The Book of Nora encerra The Leftovers de um jeito inesperadamente puro e otimista; fazendo dessa uma série pra se marcar no coração e na história.
Sete anos atrás, no dia 14 de outubro, Nora Durst estava preparando mais um café da manhã para o marido e os dois filhos. Ela era uma mulher apaixonada, mas sua formação cética com relação aos mistérios do mundo, ajudou a formar uma personalidade com romantismos moderados e ela não se dava por satisfeita em ser só uma mãe; ela queria uma carreira, uma vida independente dos lugares destinados às mulheres que decidiam constituir família. Naquela manhã, ela se sentia particularmente irritada com esse papel porque parecia que seu marido e seus filhos não entendiam que aquilo era realmente muito importante para ela. Em segredo, ela desejou que toda a bagunça e a gritaria passassem por pelo menos alguns segundos. Ela desejou que eles calassem a boca, que sumissem e a deixassem em paz por um tempinho… Antes mesmo que esse pensamento fosse filtrado pelas correntes nervosas do amor e se diluísse como acontece com todos nós, a Grande Partida aconteceu e eles tinham sumido.
Os dias seguintes seguiram em torpor absoluto. Se a sensação já era horrível, tornou-se pior quando ela percebeu que todos em sua cidade já a conheciam como a única pessoa que perdeu todos os membros da família. Nora tinha realmente “sobrado”, era como se a família tivesse sido convidada para uma grande festa e feito questão de esquecê-la; era como se Deus estivesse rindo histericamente num canto, fazendo com que aquela mulher, que buscava ardentemente não ser resumida a um título familiar, perdesse toda a família, tornando essa mesma família, o centro motor de sua vida por todo o resto do caminho. Nora Durst queria existir por si mesma, mas depois do 14 de outubro, tudo que ela gostaria era de voltar a ser “reduzida” ao terço essencial do seio de um lar.
A Grande Partida não foi fácil para Nora Durst, mas o pior foi ir descobrindo com o tempo que estava fadada a ver as coisas e as pessoas indo embora. Ela conheceu um homem, Kevin Garvey, que não tinha perdido ninguém no dia da Partida, mas que perdera todo mundo depois dela. Ela reencontrou seu papel de mãe quando um bebê foi colocado em seu caminho. Porém, uma a uma, essas coisas foram lhe sendo tiradas e o 14 de outubro começou a parecer um prenúncio debochado do resto de seu futuro: Nora nunca recupera nada que perde, as pessoas que lhe escapam nunca retornam… E então, ela descobre os pombos, que todos os dias vão, mas voltam.
Dreams to Remember
O Series Finale de The Leftovers é pequeno, minimalista, olha para dentro, abre mão de qualquer grandiloquência já antecipada pela obrigação de se encerrar um show. Essa é uma finale que reafirma o que Damon Lindelof vem nos dizendo desde o começo: essa não é uma série sobre o mistério do mundo, mas sobre como o ser humano se relaciona com aquilo que não pode controlar. O medo da morte sempre nos perseguiu desde que atingimos consciência, mas a morte efetiva oferece uma finitude confortável justamente por ser ponderável e irreversível. A Partida é uma espécie de morte, mas ela é translúcida, interpretativa, não oferece corpo, despedida, lápides. E ninguém nunca poderia dizer que estamos livres de que aconteça de novo. Assim, Kevin e Nora seguem dessa forma: incapazes de lidar com os temores e pressões de se verem abandonados novamente pela força desse destino aleatório; e por isso, não conseguem se amar.
![The Leftovers 3x08: The Book of Nora [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2017/06/The-Leftovers-img3.jpg)
O medo de perder pode ceder e a vontade de estar junto pode superá-lo? O marido de Nora foi embora… A mulher de Kevin foi embora… Os filhos de Nora foram embora… Os filhos de Kevin foram embora… Em algum ponto de um futuro incalculado, eles precisavam viver aquilo que acharam que nunca poderiam viver. Kevin foi resgatar quem amava (como não tinha conseguido fazer com Laurie) e Nora viu a vida lhe oferecer aquilo que achou que jamais aconteceria: alguém que “partiu” de sua vida, voltar.
The Book Of Nora foi escrito por Lindelof para ser o series finale que lhe redimiria diante daqueles que achavam que ele precisava de redenção (por causa do que aconteceu no final de Lost). Eu não sou uma dessas pessoas. Pra mim Lindelof não precisava se redimir de nada, porque os mesmos elementos emocionais e humanos presentes em The Leftovers estavam lá na finale de Lost, eclipsados pela voraz necessidade de respostas (que estavam lá e muita gente não viu). Para que esse sentimento de insatisfação não se repetisse, o espectador de The Leftovers foi treinado para não esperar respostas e sim para apreciar o que realmente importava: o estupendo estudo de personagem proposto pela obra.
