“No princípio era o verbo”, atestam as primeiras palavras do evangelho escrito por João. Em “The Word”, derradeiro episódio da segunda temporada de “The Handmaid’s Tale”, a visão do filho de Salomé para o gênesis da humanidade tem importância inegável. O tom do capítulo que encerra o segundo ano da série da Hulu, no entanto, não foi exatamente conferido pela “palavra” como citada no evangelho. Afinal, as mulheres da ficcional República de Gilead  são proibidas de ler ou privadas da alfabetização.

O texto a seguir tem spoilers sobre a série The Handmaid’s Tale!

“É a lei” da sociedade apresentada por Margaret Atwood em livro homônimo, intitulado em português “O Conto da Aia”. Como é lei em localidades que estão no mapa mundi, regidas por regimes como o talibã ou pela extrema pobreza. A dura regra vigente na quase totalidade deste Estados Unidos da ficção distorce a Bíblia para fundamentar um golpe concebido por uma mulher, Serena Joy (Yvonne Strahovski), e pelo marido dela, Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes).

Nesta sociedade extremista que flerta com a “vida real”, a mulher é despida de qualquer conhecimento ou aptidão para procriar e servir ao marido, patrão, pai, comandante. Seja esposa, aia, marta, mãe, filha, namorada, rainha, vadia, criminosa, pecadora, herege, prisioneira, “ela é a desgraça do homem”, como define Waterford e completa: “Deus, me envie uma mulher obediente”, pede neste episódio final.

A reviravolta dirigida por Mike Barker é comandada por uma palavra que também está nas escrituras, mas é praticamente invisível aos olhos dos homens (e mulheres) de Deus em Gilead. É um substantivo masculino tão poderoso que, neste 13º episódio, vale um dedo, a liberdade e também pode ser conjugado como verbo: amor. O sentimento – por vezes usado para carimbar nas mulheres o estereótipo de “seres amorosos”, é o que vai torná-las empáticas, fortes, incondicionais.

É o amor por Nicole que empurra Serena de um extremo a outro desta sociedade misógina. “Como você vai mantê-la segura?”, questiona a aia Offred (a premiada Elisabeth Moss), encontrando uma aliada improvável em Serena e impelindo-a, talvez, para a única saída deste purgatório que ajudou a criar. Offred, que antes de ser capturada por Gilead era a editora June, é obrigada a conceber e entregar a própria filha ao casal Waterford, após sucessivos estupros – dentro e fora da cerimônia que dá “validade” ao crime neste lugar.

“Abençoado seja o fruto”, como prega uma das saudações da série criada por Bruce Miller, sob consultoria de Margaret Atwood. A reviravolta não é tecida no Canadá, a “terra santa” dos norte-americanos que tentam derrubar o sistema ou fugiram dele. O ponto de mudança nasce no seio de fervorosos seguidores de Gilead, a família de Éden (Sydney Sweeney). Uma adolescente que, como muitas do cotidiano, era subestimada.

Os ecos do assassinato da menina de 15 anos por adultério dão início a “The Word”. A escolha feita por ela – obrigada a casar com um homem duas vezes mais velho e que é pai da filha de Offred, Nick (Max Minghella) – é o amor, mas a punição que recebe é o oposto dele. A cerimônia da morte de Éden (jogada em uma piscina com um peso nos pés, ao lado do amante) amolece o medo incutido em cada célula de Gilead, das martas às esposas.

Também por isso, o verbo do episódio liberado no último dia 11 é amar – conjugado como solidariedade, e mais ainda, sororidade, sentimento que June foi capaz de dispensar à algoz Serena, em diversas ocasiões. Tocadas por ele, juntas, todas conseguiram o que foi impossível nos 22 episódios já apresentados: parar de fugir. (Enquanto “Burning Down the House”, do Talking Heads, embala a apresentação dos créditos. “Hold tight wait till the party’s over/Hold tight We’re in for nasty weather”.)

A seguir 

A terceira temporada de “The Handsmaid’s Tale” foi confirmada pela protagonista Elisabeth Moss, nas redes sociais, apenas uma semana após o início deste segundo ano. A atriz, dona de um Emmy pela interpretação sempre certeira de Offred no ano passado, é produtora executiva da série, que recebeu 20 indicações ao mesmo prêmio neste ano (confira a lista completa dos indicados ao Emmy 2018 aqui). A expectativa é que a estreia seja em abril de 2019, como foi em 2017 e neste ano.

Após os 63 minutos de “The Word”, o destino de personagens cruciais está na berlinda. O que será de June, Nick, Serena, Rita (Amanda Brugel) e da menina Hannah? Em entrevista concedida ao The Hollywood Reporter, Miller disse que June estará pronta para resgatar a filha, de quem foi separada quando capturada. O showrunner antecipou ainda que Serena pode se arrepender da decisão sobre Nicole.

Uma informação importante a respeito da terceira temporada foi confirmada pelo produtor Warren Littlefield ao Entertainment Weekly: Tia Lydia (Ann Dowd) sobreviveu ao ataque de Emily (Alexis Bledel) – outra cena memorável do episódio final. O misterioso Comandante Lawrence (Bradley Whitford), o economista de Gilead, também estará nos episódios do terceiro ano. Em janeiro passado, Miller revelou ter dez temporadas planejadas, mas que não gosta de séries que “se excedem” e ainda que o roteiro não irá além do livro escrito por Margaret Atwood.

Recap 

  1. June

O retorno à Gilead, dez meses após o fim da primeira temporada, é violento, cinzento, taciturno. Nem as memórias de June saem incólume. As aias enfrentam um terror psicológico sem precedentes ao som de “This Woman’s Work”, de Kate Bush. Uma chave deixada na bota de June, durante uma consulta pré-natal ditada pela crueldade dos Waterford, dita o começo de uma fuga, orquestrada por Nick. June renega Gilead tão fortemente que está disposta a automutilação para ver-se livre dela.

