
Meus parabéns! Você tomou a iniciativa de se inscrever para a oitava edição do programa O Aprendiz. A má notícia é que, segundo informa a Record, mais de 150 mil pessoas fizeram a mesma coisa. Para se destacar em meio aos demais candidatos e conquistar o prêmio de R$ 1.5 milhão, você precisa de uns bons conselhos. Seu pai e sua mãe lhe ensinam algumas lições, seus amigos dão algumas dicas… Mas você sente que eles não conhecem o programa. Que não têm referenciais de outras edições espalhadas pelo mundo. Que não sabem das soluções encontradas pelos times vencedores nas mais variadas tarefas. Quem poderá ajudar você?
Muito prazer. Meu nome é Lucas Carvalho, a enciclopédia humana de O Aprendiz.
Consegue ver as carinhas estampadas nas partes superior e inferior da imagem acima? Esses são os chefões de todos os Aprendizes em todo o mundo. Alguns deles, como a Martha Stewart e o Roberto Justus, não apresentam mais o programa. Outros, como o Donald Trump e o Lord Sugar, se mantêm no comando desde a estréia da primeira temporada. Todas as versões do reality show são produzidas em países de língua inglesa, com exceção de duas: o El Aprendiz com o Luís Bassat e o Aprendiz brasileiro.
O Aprendiz brasileiro não é o mais antigo: esse posto é ocupado pelo The Apprentice americano, que hoje é um show de celebridades (com generosas doações para instituições de caridade). Nossos prêmios, entretanto, são os maiores em todo o mundo. Tanto como recompensa das tarefas quanto como ao final da temporada, nenhum outro Aprendiz supera o nosso. Gostaria de poder dizer isso da qualidade do programa.
Mas não posso.
Se você acompanhou a minha cobertura da temporada passada aqui no Série Maníacos, sabe que minhas críticas foram mordazes. Nenhum candidato tinha aquela centelha de genialidade, a edição do programa parecia feita por crianças com déficit de atenção e o próprio apresentador alternava entre “figura paterna” e “show business na Band”. A vencedora, Samara Schuch, começou o programa dizendo “aqui não é lugar para aparecer”. Claro. É por isso que estão cogitando passar o Aprendiz para o rádio…
Sinto que preciso ajudar você. Isso, você mesmo. Preciso dar a você alguns conselhos que, se seguidos à risca, poderão dar a você o prêmio final. Tome nota de cada um deles, vá para São Paulo com esses quinze mantras na cabeça e vença.
1. Não se voluntarie para assumir a liderança da equipe na primeira tarefa.
Estou falando sério. Não pense que isso mostra coragem ou vontade de vencer. Mostra mais é temeridade e precipitação. Lembre-se que os demais candidatos são ilustres desconhecidos. Liderar quem você não conhece é dar um salto em plena escuridão. Se você perder, terá 33% de chance de ser mandado pra casa. Se ganhar, sua conquista não durará muito na cabeça do apresentador e dos conselheiros. Portanto, NÃO faça isso. Use as duas primeiras tarefas para avaliar seus concorrentes e a qualidade dos trabalhos. Na terceira ou na quarta tarefa, você pode assumir a liderança. Isso, é claro, se o João Dória Jr. não escolher você – aí não tem saída mesmo.
2. Não barganhe com profissionais de criação.
As pessoas costumam menosprezar esse conselho. Vão para as agências, mostram mil e uma idéias para os designers e depois querem barganhar. Só que barganhar com profissional de criação é o mesmo que pedir a ele para fazer um trabalho meia-boca. Como eu disse noutra oportunidade, “você não está comprando uma saca de cimento, não está reservando um quarto de hotel. O trabalho desenvolvido pelo ilustrador é reflexo preciso do quão recompensado ele se sente pelo esforço. Você pode até economizar com a pechincha, mas quem vai criticar o projeto final? É criação intelectual dele! […] É preciso que a negociação do preço encontre fronteira na valorização do serviço contratado”. Isso não quer dizer, todavia, que você tenha que pagar os olhos da cara. Se a produção não se encarregar dos custos do projeto, o ideal é que você tenha uma noção dos preços praticados no mercado. Comece pesquisando desde já, mas pode pesquisar nos primeiros momentos da tarefa também.