The Man I Love
Quando uma boa dramaturgia é montada, quando ela consegue construir “pessoas de mentira” de modo forte o suficiente para que soframos junto com elas, uma simples troca de olhares pode ser aguda. E sem que a gente nem percebesse, a série foi tornando as expectativas sobre Kevin e Nora muito maiores do que podíamos esperar. Exatamente por causa disso, que foi impossível conter a emoção diante do reencontro entre eles, dos olhares entre eles, ou simplesmente diante da triste e adorável tentativa de Kevin de “deixar de existir” como ela o conhecera, na apaixonada esperança de que, dessa forma, houvesse uma nova chance. Aquele Kevin do futuro… Tão ciente de que tinha “ferrado tudo com ela”, que agora tinha uma cicatriz de um marca-passo no peito, de algo colocado de volta dentro dele. Sim, colocado de volta. E uma vez de posse desse novo coração, ele poderia persegui-la para admitir diante dela que ela era o grande amor de sua vida.
Mimi Leder dirigiu um episódio quase impossível de modo impecável. Somente alguém com muita compreensão do que representavam aquelas jornadas seria capaz de traduzi-las eficientemente para uma audiência ansiosa. O roteiro, ainda bem, não poupou esforços em estabelecer as condições para que a experiência fosse completa. Desde as emoções latentes nas sequências do casamento, até a forma incrível com a qual as limitações de Nora vão sendo superadas pouco a pouco (ela consegue salvar o bode, ela consegue derrubar a porta, ela consegue o amor de volta, ela consegue os pombos de volta…), tudo vai acontecendo como sempre foi nessa série: somos dominados por uma paixão incondicional pela narrativa sem obviedades, e estamos ali do lado do personagem, acompanhando sua vida, cheios de inexplicáveis sensações.
Quando Kevin retorna para assumir a verdade para Nora, aquele já é um homem desesperado para conseguir contar uma história diferente. Nora não vai resistir tanto, ela manteve contato com Laurie porque no fundo, queria ser encontrada. Mas, ela é uma mulher cética e quando voltou de sua experiência do outro lado, recusou-se a lidar com as implicações disso. Além, é claro, do pavor de se reaproximar de Kevin só para descobrir que depois de tanto tempo, ele fizera o mesmo que seu marido e reconstruiu a própria vida. É extremamente belo e comovente ver como essa finale rejeita o pessimismo de outrora e mostra os dois personagens fazendo aquilo que nunca fazem: parar de fugir.
Let The Mystery Be
Sendo completamente honesto, nunca achei que Damon fosse oferecer qualquer espécie de resposta sobre o que aconteceu no dia da partida. Se ele assim o fizesse, estaria completamente dentro da proposta. Porém, estamos falando de um homem que tem uma paixão lancinante pela arte de contar histórias e ele não conseguiria não pensar em como seria tentar elucubrar sobre o “outro lado”. Por isso, foi com surpresa e ainda mais respeito por ele, que me deparei com aquele monólogo sensacional de Nora sobre o que lhe aconteceu após o fim dos procedimentos no tal dispositivo.
E parte desse respeito está no fato de que aquela é uma história sendo contada por uma pessoa na qual confiamos, mas que cai no campo da dúvida por uma razão simples: através de Kevin, sabemos que existem campos da consciência que podem ser alcançados por experiências limítrofes. Se isso aconteceu tantas vezes com ele, o que impede Nora de ter alcançado seu próprio plano existencial construído a partir do que realmente a domina por dentro?
Em uma entrevista Damon disse que ele e os outros roteiristas sempre sentiram qual das realidades seria a verdadeira, mas que nunca houve nenhuma intenção de esclarecer se seria a de Kevin ou a de Nora. Isso, de fato, pouco importa, já que tudo que acontece com os personagens na série é um passo a mais numa jornada de autoconhecimento que só é apoiada na aleatoriedade do destino. A ideia de que na verdade os dois lados sofreram partidas (98% de um lado e 2% do outro) é GENIAL. Tão genial que dá vontade de acompanhar um spin-off só com as mazelas do outro lado, que foi muito mais dizimado.