  1. Unwomen

Enquanto a liberdade é mais amarga do que doce para June, foragida na sede do extinto Boston Globe, a realidade das tão temidas Colônias é descortinada. Emily vive como uma das mulheres forçadas a trabalhar na terra podre, enquanto adoece. Os flashbacks apontam para o tempo em que a ex-aia era professora universitária, lidando com a homofobia. Janine (Madeline Brewer) chega a ser um alívio para as prisioneiras. Marisa Tomei tem participação rápida, mas decisiva na revelação de quem é Emily agora.

  1. Baggage

Enquanto entra em uma rotina no Boston Globe, a editora revisita o relacionamento com a própria mãe, a médica e militante feminista Holly (Cherry Jones). Na atual linha do tempo, June deixa o jornal e parte para um novo abrigo, na tentativa de chegar ao Canadá. Encontra uma família cujo destino também é terrivelmente marcado quando, dentro de uma avião que a tiraria de Gilead, ela é recapturada. 

  1. Other Woman

Um dos capítulos mais subestimados da temporada mostra a queda de June. A pressão psicológica de voltar a Gilead, aqui representada por Tia Lydia, e o ataque constante às outras aias, minam a esperança da aia, que enfrenta um inferno de culpa pelo rastro de sangue que a tentativa de resistir lhe deixou nas mãos. Os flashbacks mostram a susceptibilidade da editora ao sentimento, que acompanha desde o relacionamento com Luke (O.T. Fagbenle).

  1. Seeds

Enquanto debate-se entre manter a própria identidade ou ser uma “boa aia”, June recebe um novo baque. O relacionamento dela com Nick é posto à prova quando Fred e Serena criam uma cerimônia de casamento coletivo como prêmio para os “Olhos”. June acaba por ter um severo sangramento e é encontrada desacordada pelo amante. Socorrida, ela faz um juramento à filha: não deixá-la crescer em Gilead.

  1. First Blood

Os flashbacks são de Serena, que lembra como era a vida de ativista religiosa. Em Gilead, o jogo de poder dela com Offred continua. Serena usa a chegada de Éden, a recém-chegada esposa de Nick, para provocá-la. A aia teme que a jovem denuncie Nick, caso o casamento dos dois não seja consumado. Um ataque suicida põe fim à inauguração do novo Centro Vermelho. O ataque é embalado por “Oh Bondage! Up Yours!”, deX-Ray Spex.

  1. After

O ataque de Offglen (Tattiawna Jones) mata 26 comandantes e 31 aias. O sepultamento delas é precedido por uma procissão, em que as sobreviventes seguem com os rostos cobertos. Fred aparece internado em um hospital. Quem assume as funções dele é o Comandante Cushing (Greg Bryk), que quer investigar o suposto “sequestro” de Offred. E acaba formando uma estranha aliança entre Serena e June. Emily e Janine são retiradas das Colônias.

  1. Women’s Work

Fred segue internado, enquanto Serena assume as funções dele, tendo June e Nick como cúmplices. O domínio dela no escritório continua até que o marido volte para casa. Na tentativa de salvar Angela, filha de Janine que vive com os Warren, Serena quebra as regras mais uma vez e paga caro. Tia Lydia libera que a aia visite a filha, que foi desenganada. O resultado mostra que Gilead pode até tentar, mas não pode controlar tudo.

  1. Smart Power

O casal Waterford vai para o Canadá. A ideia é manter relações diplomáticas com o país, que até agora não interviu no “golpe”. Serena fica cada vez mais confusa ao ver a vida das mulheres no país vizinho. Moira e Luke se juntam a grupos de protestos contra o casal. Luke chega a confrontar o estuprador da esposa, mas é detido. Nick o procura. O encontro dos dois é emocional e promove um baque forte em Gilead.

  1. The Last Ceremony

O trabalho de parto de June foi um alarme falso. Frustrada, Serena é cúmplice de um dos atos mais vis de sempre: o estupro da aia grávida, para acelerar o nascimento da bebê. A cena é mais uma prova do quão longe o casal pode chegar para realizar os próprios desejos. Não foi assim que Gilead começou a ser idealizada? Da frustração de Serena em relação à maternidade? Éden está cada vez mais próxima de Isaac (Rohan Mead).

  1. Holly

Repetindo o padrão doentio, Fred “premia” Offred após atacá-la e pede a Nick que a leve para um endereço secreto. Nick a leva, sem saber, ao encontro da filha Hannah (Jordana Blake). É um momento repleto de dor, que deixa a aia completamente desolada. Nick é capturado. June fica sozinha na casa abandonada, onde dá à luz a filha Holly, uma homenagem dela à mãe. Oprah Winfrey participa como narradora de um momento igualmente poderoso. Os créditos finais sobem ao som de “Hungry Heart”, de Bruce Springsteen.

  1. Postpartum

June é levada a uma espécie de cômodo no que pode ser o Centro Vermelho, separada de Holly. A bebê aparece com Serena, que a chama de Nicole. A aia é obrigada a retirar o próprio leite sem ver a filha, o que afeta a “produção” e faz com que Tia Lydia interceda por um encontro. Fred cede e, mais uma vez, com crueldade, mostra a menina a June, ao lado de Nick, mas não deixa tocá-la. Éden foge com Isaac e, ao ser capturada, prefere ser assassinada do que negar o amor do soldado.

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E você, o que espera para a próxima temporada de The Handmaid’s Tale? Acredita que a série vá fazer a rapa no Emmy 2018 que acontece em setembro? Não deixe também de conferir nossa crítica completa do season finale clicando aqui.

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