Viver em sociedade requer regras. Pergunte a qualquer antropólogo ou sociólogo que, prontamente, os mesmos lhe explicarão como funciona o controle de narrativa através da religião ― ou das leis ― por aqueles que estão no poder.
Nossa quarta incursão deste ano de The Handmaid’s Tale é o cimento que faltava naquilo que já havíamos notado: há uma nova estrutura permeando a narrativa do show. A trama parece correr mais ritmada, as ações, de fato, levam a algum lugar; a série realmente assume que é um reflexo da personalidade de June ao encarar o regime. E o que seria dessa série sem seus personagens ricos numa terceira temporada, não?
Trabalhar os paralelos da liberdade e da opressão também é feliz demais, o batizado de Hanna com a Cerimônia imposta e coletiva de Gilead acontecendo trazem aquela sensação de artificialidade, de impessoalidade, para um momento tão íntimo na vida de uma família; as mãos firmes do roteirista Eric Tuchman na condução narrativa são um primor, estabelecendo condutas e sentimentos inexplorados pelos personagens, de certa forma. O que foi June pensando sobre sua relação com Fred, sem saber explicar a complexa conexão que tem com ele? Sua estranha e servil pena para com Serena? Temos então os indícios necessários para um Síndrome de Escolmo leve! June e os Waterford viveram muita coisa juntos, experimentaram ódio, raiva e alegria, experimentaram a crueldade a níveis que, para nós, em nosso cotidiano, são impensáveis, mas que, ali dentro, funciona de forma até mesmo familiar.
Posso aplicar isso também aos momentos de Janine (Madeline Brewer) com os Putnam: ainda há humanidade resistindo naquelas pessoas que se submetem ao regime, o mundo não é preto e branco como grande parte do público ama enxergar, afinal, é mais palatável pensar no maniqueísmo de quem uma pessoa é puramente ruim apenas por sê-lo. A pequena Charlotte sendo afagada pela mãe diante de todos é de uma ternura e uma construção ímpar. Os Putnam existem ali em Gilead por se beneficiarem? Sim, porém o que mais há em seu cerne? O que levaria o casal a convidar as Aias do distrito para a festinha quando todos os outros ignoram completamente a existência de pessoas por baixo dos mantos vermelhos?
O antológico momento em que Tia Lydia desaba diante de todos, com seu ódio compulsório, sua frustração em ter baixado a guarda, seu código moral sendo colocado a prova com uma punição absurdamente severa e a estagnação com que todos encaram a crueldade com uma semelhante conversa diretamente com nossas notícias, afinal, quem nunca viu casos de um marido batendo na mulher sem ninguém interferir, apenas filmando, observando a crueldade humana passivamente por aquilo não lhe afetar? Apenas um igual é capaz de se erguer contra a figura de autoridade que se agiganta diante de nossos olhos, mesmo que corra o risco da mesma punição. Coloco aqui então, leitor, uma pergunta capciosa: não somos todos tão covardes quanto os Putnam dentro de nossas realidades, reagindo apenas ao que nos afeta diretamente?
É Gilead, mais uma vez podando a liberdade de tudo e todos, sem exceção, ninguém é realmente feliz naquele lugar. Gilead é a nossa sociedade doente elevada à décima potência e isso nunca esteve tão claro no show.
A relação de Serena e June se intensificando, se apoiando, apesar de todos os horrores, a forma como a aia a conduz, mostra a ela aquilo que a mãe e a religião lhe podaram em parte da vida e de uma minúcia que, a mim, como espectador, toca. Como dito uma vez no show, em outra realidade, no antes, elas poderiam ter sido amigas. Serena segue em seu justo calvário, em sua tentativa de manter a sanidade diante das provações que lhe foram jogadas por todos. Ser colocada em posição de desvantagem lhe faz maior e mais rica, a faz se abrir e criar empatia pelas situações alheias, lhe faz mover o ponto de forma literal e representativa.
Luke (O-T Fagbenle) se colocou em seu lugar, diante de decisões tão difíceis quanto é possível para um expatriado traumatizado que se vê com uma criança lhe sendo entregue, vindo de sua esposa, uma escrava usada como incubadora. É doloroso, porém compreensível demais, ver o quão afetado ele fica ao olhar uma quebrada Emily (Alexis Bledel), passando-lhe pela cabeça o motivo dela ter conseguido fugir e não June, como a pequena Nicohle é fruto dos horrores que sua esposa vive cotidianamente e ele é incapaz de fazer algo para mudar isso, por mais que se esforce.
Por falar em Emily, você pode deixar o lugar para trás, mas ele nunca sai de você! Conforme dito na review anterior, a frieza com que a personagem se dá com as pessoas, parecendo tão perdida em si, com sua nova realidade nos fazem refletir sobre a potência que os traumas têm em nos podar na vida. Vimos isso em Moira (Samira Wiley), de forma moderada, vimos toda a reconstrução dela ao constatar que não tinha nada e que precisava seguir em frente. Emily chegará nesse ponto hora ou outra, porém a que custo isso se sucederá? Uma parte dela morreu em Gilead, sua humanidade abrandou para que ela pudesse sobreviver e sua incredulidade de ter passado ilesa pelas colônias radioativas, enquanto centenas morreram diante de seus olhos, só lhe fermenta mais ainda a culpa dos sobreviventes.
Emoção transborda com a minúcia tanto quanto com a expansividade em cena; se The Handmaid’s Tale nos ensina algo, como show audiovisual, é que pequenos gestos e momentos ternos tem tanta potência quanto o ódio potencializado no olhar ou pegar um carro e atropelar seus malfeitores. Uma ação não precisa ser física para tocar nossa alma.
> A MITOLOGIA SECRETA DE DARK!
O que fica de God Bless the Child é o sentimento; dentro de nossas contradições, somos capazes de muito mais que nossas emoções básicas podem nos prover. A empatia, a repercussão de nossas decisões em obedecer ou não as regras e convenções sociais, como nos portamos diante do ódio e da repressão do mundo, nos definem e calcam o futuro daqueles que amamos.






