Percebam o quão incrível é a ideia de que no mundo de Nora, ela seja a mais azarada porque perdeu todos. Mas, no outro lado, seu marido e seus filhos são os “sortudos”, porque num mundo onde 98% das pessoas sumiram, eles só perderam uma. De fato, ser verdade ou não só reforça a beleza desse enredo. Por ter vivido algo parecido, Kevin é quem mais pode compreendê-la. No fim das contas, a canção de abertura cantada por Iris Dement (e que voltou para a finale) diz mais sobre esse fim que qualquer legenda. Diante de tantas fés quebradas, eles, enfim, ainda podem acreditar numa única coisa:
“Eu acredito no amor e vivo minha vida de acordo com isso. Mas, eu escolho deixar o mistério ser o mistério”.
Nos últimos minutos, aquele sorriso em lágrimas trocado entre Kevin e Nora já reverberou em emoção pelo seu corpo, justamente porque de todas as surpresas que poderíamos ter, essa é a maior delas: eles vão ficar juntos. É tão triste e tão lindo. Carrie Coon e Justin Theroux representam os pilares de um elenco irrepreensível e se despedem dos personagens – e de nós – com essas verdades poéticas tão raras na ficção: a gente sorri porque eles sorriem, choramos porque eles choram e sentimos uma dor agridoce de quem vai se despedir de quem ama, apenas para visitar memórias logo adiante.
The Leftovers fez sua história sendo histórica. Nenhum drama contemporâneo foi original, inteligente e poderosa como ela. Nenhum drama atual teve um texto tão rico, uma trilha tão bem selecionada, direções tão dedicadas e referências e analogias tão provocativas e enriquecedoras. The Leftovers me fez sentir privilegiado, desafiado, respeitado, honrado e festejado. Damon tem dessas coisas quando escreve… É como se ele dissesse assim: Isso aqui eu escrevo pra você, que eu sei ser o melhor interlocutor que eu poderia ter. The Leftovers é uma obra de arte pura, inteira, especial e comovente. Ela é um exercício de humanidade, ela é um poema escrito à força, é uma teoria social exibicionista e fez com que o último domingo, dia 04 de Junho de 2017, fosse tomado de significados e ficasse conhecido como o Dia da Grande Partida.
![The Leftovers 3x08: The Book of Nora [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2017/06/The-Leftovers-img2.jpg)
As Sobras 2: Ainda que somente através das palavras de Kevin, todos os outros personagens foram ajustados. Damon também disse na entrevista que não ia fazer isso, mas resolveu que não ia querer passar os próximos 10 anos tendo que responder “o que raios aconteceu com John Murphy”.
As Sobras 3: Não há pontas soltas e eu estou à disposição para receber o encosto de Lindelof e responder qualquer dúvida sobre isso. Por sinal, escrevi especiais sobre Lost aqui no site que também respondem TODAS as questões que estariam supostamente em aberto.
As Sobras 4: Até mesmo no último episódio tivemos um norteamento do porquê aquele bode foi sacrificado no meio do restaurante, lá no início da segunda temporada.
A Última Sobra: Senta aí que tenho um agradecimento grande pra fazer: Eu escrevo aqui e no Omelete há mais de 6 anos e tenho só aqui no SM, quase 1000 textos publicados. Escrever é minha grande paixão e para quem tem essa vocação, ser lido é o maior privilégio do mundo. Eu sou sortudo, eu posso ser lido. E até hoje, eu nunca tive uma resposta tão amorosa das pessoas com relação a textos meus quanto tive de quem acompanhou as reviews de The Leftovers. Então, eu quero agradecer DO FUNDO DA ALMA a todos que comentaram, a todos que me mandaram tweets elogiosos, que foram cobrar os textos, que foram agradecer ou simplesmente me deixarem um abraço com carinho. Quero agradecer aos que, durante esses anos, até mesmo me pararam na rua para comentar as críticas, aos que me citaram em posts do facebook, fóruns e que volta e meia mandam uma mensagem inbox só pra dizer como aquela ou outra frase tocaram seus corações. Isso me emociona muito, porque valida meu trabalho, me faz querer continuar e acaricia minha vaidade sim, claro, o que só me faz ser mais grato ainda. Vocês são a razão pela qual esse espaço existe e saber que uma crítica pode tocá-los torna a vida cheia de cores e sabores inesquecíveis. E vocês fizeram isso por mim. OBRIGADO gente, obrigado.
E lembrem-se: por mais aleatória que seja a roleta das nossas dores, a chuva sempre passa, o medo sempre se aquieta e os pombos voltam, pessoal. Os pombos sempre voltam…
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Foi um despertar, até breve.















