Se você, caro leitor, está a procura de uma review de uma série sobre acontecimentos felizes, em que os mocinhos consigam prevalecer sobre todo mau e perfídia, você está lendo a review errada. A série que trata a sofrida e terrível vida dos órfãos Baudelaire é apinhada – termo que aqui significa “mais do que qualquer um poderia suportar” – de histórias trágicas, tristes e deprimentes. Nós, do Serie Maníacos, fizemos um juramento solene em discutir os aspectos desta série de televisão terrível, mas você, caro leitor, não possui tal obrigação. Nada lhes impede de apertar a tecla “voltar” de seu navegador e ler algo mais aprazível. “Aprazível” é um termo que aqui quer dizer “ler sobre qualquer outra coisa que não seja sobre estas terríveis desventuras”.
Inicia-se um novo arco, e com ele, a inserção de um novo personagem e o andamento da trama que envolve o incêndio da mansão Baudelaire, um novo plano maléfico de Conde Olaf e, claro, novas desgraças na vida dos azarados irmãos. O episódio acerta na forma como retrata o Tio Monty, o novo tutor de Violet, Klaus e Sunny. Se por um lado é fácil entender os motivos da desconfiança oriundas – termo que aqui significa “originada” – dos três irmãos, mas principalmente, de Klaus, que é compreensível depois de todo inferno vivido na casa de Olaf e sua horrenda trupe, por outro, não demora muito para Monty conseguir ganhar a confiança dos jovens. Esse comportamento de desconfiança não é abordada no livro, ao menos com profundidade, mas é condizente com o que se espera de três jovens engenhosos- ainda que particularmente azarados.
Os recursos visuais é um dos principais pontos positivos da série. Se narrativamente ainda falta alguma coisa, os aspectos técnicos estão bem avançados. Se lembrarmos de toda a fotografia escura e acinzentada usada para retratar o “lar” que Conde Olaf providenciou às crianças, a paleta de cores usadas na casa de Tio Monty serve como um ótimo contraponto visual. Nos livros, um dos principais contrapontos para mostrar a diferença entre Monty e Olaf se dá na descrição física do personagem: Enquanto o pérfido vilão é descrito como alguém muito alto e muito magro, Monty é o oposto: Baixo e rechonchudo. Claro que a diferença entre os personagens não fica apenas na aparência, mas já é um primeiro indício de que as coisas poderiam ser diferentes. Além disso, a série faz questão de mostrar o olho tatuado no tornozelo de Olaf a torto e à direito, transformando cada take em uma referência visual. O olho terá muita importância conforme a trama da sociedade secreta avança, mas isso será assunto para futuras reviews, que, tenho certeza, você não estará aqui para ler, pois dedicará seu precioso tempo para acompanhar séries muito menos infortunas – termo que aqui significa “cujos protagonistas não sejam três órfãos herdeiros de uma imensa fortuna, mas que são caçados infinitamente por um vilão gosmento e seus lacaios horrorosos”.
O arco apresentado em The Reptile Room serve principalmente para acelerar a trama da sociedade secreta, um pouco de seu modus operandi (modus operandi é um jargão em uma língua dita somente por gente morta ou chique para uma forma de se fazer as coisas) e que os tutores dos Baudelaire definitivamente não são escolhidos ao acaso. Confesso que ainda estou dividido sobre a trama da sociedade secreta já estar sendo explorada e a pleno vapor. Sem querer ser o chatão que fica toda hora comparando a adaptação ao livro, mas esta trama só começa a ser explorada no quinto volume, até então ninguém sabia que existia uma organização secreta. Se eles mantivessem a cronologia dos acontecimentos, poderia ser um ótimo gancho para a próxima temporada.
As atuações estão convincentes, cada um no seu papel. Malina Weissman está bem como Violet, e Louis Hynes surpreende com um Klaus mais enérgico e ativo que no material original. Aasif Mandvi também entregou um bom tio Monty, excêntrico e brincalhão, como nos livros. Neil Patrick Harris está ótimo, caricato como o personagem pede, mas sem perder a mão. Sua caracterização está muito convincente, e quando ele interpreta personagens são um show à parte (adorei o Stephano). Destaco ainda que apesar disso tudo, o personagem soa como alguém vil e que deve verdadeiramente ser temido, como o personagem original. Harris disse em entrevistas que tentou se manter fiel ao material original, e por ora, está fazendo um bom trabalho. Sei que muitos leitores talvez tenham apenas como referência o Conde Olaf interpretado por Jim Carrey no filme de 2004. Devo apenas dizer que aquele personagem não representa a total personalidade do original, pois o filme tinha um apelo infantil muito forte. Claro que os livros também possuem, mas como Snicket (também conhecido como Daniel Handler) bem sabia, seus leitores iam crescendo junto com os personagens, de modo que a história e os personagens vão ficando cada vez menos infantis, algo que se assemelha com a saga Harry Potter, por exemplo. Esta é a principal vantagem da série em relação ao filme, as tramas e os personagens vão poder amadurecer conforme for passando as temporadas.

