O final dos anos 80 e o começo dos anos 90 serão a base primordial da promissora trama das 19 horas que substituirá O Tempo Não Para.

Há quem diga que os anos 90 foram uma década de transição. Os 80, tão exagerados e transformadores, deixaram uma marca tão profunda na nossa cultura, que os 90 precisaram seguir calmamente na sua busca por identidade. Não é a toa que são os anos 80 a grande estrela do mercado dramatúrgico mundial. A série Stranger Things, o filme IT; e tantas outras produções que reacenderam o interesse do público por esse momento da história. Então, quando fomos convidados para a coletiva de apresentação da próxima novela das 19, aparecemos por lá cheios de expectativas. Os anos 90 seriam o destaque da vez.

Dira Paes, Isabelle Drummond, Rafael Viti, Claudia Raia e Jesuíta Barbosa (na sua incursão nos folhetins) estavam por lá representando o elenco. Jorge Fernando retoma seu trabalho depois de alguns problemas de saúde e dirige a novela. As autoras Izabel de Oliveira e Paula Amaral também estavam presentes. Zeca Camargo foi convidado especialmente para falar sobre o que a década de 90 representou para a cultura pop do país. Será ela, a cultura pop, quem mais vai delinear a forma artística dessa dramaturgia. Através de música e referência visual, Verão 90 vai situar o público dentro da atmosfera efervescente do Rio de Janeiro daquela época.

A novela vai contar a história de um grupo musical mirim chamado Patotinha Mágica, formado por 3 pequenos “talentos”. Um deles é a personagem de Isabelle Drummond, que quando criança conheceu o estrelato, mas que foi esquecida quando os anos 90 chegaram. Sua mãe, vivida por Claudia Raia, é quem insiste que a desalentada filha continue buscando a fama. Do outro lado, Dira Paes tenta lidar com os filhos que se odeiam. Rafael Viti é um VJ (que representa o auge da MTV na época) e seu irmão, vivido por Jesuíta, se ressente com o fato de ter perdido a fama. Os dois se chamam João e Jerônimo, em homenagem aos Irmãos Coragem, novela favorita da mãe.

Daí começa a metalinguagem constante, já que Dira trabalhou na segunda versão de Irmãos Coragem, por exemplo. Claudia Raia, que era uma musa nos anos 90, vivia, em 91, a “bailarina da coxa grossa” em Rainha da Sucata. Eu quis saber, então: “Os personagens vão ver novela dentro da novela?”, “Sim, vão”, responderam as autoras. “Mas, a personagem da Claudia Raia, por exemplo, vai ser confundida com a Bailarina da Coxa Grossa?”, insisti. “Isso, já não podemos dizer”, encerraram as autoras, fazendo suspense.

Jorge Fernando, diretor da trama, foi convocado para dar forma aos intentos artísticos de uma produção que pretende trazer de volta a atmosfera de títulos como Cambalacho, Sassaricando e a própria Rainha da Sucata, todas de Sílvio de Abreu; e que têm muito do espírito da década: “”A forma de manter a novela solar, de manter Verão 90 e de homenagear todo esse elenco de cantores que marcaram vários sucessos… O tema da Claudia Raia é Rosana, ‘Como Uma Deusa’. Claudia tem outro tema, que é a Gretchen cantando ‘Freak Le Boom Boom’.”, disse ele. Jorge também falou sobre como foi difícil encontrar canções da época que pudessem ter seus direitos adquiridos. Todo esse clima será reforçado por clipes de transição de cena, com imagens do Rio e pedaços de videoclipes icônicos, mesclados, por todos os capítulos. As imagens foram mostradas aos jornalistas presentes e o resultado emocional alcançado é realmente impressionante.

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É essa memória o principal atrativo da novela. O personagem de Rafael Viti tem uma Brasília amarela, numa clara referência aos Mamonas Assassinas, por exemplo. O grupo musical mirim lembra o Trem da Alegria, as canções internacionais trarão o Roxete e o Information Society, os filmes citados seguirão o fluxo e até mesmo uma personagem vidente fará previsões para o futuro que nós, no nosso tempo, já vimos acontecer. Claudia Raia, inclusive, uma das grandes estrelas daquela década, resumiu muito bem o que aqueles anos queriam dizer: “A novela tem um pouco de tudo. Falando do exagero, podíamos fazer tudo, vestir tudo. O brega era chique e que bom que era assim porque era muito melhor”. Considerando tudo isso, e considerando o nome de Jorge Fernando na direção, o que podemos esperar de Verão 90 é uma comédia rasgada, descarada, que se tiver um texto sagaz, pode acabar com a maldição do horário, que vive cheio de ótimas ideias com questionáveis execuções.

Agora, o teaser da novela:

Enfim, em meio a discos de vinil, walkmans, cabelões e cenas com guerra de comida, Verão 90 vai ter uma difícil tarefa pela frente, que é a de saber que o clichê nesse caso é essencial para a história, mas que saber usá-lo a favor de uma atmosfera é necessário para cativar o público que não viu os anos 90 passarem. Já com relação a nós, que ouvíamos trancados no quarto a nova canção do Legião Urbana, a novela pode ter um sabor maravilhoso de afetividade.

EM TEMPO: As autoras comentaram numa conversa que tive com elas que tinham decidido ter apenas dois irmãos protagonistas. Mas, que ficaram hesitantes, porque os Irmãos Coragem, na verdade, são três. “Os personagens de Isabelle e Rafael poderiam ter um filho no final e colocarem o nome de Duda, o outro Coragem”, sugeri. Elas se olharam animadas e eu pensei: “Posso ter acabado de escrever uma linha do final da novela”, rsrs.

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