3. Edite bem os seus projetos.
Pensou numa apresentação cheia de firulas? Simplifique. Pense no foco da sua apresentação e nas coisas que esclarecerão esse foco para os espectadores. Se criar um estande de vendas, não transforme o lugar num carnaval fora de época: é para ficar bonito e completo, mas não visualmente poluído. Falando em poluição visual, deixe tudo limpo e arrumado, SEMPRE. Um papel amassado, uns panfletos no chão, uma televisão empoeirada… Tudo isso é aumentado e exibido na sala de reuniões. Portanto, desperte a dona de casa que há em você… Rapaz.
4. Nas vendas, prefira o valor à quantidade.
Se você puder escolher o que vai vender, escolha itens de valor MÉDIO ou ALTO. Não escolha produtos que vendam por pouco: para vencer a equipe adversária, talvez você tenha que vender horrores. E como as tarefas não duram muito tempo, sua estratégia está fadada ao fracasso – terá que encontrar um sem-número de consumidores em tempo recorde, todos interessados em comprar exatamente o seu produto. Historicamente, essa estratégia acaba redundando numa ida sem volta para a sala de reuniões. Cuidado.
5. Seja eloqüente, mas não verborrágico. Seja criativo, mas com os pés no chão.
Eloqüência é uma qualidade pouco vista em programas como O Aprendiz. Eloqüente não é apenas a pessoa que sabe discursar bem, mas também a pessoa que consegue se expressar com desenvoltura perante um público de cinco, dez, cem ou mil pessoas. Não se intimide com os números, nem pense que as pessoas estarão rindo de você ou criticando a sua performance. Nas tarefas que envolverem apresentação, concentre-se em conquistar os seus ouvintes. Enterneça a sua platéia com palavras precisas e diretas. Por sinal, conquanto seja importante se expressar bem, quem muito fala pode cometer o pecado da verborragia. Falar muito irrita as pessoas, cansa a produção e diminui o seu valor como profissional. Policie-se.
Para além da eloqüência, a criatividade será sua salvaguarda garantida. Idéias eficientes e inovadoras dão um banho de ouro na sua reputação. Mas tome cuidado: criatividade requer foco e concretude. Ao avaliar as idéias de seus colegas, pense na viabilidade do que estão propondo. Quando essas idéias partirem de você, tente transmitir o seu raciocínio com a perspectiva de aplicação na tarefa. Essa postura é aplaudida por conselheiros no mundo inteiro, e os eventuais substitutos da Cristiana Arcangeli e do David Barioni não farão diferente.
6. Leia o dossiê e ouça o briefing com toda a atenção do mundo.
Essa falha é comum na edição brasileira. Termina a tarefa, sua equipe está convencida da vitória… Mas na hora dos resultados, um erro de percurso é revelado pelo João Dória Jr. e seus adversários comemoram. Para driblar esse infortúnio, você precisa prestar atenção na leitura do dossiê e no briefing dado no início da tarefa. Concentre seus esforços em trabalhar de acordo com as regras, e não em procurar brechas para se dar bem. Na maioria das vezes, o feitiço vira contra o feiticeiro e você é eliminado. Então é melhor esquecer o jeitinho brasileiro.
7. Se prepare para o Quiz.
O Quiz é uma característica do Aprendiz brasileiro e de nenhum outro (imagina só o Lord Sugar fazendo um Quiz com os candidatos no The Apprentice UK). É geralmente o momento mais constrangedor da temporada, já que a maioria dos candidatos patina em questões como “Que cidade turca era conhecida no passado como Constantinopla?” ou “Quem é a atual Secretária de Estado dos Estados Unidos da América?”. Por isso, recomendo a você: decore essas informações de conhecimento geral. Leia jornais nacionais e internacionais, cultive o hábito de ver vídeos do Show do Milhão e do Passa ou Repassa, se familiarize com o perfil de grandes empresários brasileiros e estrangeiros e, acima de tudo, treine a sua capacidade de responder a essas perguntas sob pressão.
