É notável que “American Gods” mudou bastante em sua segunda temporada. O principal foco do primeiro ano era adentrar de cabeça nesse mundo onírico do conflito entre os deuses novos e antigos, usando de um visual poderoso e trabalhando com diversas metáforas visuais, dando espaço para o espectador tirar suas conclusões e trabalhar suas teorias. Neste segundo ano a série perdeu um pouco dessa característica, se calcando mais na literalidade em prol do entendimento geral da narrativa. Isso afastou alguns fãs antigos e atraiu alguns novos, que preferem algo mais “entendível” do que aberto a interpretação. E foi assim a construção dessa segunda empreitada, encontrando seu tom e finalmente encontrando seu norte narrativo durante a sua exibição.
Mas com essa mudança de tom, houve também concessões a serem feitas. Enquanto essa “obviedade” da narrativa ia sendo explorada, os arroubos visuais vistos na primeira iam sendo costurados no tecido da trama, mas não da maneira hábil de outrora, causando algumas confusões sobre aspectos chave da história. Esse segundo season finale acaba sendo o exemplo perfeito desse desbalanço que surgiu como resultado de encontrar uma nova identidade própria para o show. Chegou a ser anticlimático, já que a promessa de guerra, do conflito entre novos e velhos, é feita a todo momento, mas as batalhas são sempre deixadas para depois e nisso a antecipação criada acaba se tornando uma arma usada por aqueles que assistem reclamarem.

Mas se de um lado a série frustrou em ação, do outro ela foi abundante em respostas. Desde o começo que simulava uma transmissão à la “Guerra dos Mundos” o foco principal desse final foi a jogada dos deuses modernos. Enquanto os antigos se utilizam da crença e da esperança para se alimentarem das orações de seus fiéis, os novos usam algo muito mais poderoso e manipulável: o medo. E o discurso de Mr. World não poderia deixar mais claro que agora é a vez dele de mexer as peças no tabuleiro. O medo é poder, é segurança, é (principalmente) controle. O caos quando dirigido dos bastidores serve a propósitos muito mais letais do que armas físicas. É o temor daquele que mora ao seu lado, daquele que cruza você na rua e até pior, dentro da sua casa, que mantem o estado de alerta perene e com ele o foco na modernidade. O quanto de nossa privacidade, do nosso tempo de vida entregamos a tecnologia em nome da segurança? Do medo de um ataque que talvez nunca venha a existir? E o quão fácil somos entregues ao pânico e a barbárie em tempos de crise? Essa globalização do medo é o principal altar de Mr. World.

E junto dele a nova versão atualizada do Technical Boy. O personagem volta não só mais poderoso e moderno, mas volta como uma espécie de arauto divino, uma corrupção (até ácida) do cristianismo como figura de linguagem que entrega um aspecto interessante sobre a divindade: não somos feitos a semelhança deles, eles é que são feitos a partir da nossa. As religiões monoteístas meio que expurgaram esse conceito de “humanidade” da divindade, mas nos panteões antigos essa era a principal marca registrada, mesmo que eles (os deuses) controlassem tudo, eles eram na verdade os controlados.

Essa sensação de controle finalmente coloca Shadow no seu devido lugar. Se no primeiro ano tínhamos ele descobrindo o real poder daquelas figuras, neste ano foi o personagem caminhando para encontrar seu verdadeiro papel nisso tudo e se livrar das amarras impostas por essas figuras caóticas e de intenções escusas. Nesse plot foi que o simbolismo foi mais bem empregado aqui na série. Praticamente todo o show pôde ser em certos diálogos, certas atitudes. Como no embate entre Anansi e Ibis, na verdade tudo aquilo é uma partida de xadrez, não uma guerra física, uma revolução propriamente dita. Esse conceito de “Guerra Fria divina” agora fica totalmente evidente, já que até o final do episódio somente Shadow não sabia que todos os movimentos já tinham sido jogados anteriormente e agora só estamos acompanhando as consequências desses atos. Entre “fake news” criadas pela New Media e as verdades (ironicamente) ditas por Laura, Shadow acaba descobrindo algo que ele sempre necessitou: tomar as próprias decisões.
E é aqui que uma das principais revelações da série é entregue. Na tentativa de fuga ele é pego pela Yggdrasil e com esse fato algo que sempre esteve correndo de modo silencioso por baixo da superfície terrena é explicitado. Shadow é filho de Odin. Sua real identidade ainda não está clara, mas agora todos os sinais convergem para essa afirmação. As declarações entregues tanto por Wednesday, quanto por sua mãe vão montando o quebra cabeça até esse esperado resultado. Desde aquelas visões com o pomar de ossos, o bisão branco, o misterioso homem com a moeda no hospital, tudo aquilo foi um modo de controle do deus nórdico para com que Shadow cumprisse um caminho determinado e que, de certo modo, tolhe o livre arbítrio do personagem. Se descobrimos sua origem, seus poderes e seu verdadeiro nome ainda estão cobertos por uma misteriosa sombra (talvez daí o trocadilho com o nome do episódio). Ele foi capaz de terminar com a manipulação da Media? As constantes visões são indicativas de algo? A luz que Laura vê e segue como um farol seria o eco da verdadeira forma tentando escapar do corpo humano? São perguntas que ficam para a terceira temporada.
> A GUERRA DOS DEUSES EM AMERICAN GODS!
“American Gods” perde um pouco de sua divindade da primeira temporada e mergulha na humanidade de sua segunda. Temas como manipulação tecnológica e preconceito racial (que assumiu uma forte carga nesse ano) sobem ao palco, tomando o lugar das metáforas, aforismos e viagens visuais do ano anterior. Agora que Shadow finalmente quebrou (a machadadas) a última barreira que o separava do plano geral jogado pelos dois lados, resta acompanhar para onde suas escolhas o levarão. O terceiro ano promete ser sobre essa jornada do personagem em finalmente assumir uma postura pessoal nesse conflito que já aparenta se encaminhar para uma conclusão. Até a próxima temporada!
Pequeno Panteão
– “?!” (Interpretado por Ricky Whittle)
Origem: nórdica (?!)
Anotações de Ibis 1: Se a série seguir a mesma estrutura do livro, teremos o terceiro ano como o final da história (já que o livro tem três partes, com prólogo e epílogo). A sensação fica ainda mais presente já que muito dos elementos principais do final do livro já tiveram dicas fortes inseridas na série ou revelados (como a situação atual de Shadow);
Anotações de Ibis 2: Onde Laura depositará o corpo de Sweeney?
Anotações de Ibis 3: A Media de Kahyun Kim realmente só ficou na promessa, não sabemos se por alcance de atuação da atriz ou por limitações do roteiro. Esperemos o terceiro ano;
Anotações de Ibis 4: De onde saiu aquele sangue da benção de Bilquis?!
Anotações de Ibis 5: Jinn e Salim casal mais estável da série até agora, mas já que o gênio fugiu da obrigação com Wednesday, permanecerão felizes por muito tempo?
Anotações de Ibis 6: Gostei bastante da metalinguagem inerente em todo aquele discurso do Mr. World.
Anotações de Ibis 7: Esperamos que a próxima temporada não demore tanto quanto esta para sair, afinal o novo showrunner já foi escolhido.















![American Gods 3×10: Tears of the Wrath-Bearing Tree [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2021/03/American-Gods-3x10-1-218x150.jpg)