, há uma volta para o ponto de vista do que estava acontecendo nos EUA na virada dos anos 70 para os 80 e como surgiu o hardcore. Bad Brains, Black Flag, Dead Kennedys, entre outros, são as estrelas desta parte, em que assuntos mais pesados como o crescente machismo, violência nos shows e sujeitos identificados com o fascismo e nazismo surgem. O movimento feminista Riot Grrrl que tomou forma alguns anos depois (e é discutido no episódio 4) foi muito importante também, em que bandas como Bikini Kill e L7 denunciam como bandas de homens brancos não davam espaço para as mulheres também participarem do Punk Rock.

Nesse último episódio o foco é nas bandas noventistas. Nessa parte, o debate gira em torno da finalmente popularização do punk. The Offspring, Green Day, Bad Religion, NOFX e até mesmo o Nirvana são creditados como os responsáveis por isso. A banda de Kurt Cobain, quase sempre relacionada ao movimento Grunge, é apreciada como uma banda punk pelos personagens do episódio – e isso é muito bom! A cultura do surf e skate é lembrada como uma forte impulsionadora do punk chegar aos grandes mercados também e a discussão sobre “banda tal ter se vendido e traído o movimento” é trazida para a roda.

Entretanto, nem tudo são flores. Alguns aspectos da série incomodam. Por exemplo, o episódio 4 soa um pouco apressado em sua finalização. Os anos 2000 são resumidos à clássica “a internet é a grande responsável pela queda das bandas”. A fase American Idiot, do Green Day ou o surgimento dos Libertines, por exemplo, não são citados e fica a impressão de que muitos ainda guardam certo rancor pela diminuição da venda de álbuns físicos. Culpar exclusivamente a internet por isso é injusto e não faz sentido.

“Punk” é um tremendo achado. Não inventa a roda, como também não se aprofunda demais em assuntos que por si só já possuem dezenas de outros documentários e tomariam muito tempo de tela. Porém, é um belo trabalho de seleção e interligação de vários assuntos muitas vezes dissonantes. Ao final, a mensagem que fica é de que há um ciclo, com Marky Ramone sendo a figura pátria a decretar que, sim, o Punk está em baixa, como esteve em outras vezes também, mas um otimismo paira no ar. Trechos de bandas super recentes são exemplos de que nem tudo está perdido e provam que, não, o Punk não está morto. Parafraseando a mensagem final do doc: é só você que está olhando para os lugares errados. DIY!

REVISÃO GERAL
Nota:
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