De volta para o passado: a comédia da pseudocompaixão.

Eis que chega o aguardado retorno do eterno McFly à televisão. Apesar de participações especiais em séries como Scrubs e The Good Wife, é a nova aposta da NBC que marca o retorno de Michael J. Fox como protagonista após 13 anos da despedida do conquistador Mike na finada Spin City. Dessa vez, Fox volta a interpretar outro Mike, um repórter que decide voltar a ativa 5 anos após ter largado o emprego.

E qualquer semelhança com a realidade do ator não é mera coincidência. Assim como Mike Henry, o Mal de Parkinson que acometeu Fox na década de 90 também o afastou das câmeras. Assim, a série se aproveita disso e até brinca com o péssimo momento vivido pela NBC – na ficção e na realidade – para depositar uma grande responsabilidade em cima de Fox e de seu personagem: reencontrar uma audiência perdida com o passar dos anos (Friends e Seinfield mandam lembranças).

A NBC está em busca de um hit, mas erra a mão ao apostar na fórmula de pseudodocumentário, que nada tem de inovadora. Entendo que deu certo com The Office e Modern Family, mas aqui a ideia parece empurrada e jogada para o telespectador chorar de rir. Infelizmente, não funcionou muito bem. Grande parte do roteiro acaba usando o Parkinson como muleta para arrancar sorrisos, mas acaba nos fazendo sentir compaixão pela situação vivida pelo ator e personagem. Ao menos não temos claques, aquelas risadas de fundo que não combinariam com o ritmo da série.

Vale ressaltar os pontos positivos. Além de Michael J. Fox, a série conta com outros trunfos. O elenco de apoio, ou melhor, a família de apoio é ótima e apresenta um potencial que pode sustentar a série além dessa temporada inicial de 22 episódios.
Betsy Brandt (Marie de Breaking Bad) interpreta a esposa de Mike, Annie, e conseguiu transmitir uma boa química com Fox. Fomos apresentados ainda aos 3 filhos do casal. Ian, o filho mais velho que largou a faculdade e desenvolve um site de busca, mesmo tendo um QI abaixo da média. Eve, a filha adolescente em busca de aceitação. E Graham, o caçula que fica na promessa de ser ao menos engraçadinho. Ainda temos a tia “boazuda” Leigh, cuja idade nunca ultrapassará a casa dos 30. Por fim, duas boas surpresas no ambiente de trabalho de Mike, o seu chefe e a sua assistente.

O piloto foi bem conduzido e conseguiu apresentar um vislumbre do potencial para a temporada. Apesar das cenas mais engraçadas do episódio estarem presentes no promo, fomos surpreendidos agradavelmente por cenas como da filha fazendo a Enriqueta (“I can be your hero, Daddy”), dos aplausos do pé no estúdio ou da assistente chorosa. Como balanço geral da primeira meia hora de show fomos apresentados a uma comédia que classificaria como “boa”. Bons personagens, boa direção e boas referências.

Todo o clima criado pelo episódio-piloto e o otimismo contagiante de Michael J. Fox não foram o suficiente para compensar as falhas do segundo episódio. Na verdade, “Neighbor” foi uma bagunça. Kelly, a vizinha do título, surge pra criar conflitos nos relacionamentos de Mike, seja com a esposa ou com o chefe. Mesmo sendo interpretada por Tracy Pollan, a esposa de Fox, a personagem fica deslocada pois falta química e fica difícil de se identificar com as situações colocadas pelo roteiro.

É possível perceber um problema em relação a outro personagem, que estava ali o tempo todo, desde o piloto: ele atende pelo nome de Parkinson. É evidente que ele sempre estará presente, mas até que ponto ele pode ser usado sem que o público se canse? O risco de perder o humor é inevitável quando se repete a mesma piada mais de uma vez. A equipe criativa pode criar plots melhores que o da amiga lésbica (que é hétero) da Eve. Deu certo com a tia Leigh. Katie Finneran e sua fake mãe solteira entregou o melhor dentre os não-tão-bons momentos do segundo episódio.

O problema de se colocar grandes expectativas nas coisas, é que fica fácil de você se frustrar. Por isso, ao assistir essa estreia sem nenhuma pretensão, você não desistirá dela facilmente. E cá entre nós, considerando as novas comédias dessa fall season, Fox Show não está próximo das piores. Vale a pena abraçar a batalha de Michael J. Fox e ter o mesmo otimismo em relação ao humor que estamos dispostos a sentir.

Channel

1: O encanador imigrante e sua pronúncia. “Ele disse sex?”
2: O autógrafo para o tio do policial. “Ele tem Alzheimer”
3: Percebeu a ligação entre jantar à mesa e a heroína?
4: Fox Show estreou melhor do que The Office e Parks no ano passado, lembrando que em 2012 eles só tiveram a concorrência de um inédito de Glee (que dessa vez a NBC bateu).

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