8. Treine o inglês e o espanhol.
Pessoas já foram eliminadas do programa por falarem mal o inglês. Se você quer realmente fazer bonito nessa oitava edição, precisa afiar sua expressão e compreensão do idioma. A realização de tarefas em alguns países da América Latina, por outro lado, requer um certo domínio do espanhol. O melhor é que você seja fluente nos dois idiomas, mas como pedir isso às portas do início das gravações é meio cruel, sugiro que você visite o LiveMocha. Lá, você terá a oportunidade de revisar (ou aprender) as expressões mais básicas de ambas as línguas.
9. Assuma riscos calculados.
Terceira tarefa e você assume a liderança da equipe. Os candidatos precisarão criar uma campanha publicitária para uma nova sandália das Havaianas. Pense nos seus consumidores: quem são? Pense também no histórico de comerciais televisivos das Havaianas: quais os valores passados ao telespectador? Ouça as idéias da sua equipe e, antes de escolher a mais arriscada, pense em como você a defenderá numa eventual derrota na sala de reuniões. Pense também em como essa idéia amplia (ao invés de restringir) o mercado das Havaianas. Em resumo, você precisa medir cuidadosamente os riscos que pretende tomar com esse comercial – riscos sem controle geram resultados inesperados.
O que eu digo, portanto, é que assumir riscos faz parte. Algumas vezes, suas decisões mais arriscadas serão, na verdade, bem comuns no mercado: a sua inexperiência naquele setor as torna arriscadas para você. De qualquer forma, assuma riscos calculados. Procure questionar a sua decisão naquele papel de “Advogado do Diabo”, e se a explicação para o que você fez ficar muito complexa, é porque a decisão foi errada. Isso segue a mesma lógica das minhas antigas provas de Olimpíada de Matemática: os cálculos mais elaborados geralmente não chegavam à resposta correta. Tome decisões e seja objetivo, mas quando a questão for arriscada, procure aquilatar o tamanho do risco a que você e sua equipe estão se submetendo. E depois vá em frente.
10. Saiba se defender.
Certo, você perdeu a tarefa. Não é hora de desespero: acontece com os melhores candidatos do Aprendiz no mundo inteiro (se bem que há uma moça na atual temporada do Aprendiz britânico que está a uma tarefa de completar um feito incrível: ter vencido todas as tarefas do programa). Monte uma estratégia de defesa: em primeiro lugar, identifique o porquê de vocês terem perdido. Em segundo lugar, escreva num caderninho os pontos positivos e negativos da tarefa. Depois dessa etapa, você deve atribuir os pontos positivos a você e os pontos negativos aos seus colegas. Agora pare o que estiver fazendo e olhe para o seu caderno: essas atribuições correspondem à realidade? Parecem críveis? É possível defendê-las até certo ponto? Se a resposta for positiva, vá em frente. O quarto passo é ensaiar na sua cabeça (não em voz alta, já que os seus colegas vão perceber que você está se preparando) a defesa na sala de reuniões. Pense nas perguntas que poderão ser feitas. Pense também nas eventuais réplicas de colegas a quem você atribuiu o desempenho ruim da equipe. E organize suas respostas.
Por sinal, existem palavras que você deve evitar na sala de reuniões. Quando falar dos pontos positivos atribuídos a você, diga “a equipe”, “nós” e não “eu”. Use os “eus” dos seus colegas para criticar a postura deles, dizendo que pensam somente em si e não no trabalho de todos. Nunca responda a pergunta “Qual era a sua tarefa no dia?” com uma coisa diminuta como “cortar papéis”, “embrulhar os produtos”, “limpar a mesa do estande” e et cetera. Diga que sua tarefa era a missão principal da equipe, qualquer que seja. Sua tarefa era providenciar o melhor serviço naquilo que foi pedido de todos; se você explicar com essas palavras, vai se destacar positivamente no debate. Nas críticas aos seus colegas, evite acusações de cunho pessoal – isso é mais sério do que parece. Às vezes, suas palavras até são profissionais, mas o seu semblante é de quem tem uma nítida ojeriza ao concorrente, e isso é péssimo para você. E por fim, use o conselho da não-verborragia. Quem muito fala, corre risco de se enforcar. Cuidado.
