Heavy Lies the Crown, um episódio marcado por decisões ruins.
Dificilmente eu “torço” por algo ou alguém em uma série. Acredito que esse não seja o ponto de se assistir uma produção audiovisual, pelo menos não é para mim. Porém, em The 100, me peguei automaticamente encarando o Skaikru como o “lado bom” das forças presentes na série (provavelmente porque é assim que o texto leva o espectador a se comportar). Talvez esse seja um enorme equívoco. Desde a chegada dos 100 à terra, e logo após com o resto da Arca também descendo dos céus, as coisas só pioraram. Nunca fomos apresentados a uma terra sem a presença do povo do céu, mas se usarmos a imaginação, ela parecia bem mais democrática, organizada e segura. Existia todo um modelo político, uma organização social, que vem sendo destruída aos poucos por Clarke e seus amigos. Em Heavy Lies the Crown, as péssimas decisões tomadas pelos personagens devem gerar consequências enormes e bagunçar mais ainda a vida de todos, ao menos é isso que se espera de uma produção que leva a sério seu texto e sua narrativa. É preciso coerência. Pelo menos em três momentos podemos ver essas decisões equivocadas sendo tomadas.
A primeira delas vem acompanhada de um plano simplório para vencer o acidente nuclear que ocorrerá em seis meses: reconstruir a Arca, que sobreviveu aos níveis de radiação do espaço e portanto conseguiria abrigar apenas os pertencentes ao Skaikru, cerca de 500 pessoas (porém, não podemos esquecer da cena final da premiere, que mostra as pirâmides e duas pessoas sendo derretidas por uma tempestade de grandes proporções, a Arca pode não ser tão resistente assim). Mas para reconstruir a Arca, é preciso que Bellamy e companhia recupere uma máquina capaz de fundir moléculas de hidrogênio e oxigenio, criando água! A peça tecnológica é fundamental para garantir que a população sobreviva cinco anos enclausurados na Arca e tal artefato se encontra em parte da arca que caiu separada do resto, em território da Nação do Gelo.
Na tentativa diplomática de recuperar o aparato, Bellamy e companhia encontram alguns membros do Skaikru sendo mantidos como escravos e aí a decisão ruim toma forma: salvar 20 pessoas agora (explodindo a máquina de fazer água para libertar os escravos), ou pensar à longo prazo e salvar 500 (transportando a máquina e deixando os escravos para trás)? Para um povo que se considera superior pela sua tecnologia e medicina, o Skaikru sempre toma decisões irracionais e emocionais e isso é complicado porque leva o espectador a desacreditar a grandiosidade do acidente nuclear que está prestes a ocorrer (se personagens estão dispostos a destruir uma máquina fundamental para a sobrevivência da humanidade, talvez o acidente não seja algo tão importante assim). Bellamy tem o voto final e decide ser o good guy hoje, porque sua consciência pesada é incapaz de pensar em proporções maiores, ou alguns passos à frente. O personagem ainda está manchado pelos grandes erros cometidos no passado e não sei se uma série de boas ações é capaz de redimi-lo.

Mas segundo Clarke esse é o plano B, porque não inclui todos os humanos que fazem parte da sociedade em que a série se passa. Até agora, a pseudo-chanceler tinha guardado o segredo do resto dos míseros mortais e aí está outra decisão equivocada. Não existe uma boa justificativa para essa atitude, a não ser a característica megalomaníaca e controladora da protagonista, pensando que poderia existir algum tipo de vantagem em guardar esse segredo. É claro que da boca pra fora a ideia era não “apavorar” o povo (que vem lidando com ameaças muito mais intensas e imediatas por um longo tempo já). No fim de Heavy Lies the Crown, ao abrir o jogo e contar meias verdades, podemos ver que os planos estão longe de se concretizar, e ir descobrindo como lidar com todos os problemas ao longo do caminho parece ser a ideia central. Clarke, Bellamy e Raven (os líderes da força tarefa encarregada de controlar o acidente nuclear ou surgir com um bom plano de proteção) não parecem em sincronia. Cada um dos três parece querer abordar o problema de uma forma diferente, gerando ruído na maneira na comunicação, quando deveriam trabalhar em conjunto, utilizando os melhores argumentos e ideias de cada um, fazendo um plano sólido nascer.

Do outro lado da narrativa, na Polis, a porção política da série consegue ser superficial, além de pegar emprestado uma “lei” de Game of Thrones: Desafiado por outro clã que se mostra destinado a se vingar do Skaikru pela matança desencadeada através de ALIE, o Rei Roan precisa combater com outro guerreiro para assegurar seu poder. Roan, que ainda se recupera de um ferimento, parece um personagem diferente. Se primeiramente era tido como um homem covarde que fugiu de seu destino, agora se apresenta como leal, ético e disposto a tudo para guardar a coalizão e manter a democracia. Ao se mostrar incapaz de batalhar devido ao ferimento, Octavia age pelas sombras, como sempre.
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Em encontro com o líder do clã que está prestes a desafiar o rei, a personagem acaba resolvendo o problema da forma que melhor conhece: a violência, assassinando o líder do clã com um golpe certeiro na orelha e forjando uma morte “natural”. A maneira autoritária com que o Skaikru resolve suas missões é problemática a partir do ponto em que seus personagens geralmente não sofrem consequências (mas por algumas “dicas” no texto, pode ser que Octavia não saia ilesa de seu novo feito, como um diálogo sobre o assassinato de Pike, ou um olhar de Echo que parece compreender o que Octavia fez para evitar que Roan precisasse batalhar). A grande questão é que o Skaikru dobra regras ou as ignora sem pensar duas vezes. Como se consideram os portadores de uma moral elevada, e os guardiões das resoluções de problemas, parecem dispostos a passar por cima da autoridade e de um sistema que existia na terra muito antes da arca vir ao chão. Talvez os grandes vilões da série sejam eles mesmos.













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