Uniformes novos e truques com capas não conseguem fazer de In Search Of Lost Time um bom episódio de Supergirl.
Existe sempre um momento, em qualquer série, que você se pergunta porque tal episódio existe e porque os personagens principais demoraram tanto para resolver um problema tão pequeno. In Search of Lost Time é um destes episódios. Centralizado no treino de Supergirl com Mon-El e na demência de M’yrnn, o décimo quinto capítulo da série enrola demais em pontos totalmente desnecessários e arrasta um assunto de fácil conclusão por 40 minutos. E nem mesmo os truques com capa do Mon-El ou as verdades que estavam entaladas em parte do fandom de Supergirl conseguiram salvar a proposta final.
Supergirl sempre gostou de abordar temas reais através de alegorias saídas direto das páginas de uma história em quadrinhos. Para ser mais exato este sempre foi o objetivo central da nona arte, desde sua concepção. Então, tratar de temas como preconceito, segregação e até mesmo demência não é algo completamente novo e tão pouco uma abordagem sensacional para a produção. E este é o drama que realmente funciona em In Search Of Lost Time, mesmo que tenha se alongado demais para uma solução tão simples, em uma progressão que aconteceu com velocidade incrível.
M’yrnn é um marciano bem velho, até mesmo para os padrões marcianos. Com a idade avançada sua mente começou a deteriorar. Esta é uma excelente proposta para um personagem que acabou de chegar e que impulsiona muito a participação de J’onn, que esteve bem apagado durante a segunda temporada. Contudo, não existe sutileza. Todos sabemos que Supergirl não é nada sutil quando aborda suas temáticas, especialmente aquelas que vem com uma forte crítica social/política, mas não ter levado com mais calma a trama de M’yrnn foi um erro irreparável. Ao invés de colocar o personagem no fundo, demonstrando lentamente sua progressão, além do impacto no filho, a série decidiu apresentar o problema no episódio passado e resolver neste, retirando boa parte da carga emocional do confronto entre pai e filho.
Carl Lumbly e David Harewood desenvolveram uma boa dinâmica entre pai e filho, mas que soou muito apressada neste episódio. E o problema com In Search of Lost Time é exatamente esse. A trama de M’yrnn não é levada como foco do episódio, apesar de tomar o holofote diversas vezes. No lugar de uma progressão natural o personagem simplesmente aparece no DEO e começa sua meditação, algo que causa um surto de loucura em todos os agentes do local. Tirando o diálogo entre Supergirl e Mon-El, que vou discutir depois, nenhum outro drama apontado pela energia mental de M’yrnn funcionou. Tivemos um momento engraçado com Winn e a Pam do RH, além de um agente completamente desconhecido, mas o efeito de caos ofereceu apenas o caos generalizado e não uma propensão do roteiro.
Lá nos minutos finais, porém, existe uma cena muito poderosa entre J’onn e seu pai. Enquanto o DEO está mergulhado em uma confusão generalizada, a relutância de J’onn em usar um dispositivo limitador em seu pai, além da frase clássica de Superman, ‘o pai se torna o filho, o filho se torna o pai’, impuseram a carga dramática necessária para salvar parte do episódio. É uma pena que o restante tenha sido ao redor de Supergirl e Mon-El lutando com suas capas.

E o que a série estava enrolando desde que Mon-El retornou, e não estou me referindo ao uniforme, ela fez. Mon-El é um dos piores namorados já criados em uma série de TV. Sua introdução na segunda temporada não fez um caso forte o bastante para defender sua permanência com Supergirl, a heroína que segue um modelo forte de independência e força feminina. Por um bom tempo o personagem foi controlador, machista e mentiroso. Mesmo assim a série terminou com ele indo embora, sem qualquer avanço, apenas para jogar Supergirl em uma espiral de arrependimento e preocupação. Bom, nesta terceira temporada seu retorno parecia ter surgido como uma possibilidade para que Kara lidasse com a perda e pudesse avançar em sua vida sentimental, mas o bonde Mon-El parece não estar disposto a ir embora tão cedo.
De uma maneira brutalmente honesta o roteiro reconheceu todos os problemas de Mon-El na temporada passada, criando um movimento que eu acredito ter nascido para trazer o romance entre ele e Supergirl de volta. Ao lado de uma montagem até interessante do treinamento do uso de capa, a série verbalizou tudo o que o moço fez de errado no passado, e foi catártico. Só que ele ainda está em um caminho bem arriscado. Mon-El está casado, mas ainda tem sentimentos por Supergirl – mesmo após 7 anos com outra mulher. Expor tudo o que Kara sentia é favorável, mas parece mais uma maneira de reconhecer o erro, sem qualquer desejo de repará-lo. Falar que Mon-El errou é fácil. Construir uma história em que ele demonstre seu avanço? Até o momento não vi. A interpretação de Chris Wood está mais madura, mas seu personagem ainda é um homem casado reacendendo a paixão que sente pela ex.
E como Supergirl sempre tem, pelo menos, 3 tramas paralelas acontecendo, também tivemos que lidar com outra interação que se alongou demasiadamente. Lena está tentando ajudar Sam com seu problema ‘Reign’, e a personagem já sabia que a amiga estava passando por essa transformação, inclusive que ela não tinha memória ou controle sobre o processo. Mas a montagem não ajudou muito. Com exceção da descoberta da Sam, que agora já conhece seu outro lado, nada ali precisava ter durado tanto – o mesmo vale para Supergirl e Mon-El. Pelo menos o momento serviu para descobrirmos o que acontece com ela quando a identidade da Reign vai até a superfície, algo que usualmente produções que lidam com essa temática evitam fazer.
In Search Of Lost Time poderia ter sido um episódio muito bom, com foco no relacionamento de pai e filho, mas que optou por ter J’onn revelando seus sentimentos para Alex e Kara, ao invés do próprio pai. Com uma cena bem emocional e outras que poderiam ter terminado em cinco minutos, Supergirl falha ao não conseguir entregar uma potência emocional aos moldes do destaque da Alex na temporada passada. Claro, um pequeno deslize não será responsável por manchar um ano que está bem estruturado, mas o padrão já se instalou: É quando trata de suas Destruidoras de Mundos que a série excede as expectativas.
Easter eggs e outras informações
– O uniforme do Mon-El parece o da Supergirl virado do avesso. Inclusive o brasão no peito mostra bem esse tipo de costura. Este também é um modelo saído direto das páginas das histórias em quadrinhos, no período que Mon-El acreditava ser um parente perdido do Superman.
– Supergirl, pare de ficar usando o CatCo como emprego da Kara. Vocês já mostraram que esse lado ficou com a CBS.
– O nome do amigo imaginário do J’onn era Zook. E Zook existe. Ele foi uma espécie de ajudante do Marciano durante a Era de Prata dos quadrinhos.















