Aconteceu o que todo o fandom politizado da Drag Race queria: o medo de repercussões negativas finalmente alcançou as decisões de RuPaul. Cabe a cada um de nós encarar essas decisões com positividade ou negatividade.

Vamos começar esse texto dizendo o óbvio que ronda e muitas vezes é ignorado: uma pessoa iria ganhar 100 mil dólares e agora DUAS podem ir para casa com o prêmio. São DUAS vitórias em vez de uma. Duas… Estranhamente, vivemos num mundo em que isso é motivo para ódio, rancor e obscuridade. E é um reflexo do fandom da Drag Race nos últimos tempos, um fandom tóxico, cruel e cheio daquela ignorância empoderada que assola a modernidade. De fato, as acusações de racismo que aumentaram no decorrer dos anos são muito mais uma resposta dos fãs a como são tratadas as meninas negras depois dos episódios. Ru sempre manteve uma postura distanciada, errou no discurso com Vixen, mas a Drag Race é um reflexo de comportamentos racistas da audiência e não um provocador dessas reações. DUAS meninas venceram essa quarta edição do All Stars e não é o programa que está amaldiçoando essa decisão. São eles, os fãs. Somos nós.

O All Stars nunca foi sobre merecimento, acordem para isso. Mas, o merecimento é um belo plus que pode tornar a viagem mais divertida ainda. Há uma questão de merecimento envolvida nesse Top 2 e Trinity sabe disso. Ela é branca, sim. Mas, também é a que tem o melhor histórico, a maior presença na competição (o que inclui tudo, performance, looks e até declarações nas entrevistas). Monet seria, sem dúvida, a outra melhor opção. Ela é negra, sim. Mas, teve um histórico menos estável. Julgar as participações delas não deveria ser uma questão racial. Porém, a forma como Drag Race tem sido cobrada torna tudo uma questão de confirmações ou impugnações do quanto “tudo está errado” até agora. Tornou-se um status odiar RuPaul, chamá-la de múmia, maldizer a corrida como se ela fosse só enganos. Não é que Monet não seja maravilhosa. Ela é. Courtney não ganhou de Bianca, mas também era. Monet  só estava um degrau, um pequeno mesmo, abaixo de Trinity. E para alguns até isso é discutível.

Em outros tempos, RuPaul teria encarado a multidão e coroado The Tuck baseada nesse histórico. Agora, pela primeira vez, o peso de certas responsabilidades começam a esmagar sua cabeça. Monet também poderia ter sido coroada, teria sido merecido. Mas, a finale mostrou que o trauma da derrota de Shangela foi grande e que Mama Ru não iria deixar isso acontecer novamente. Então, coroar Monet apenas, teria acordado outra horda violenta, indignada porque Trinity perdera o direito de ter sua soberania reconhecida. Então, uma vez restabelecido o controle, RuPaul travou. Se coroasse Trinity seria outra rainha branca, se coroasse Monet seria outro hematoma no tal senso de merecimento… Com 200 mil para gastar, Ru resolve ser diplomática e agradar a todo mundo. Resultado? Causa ainda mais desagrado. Podemos concluir, então, que o fandom da Drag Race é o mais insatisfeito e cansativo de toda a história dos realities.

Super Queens 

De alguns anos para cá o tal videoclipe de RuPaul foi substituído por um grande número musical onde as meninas criam suas próprias letras. Desse jeito elas trabalham mais, isso é fato. O nível de dificuldade é sempre altíssimo também. Super Queen, naquela versão, não deve tocar nas boates, mas era muito gostosa de ouvir. Todo mundo se saiu bem, mas é notório que Monet estava num nível a mais de conforto com a coreografia. Trinity vinha em segundo, com um trecho da dança tomado de capas esvoaçantes, algo bonito de verdade. Monique foi a que teve o desempenho mais questionável, tanto no número quanto na passarela. Noami, infelizmente, ainda não trabalhou o suficiente para provar aos outros que pode ser mais que uma rainha obcecada com moda. Isso atrapalhou muito seu julgamento antes e agora.

É muito curioso que esse Top4 tenha sido formado por meninas que tem duas grandes coisas em comum: elas fazem parte das temporadas mais recentes e também tiveram que abandonar um pouco de seu marketing profissional. Trinity teve que ser menos “plástica”, Monet menos “esponja”, Monique menos “vaca” e Naomi menos “fashion”. Todo mundo voltou para o All Stars querendo defender sua “marca”, mas logo perceberam que o importante era demonstrar evolução e fazer jogo social. As quatro foram bem sucedidas na demonstração do amadurecimento técnico, mas com exceção de Trinity, falharam no jogo social, desequilibrando o tabuleiro com eliminações baseadas em rancores e medos. E aí, observem mais um ponto a favor de Trinity: as eliminações polêmicas não estão na conta dela e ela ainda apareceu uma série de vezes fazendo apontamentos realmente sensatos sobre o assunto.

Com Monique e Naomi fora do páreo (Naomi lindíssima, mas esquecível e Monique intensa, mas no look errado) o lipsync jogou de novo com nossas impressões. Trinity fez um monte de lipsyncs com aquele mini-reveal do tuck e deixar outro para a finale não me pareceu muito esperto. Monet manteve seu plano de desmistificar clichês de dublagem e usou o reveal de peruca de um modo muito engraçado e original. Aquilo levou o favoritismo de volta para ela e quando colocamos as coisas em perspectiva, dá para entender que atrás da diplomacia da decisão de Ru está uma compreensão real de que as duas tinham condições de vencer. A temporada regular não abriga essa possibilidade e esse tipo de proximidade de performances ainda não tinha acontecido. Não deixa de ser um resultado legítimo, ainda que para quem divide uma vitória, a sensação seja de que na busca por justiça a justiça se perdeu.

https://youtu.be/t5E18kxcCTA

No vídeo que mostra a reação das duas o choque de Trinity é notório. Está passando pela cabeça dela o que passou pela cabeça de muita gente: as questões raciais assolaram tanto a Drag Race que não estou ganhando sozinha por causa disso. E é bastante provável que seja exatamente isso, o que não é justo com Trinity e muito menos com Monet. É claro que elas farão o que está certo, que é enxergar a coisa pela ótica do merecimento. Aqui fora nós também temos a opção de escolher festejar ou amaldiçoar o resultado. Difícil é entender porque o maldizer vira a primeira opção de tanta gente. Pessoalmente, Trinity é minha grande vencedora. Mas, Monet não tem que pagar por uma decisão que nem mesmo lhe cabia. São nossas reações destemperadas que levam a tantas mudanças no quadro geral da corrida. RuPaul’s Drag Race lutou para conquistar fãs com os quais agora não consegue mais lidar. É alarmante.

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Enfim, cá está mais uma temporada de polêmicas e descontentamentos. Para mim, contudo, o All Stars é tão divertido exatamente por tudo que acontece de “errado”. Sem o engessamento da temporada regular, o formato é quente, intenso, frenético, exatamente como numa corrida. Perder o júri que decidiu tudo ano passado foi um sinal de que RuPaul recuou; e isso me preocupa. O All Stars é um terreno de experimentação e se parte da galera continuar reclamando, vai conseguir deixar tudo quadrado, chato. Até Ornacia pode ficar com o Hall da Fama. O que nunca pode faltar é a “treta”… e o talento.

RuNote – Duas coisas :

  • Monet e Trinity estão em outro hall of fame: o de momentos inesquecíveis do show.
  • Ru finalmente conseguiu surpreender todo mundo com o resultado. Apesar dos constantes vazamentos.
REVISÃO GERAL
Nota:
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