Ironside não é um desastre, mas está muito longe de ser um sucesso.

Todo mundo sabe que os americanos adoram procedurais e, como não poderia ser diferente, todo ano estreiam algumas séries cujo formato não foge muito do famoso “caso da semana.” Não tenho muito a reclamar do gênero, visto que aprecio muito esse estilo. Entretanto, num mar de procedurais já existente na televisão norte-americana, teria Ironside a sua chance?

Remake de uma produção de sucesso entre os anos 60 e 70 – inclusive ganhadora do Emmy Awards – a premissa de Ironside não apresenta fatores inovadores. Blair Underwood é Robert Ironside, um detetive paraplégico que resolve os crimes mais desafiadores de Nova Iorque ao lado de uma renomada equipe escolhida a dedo. Novata da NBC, pelo menos o horário condiz bastante com a sua ideia principal, visto que será exibida logo após Law & Order: Special Victims Unit.

Primeiramente, Ironside precisa de um diferencial para dar certo. Todo procedural de sucesso tem um que o torna único. Castle tem um autor de livros de mistérios, Unforgettable tem uma detetive com uma memória espetacular, o pessoal de Criminal Minds resolve somente crimes sobre serial killers e tantos outros exemplos. Sinceramente, não vejo nada especial em Ironside. A sinopse, mesmo sendo baseada em algo que deu muito certo há algumas décadas, tem de se adaptar ao público atual, já que os tempos são outros. Tudo parece clichê demais.

Tratando do episódio propriamente dito, nota-se que o ele foi arrastado demais. Embora o propósito de um piloto seja basicamente apresentar as personagens e as histórias iniciais, o caso foi extremamente fraco e, inclusive, sonolento na maior das partes. A investigação de Ironside e sua equipe empolgou somente nos momentos de ação, em que as ações do protagonista foram até certo ponto questionáveis, fato este que será abordado posteriormente.

Por meio das primeiras impressões pôde-se constatar que os melhores adjetivos para Robert Ironside seriam prepotente e arrogante. Capaz de atirar em um refém para libertá-lo – e nesse ponto ressalto que nunca tinha visto algo semelhante – Ironside se mostra muito superior ao restante de sua equipe, segundo, obviamente, as suas concepções. Entendo que, depois do acidente que quase tirou sua vida, é perfeitamente compreensível que ele tenha ficado mais determinado a evitar que grandes perdas acontecessem novamente, mas passar a desdenhar dos outros devido a sua autoavaliação foi bastante exagerado. Ele, além de tudo isso, já havia descoberto o desfecho do crime e nem cogitou dividir com a equipe. Isso funciona muito bem em The Mentalist, por exemplo, devido a seus alívios cômicos. Entretanto, Ironside aparenta ser séria demais para que isso aconteça, reafirmando somente as características da personagem de Blair Underwood.

Os problemas não param por aí. Se a equipe foi escolhida a dedo, como afirmado pela sinopse, onde se encontram as características das outras personagens que as fazem ser incluídas na equipe de Ironside? Todos, sem exceção, foram muito mal desenvolvidos para um episódio piloto, assertiva esta que questiona totalmente a premissa. A impressão passada foi de que todos são absolutamente descartáveis, visto que somente Ironside foi necessário para a resolução de todo o caso. Fora a química invisível, parecendo somente existir o protagonista naquele ambiente.

Outro fato que geralmente existe em procedurais é uma história por trás do protagonista, um caso que mexa com ele e tenha profundamente alterado sua vida depois desse acontecimento. Ironside tinha uma excelente oportunidade de transformar o acidente que colocou Robert em uma cadeira de rodas em uma conspiração bem maior, porém isso foi inteiramente desperdiçado quando decidiram culpar uma investigação corriqueira, em que o tiro foi disparado por um criminoso meramente comum. Fazendo novamente uma analogia com outras séries do gênero, observa-se que tais casos complexos – que Ironside poderia ter usado – perpetuam por diversos momentos, trazendo, na maioria dos casos, episódios que nos lembre do porquê de gostarmos tantos daquela série. Com Ironside, infelizmente, isso parece ser muito difícil de acontecer.

Os flashbacks foram excessivamente longos justamente por evidenciarem os momentos antes do maior trauma de Robert Ironside. Por esse motivo, além de acreditar que eles não deveriam ser transmitidos ainda no piloto, eles reafirmaram ainda mais a personalidade questionável de Ironside ao quase arremessar um suspeito do alto de um prédio. Apesar de tudo, os únicos momentos de ação foram de fato nesses flashbacks.

Ao invés de mostrar uma Nova Iorque diferente, foi preferido abordar uma cidade recheada dos clichês que já estamos acostumados a ver nos mais diversos filmes. Detetives durões, muitos criminosos, a noite perigosa e tantos outros fatores. Confesso que, às vezes, considero isso bom por nos entreter com uma realidade visível e adaptar ao padrão estabelecido pelo novo drama da NBC. Entretanto, não vejo essa forma tão legal para descrever uma cidade tão complexa e repleta de mistérios.

Não sei se fui crítico demais nesse primeiro momento, mas ao assistir a tantos procedurais, tornei-me exigente com as diversas séries que seguem esse padrão. Ainda não sabemos qual foi a reação dos americanos diante do piloto, visto que o episódio ainda nem foi lançado nos Estados Unidos. Não sou de julgar uma produção inteira pelo piloto, mas ele certamente passa as primeiras impressões que certamente podem desencadear processos positivos ou negativos. É possível que eu volte para um segundo episódio? Ainda não sei. Ironside precisa de um grande empurrão para dar certo. Esperemos que ele exista.

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