A promessa da nostalgia dos anos 90 não conseguiu superar a trama extremamente infantilizada da novela.
Na ocasião do lançamento de Verão 90 vários dos atores com quem falei disseram que a maior sedução na ideia de fazer a novela era retornar aos “tempos sem filtro” da década em questão, estabelecendo não só a leveza das narrativas daqueles tempos (supostamente), mas também perdendo um pouco da preocupação com o politicamente correto. Estamos falando do horário das 19 horas, famoso por ser a “hora da comédia”, mas agora vivendo uma outra era: a das “ideias serialescas” que já foram para reinos medievais e até viagens pelo tempo. Com os anos 80 tão em alta, o que Izabel de Oliveira e Paula Amaral fizeram foi avançar na tendência e através de alguns códigos dramatúrgicos da época criar uma novela ‘feliz’.
Dando uma olhada nas novelas que estiveram no ar entre o final dos anos 80 e meados dos anos 90, dá para entender bem o que as autoras quiseram fazer. Jorge Fernando foi chamado para a direção artística porque seu nome também sempre esteve ligado aos títulos que compunham aquele “jeito anos 90 de fazer novela”. É como se elas tivessem estudado a direção de Jorge e o texto de Sílvio de Abreu, ressuscitando seus métodos quase completamente, como uma cópia carbono, enchendo o miolo criativo da novela com golpes, brigas “pelas empresas” e constrangedoras armações que chegavam ao extremo do pó-de-mico e do laxante na comida. Em determinados momentos, era como assistir alguns quadros dos antigos Trapalhões.
Aliás, esse é outro dos pontos importantes acerca de Verão 90. Nos anos 90 surgiu a Malhação, com seus enredos quase episódicos e estreou outro grande sucesso, da era das “novelinhas”, chamado Caça-Talentos. Esses produtos tinham características específicas que iam desde uma trama simplista, sem complexidades, até uma diminuição de cenas externas, que privilegiavam poucos cenários, sempre parecendo limpos e burocráticos demais. Eram produções que lidavam com ingenuidade, maniqueísmos claros, quase como se fossem parte de uma vida colorida onde tudo pode terminar em redenção. Verão 90 acabou sendo isso: uma “novelinha”.
Verão abaixo de 0
Essa costuma ser uma recorrência nessas tramas cheias de ideias incomuns: a coisa do medieval, da viagem no tempo, dos anos 90, vai sendo impressa nas primeiras semanas, mas aos poucos, os velhos clichês vêm à tona com força total e aquelas grandes ideias se perdem num roteiro rocambolesco que não tem nem uma grama de frescor. Verão 90, como na maioria dessas “grandes ideias”, ficou dependente de coadjuvantes para funcionar, visto que o trio formado por Rafael Viti (apático na maioria do tempo), Jesuíta Barbosa (desajustado e desconfortável) e Isabelle Drummond (a que mais parecia à vontade no papel) seguia todas as insuportáveis métricas folhetinescas, com armações para separações esdrúxulas e muitas reações desproporcionais.
Em meio a detalhes interessantes como a inserção da Galeria Sibéria (uma cópia dos points mais badalados da Zona sul do Rio), da boa atuação de Miguel Romulo como Sabrina, do carisma de Klebber Toledo e de grande parte das referências de época, Verão 90 também parecia uma longa esquete de humor, com uma direção frouxa, que resolvia encontros com esbarrões, causava escândalos mais com caretas que com resultados e vivia parecendo um espetáculo infantil. Algumas vezes as saídas eram tão superficiais que as histórias pareciam exercícios de improviso de um curso livre de teatro. O sofrimento não imprimia realidade, a espera não imprimia realidade e só tinha uma pessoa sendo realmente feliz ali: Claudia Raia.
Alguns podem achar que o bordão do “Tudo Bom?” era irritante. Mas, o fato é que foi Claudia quem mais se dedicou a tirar sua Lidiane do lugar comum. E foi graças à ela que a novela encontrou certa dignidade. Ela ainda era um exagero, era uma ferramenta para plots infantilizados. Mas, por incrível que pareça, havia uma naturalidade calculada, que tornava Lidiane real mesmo que estivesse cercada de absurdos. Na reta final da trama os anos 90 não interessavam mais e a novela virou um jogo de gato e rato enfadonho entre João e Jerônimo. Todo o desbunde de possibilidades referenciais se provou incapaz de justificar tanta coisa rasteira. Ainda estamos falando de um sucesso de audiência, mas isso nunca foi parâmetro…
Enfim, a novela não vai ser marcante e Bom Sucesso vem logo aí. Verão 90 teve lá seus bons momentos, mas o que apresentou, de fato, não chegou nem a ser febril, ficou ali no máximo dos 25 graus, se coroando com poças de lama e doces-de-leite enfeitiçados. Até que Madá previu a existência da novela para o futuro. Mas, ela só não conseguiu prever que a última coisa que ela será é inesquecível.