11. Diga não à Síndrome de Hermeto Pascoal.
Uma coisa que TODOS os vencedores do Aprendiz dentro e fora do Brasil têm em comum é a capacidade de delegar atribuições aos diferentes membros da equipe. Se você assumir a liderança, não queira estar em todos os lugares ao mesmo tempo: identifique as características de maior destaque nos seus colegas e invista neles! Dê-lhes a oportunidade de brilhar.
12. Seja proativo.
Pior que o líder no estilo “Hermeto Pascoal” é a pessoa que precisa de alguém que lhe segure pela mão. Tinha um filme da Disney Blue Sky Studios chamado Robôs, e nele o personagem do Mel Brooks se tornou conhecido por uma frase de efeito. Lembra qual era? “See a need, fill a need!”. Se você vir algo a ser feito, confira com o seu líder e vá em frente. Não fique sentado vendo o navio naufragar: tome uma atitude e salve a sua equipe!
13. Nunca diga que é bom em coisa alguma.
Nunca, jamais, em tempo algum. Nunca mesmo. Uma câmera vai registrar o momento em que você diz que é bom nisso ou naquilo, em seguida aparece uma tarefa que exige essa expertise e você patina. O problema de se colocar nessa posição é que, ainda que você tenha sucesso, as pessoas ainda o verão como egocêntrico, arrogante e convencido. Prefira uma abordagem diferente. Ao ver uma área em que você normalmente costuma se destacar, pergunte ao seu líder: “Posso ajudar com isso?”. Escolha sempre a humildade. Seja mais ou menos como aquele cara irritante que é convidado para uma partida de sinuca, diz que não lembra bem como se joga… E depois derrota todos os colegas de dez a zero.
14. Seja um bom vendedor: venda sem dar lição de moral e sem assediar os seus clientes.
No fundo, todas as tarefas são de vendas. Ora você vende um serviço, ora vende um produto, ora vende uma idéia… Ou talvez venda a si mesmo. Em todo caso, o importante é não confundir venda com lição de moral: não trate transeuntes ou ouvintes como crianças ou leigos. E nunca dê a eles a impressão de que seriam idiotas se não comprassem, de que é um absurdo que não comprem, e por aí vai.
Outro conselho: não assedie os seus clientes. Em tarefas de vendas, é comum que os candidatos mais sedentos agarrem as pessoas pelo braço, gritem nos ouvidos de senhoras, conversem com os filhos de estranhos… Isso não se faz. Mostra um certo desespero e, mais ainda, deixa você vulnerável à crítica na sala de reuniões. Tanto o João Dória Jr. como os conselheiros gostam de gente empolgada: sabem, contudo, reconhecer quando essa empolgação se transforma num problema.
15. Conheça o seu chefe.
Esse conselho é o mais importante. Embora essa edição se proponha a encontrar um empreendedor, uma pessoa que comece seu próprio negócio… O João Dória Jr. será o seu chefe enquanto você estiver no programa. E para ter sucesso, você precisa moldar a sua personalidade ao que ele está procurando. Veja vídeos do Show Business, estude a história de suas empresas, veja entrevistas com ele… Faça o que for necessário. Eu garanto que vai fazer a diferença.
E é isso. Quinze conselhos importantes. Acrescento mais um que poderá ajudar muito: veja vídeos do The Apprentice ao redor do planeta. Com eles, você poderá descobrir as soluções dadas por diversos candidatos às mais intrincadas tarefas. E como na televisão nada se cria, tudo se copia… Quem sabe uma dessas tarefas se repita na oitava edição.
Desejo toda a sorte do mundo para você. E lembre-se: eu estarei aqui para criticar a sua performance ou para elogiar o seu bom desempenho. Help me help you.






