Mas mesmo esta sendo uma das minhas sagas favoritas e eu estar esperando, literalmente (e não figurativamente), há anos por uma adaptação decente, a produção na Netflix não está isenta de erros. Embora seja um recurso literário usado de forma bem inteligente por Handler, as interrupções de Snicket nos episódios muitas vezez quebram o ritmo do episódio, e algumas vezes com coisas sem importância. Neste The Reptile Room, por exemplo, há uma cena que é cortada pelo narrador apenas para explicar o significado de uma palavra ou termo, o que já foi feito também no arco anterior. Se na literatura este recurso não quebra o ritmo narrativo, o mesmo não se pode dizer da sua transposição para a tela. A ideia é muito boa, mesmo. Mas às vezes eles pecam na execução. Além disso, até o momento a atuação de Patrick Warburton soa um tanto monótono e sem expressão. Se não fosse a forma como ele consegue manipular o acontecimento ou mesmo elementos de cena, seria dispensável. Até aqui o ator não conseguiu passar as duas principais características do nosso narrador: A melancolia e a ironia. Além disso, tem dois pontos chaves da mitologia que me incomodam no momento: A revelação prematura de que há uma sociedade secreta e os personagens de Will Arnet e Cobie Smulders. O primeiro, por me soar demasiado prematuro. Claro que quem ainda não leu os livros não sabem de que organização estamos falando, nem qual sua importância dentro da história, nem quem faz parte dela, ou seu propósito, etc… Resumindo: ainda há muito o que se descobrir. O segundo, por possivelmente mexer diretamente na mitologia da história. Ainda não sabemos se os personagens de Will e Cobie (descritos apenas como Pai e Mãe) são de fato os pais Baudelaire que escaparam do incêndio, e até que isto seja comprovado, continuarei pensando nas crianças como órfãos. Pode ser apenas uma forma da série tentar enganar o espectador, quanto realmente podem ser eles, o jeito é esperar para ver.
Além disso, eu tinha uma preocupação de que a série fosse repetir o mesmo “erro” cometido pelo filme de 2004: A de trazer o protagonismo do show para o Conde Olaf. Todo o material promocional foi feito em cima de Neil Patrick Harris e seu personagem (nada mais compreensível, uma vez que é o ator de mais renome no elenco e o que deve trazer mais espectadores devido a isso, além de, claro, ele ser o produtor do programa). Entretanto, vemos um bom equilíbrio de tela entre ele e as crianças, que afinal, são as protagonistas da história e não devem jamais perder este posto para aquele que é o vilão da história.
Outro ponto importante que a série aborda com eficiência é a ineficiência dos adultos. Isso ficou muito claro em Bad Beginning e também em The Reptile Room. O personagem Sr. Poe é um dos mais odiados pelos fãs não por fazer mal às crianças, mas por permitir sempre, ainda que involuntariamente, que o mau chegue até elas. Ao longo da longa e trágica trajetória dos irmãos, ainda hão de cruzar seu caminho muitos Srs. Poes e Juízas Strauss, adultos bem intencionados, mas que na prática não ajudam em nada. Os personagens, que soam como caricaturas, e é o que eles são, funcionam como uma das principais ferramentas para uma das principais críticas inseridas na obra: O abismo que existe entre os adultos e crianças. Não importa o quanto elas estejam certas, dificilmente um adulto dará ouvidos e as devidas atenções a seus filhos, netos, sobrinhos, alunos, tutelados ou o que sejam. Esse é o principal vínculo de ligação com os leitores – e agora espectadores – da obra. Mesmo Tio Monty, que foi o que mais se aproximou de ouvir as crianças, foi enganado por Olaf, e chegou à conclusão errada de sua verdadeira identidade, e isso devido à sua própria visão de mundo, e não por algo que as crianças de fato sabiam.
A série ainda tropeça neste começo de temporada, mas ela tem sim potencial para se aproximar da obra original e transpô-la de forma eficiente para esta nova mídia. Tudo o que faz parte da identidade da obra está presente e percebemos que os envolvidos se entregaram mesmo ao projeto, de modo que os fãs da obra original (e porque não, do filme) tem muito o que agradecer à Netflix por nos trazer de volta este universo sombrio e humano – isso, claro, se você for um masoquista que gosta de acompanhar uma história repleta de tragédia, infelicidade e miséria. Caso o contrário, é melhor você não ver. Não diga que não avisamos. Não diga que Lemony Snicket não avisou. Não diga que a abertura da série não te avisou.
> 10 Novas Séries de 2017, Parte 2!
Em tempo 1: Adoro a abertura da série e a forma como ela muda de acordo com o livro em que está sendo contada a história.
Em tempo 2: Sim, dedicatórias para Beatrice é tudo e que pedi para esta adaptção.
Em tempo 3: Estava curioso para saber como eles traduziriam o bebenês da Sunny. Acabaram usando o mesmo recurso do filme.
Em tempo 4: Adorei a cena do “SSSSS”. Bobo, mas divertido.
Em tempo 5: Tanto no livro quanto no episódio, Tio Monty queria levar as crianças para o Peru. Porém os motivos são completamente diferentes.
Em tempo 6: Gustav também era o assistente de Tio Monty, também assassinado por Olaf. A diferença é que nos livros não há evidência de que ele pertencia à organização secreta.














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