Várias metáforas e um excelente episódio para você que teve que esperar esse retorno de Wilfred.

Spoilers Abaixo:

O final da temporada passada de Wilfred contribuiu maravilhas para a série, provando que a série possui a capacidade de moldar a personalidade de personagens ao mesmo tempo em que acaba indo contra tudo aquilo que ela vinha construindo ao longo do tempo. No primeiro momento da série, encontramos Ryan tentando se suicidar, tendo desistido de aproveitar a vida por inúmeras razões que Wilfred fez questão de exaltar durante a caminhada dos dois. Wilfred acabou sendo o pilar da recuperação de Ryan para afastá-lo daquela pessoa que achamos no episódio piloto e a série fez um ótimo trabalho em mostrar (não simplesmente falar, erro comum das séries de televisão, que quando é evitado oferece um salto de qualidade incrível para um episódio) como aquela pessoa cresceu justamente por retirar do seu lado a razão maior que o levou aquele estado de satisfação. Wilfred desenvolveu uma leva de episódios na reta final da temporada passada que guiava Ryan em um caminho e o desafiou a continuar nele ao deixá-lo sozinho, algo que esse episódio especial reafirmou para os quatro cantos do mundo. “Progress” faz um trabalho sensacional de reconstrução que consegue superar em termos qualitativos o seu antecessor, sendo um grande índice que a série está seguindo a progressão natural das séries que se iniciam problemáticas: ficarem melhores no seu segundo ano.

Os saltos de realidade que tomaram conta do episódio seguem o estilo Wilfred de utilizar a imprevisibilidade para causar risadas, algo que a série sempre teve um pouco de dificuldade em cumprir ao ter que dividir essa característica com a ambiguidade do cão. “Progress” acaba indo a fundo ao explorar a maneira como a série apresenta os seus questionamentos sem necessariamente respondê-las, como no caso das inúmeras piadas que Ryan faz ao longo do episódio mesmo quando ele afirma que não quer suas respostas para evitar algum tipo de choque de realidade, fazendo com que a série utilize a anfibologia do cachorro de forma proposital e divertida, especialmente no momento em que os dois se reencontram e partem para uma caminhada, a melhor cena do episódio, que ironicamente se passa durante a luz do dia, sendo que a série sempre soube aproveitar de maneira superior o mistério e o modo sombrio dos lugares escuros e das noites (a maioria das cenas da série seguem esse estilo), e ainda é mais um exemplo de que Wilfred e Ryan formam uma dupla sensacional, principalmente o primeiro graças a versatilidade de seu intérprete, que consegue atingir os pontos necessários de incerteza, raiva e ironia que compõem esse estranho cachorro (prova incontestável: a cena em que Ryan tenta provar desesperadamente que Wilfred estava bem). Outro momento bem interessante ocorre no momento em que Fiona deixa Wilfred para Ryan, que possui uma inteligente direção de Randall Einhorn para manter o mistério sobre o estado do cachorro acrescentando ansiedade ao evitar mostrá-lo enquanto Fiona anda. “Progress” serve como um grande passo no processo de recuperação de Ryan, que mesmo continuando indeciso a níveis que, em certos momentos, chegam a ser nada realísticos, conseguem ser explorados de maneira engraçada nesse episódio, que conseguiu conciliar toda a loucura de Ryan sem deixá-lo anticlimático em nenhum momento.

Alguns elementos anteriores exibem como Wilfred parece ter aprendido com alguns deslizes do passado, mas existem outros que reforçam como a série soube tirar mais daquilo que ela já possuía doutorado, como as participações especiais. Robin Williams aparece como o terapeuta de Ryan no instituto e consegue adicionar ao episódio graças ao seu engraçado desempenho explorando tanto o lado probo do profissional, mas revelando-se um maluco com o passar do tempo e da loucura de Ryan, algo que o figurino apoia ao colocá-lo em uma veste branca, transpirando sabedoria e conhecimento que contrastam com os tons escuros do local das conversas, fazendo com que ele se destaque ao mesmo tempo em que o colocam com um adorno chamativo como a sua gravata borboleta.

O que faz de “Progress” um episódio especial não é apenas o fato de ele representar uma transição e recomeço para a própria série, mas também porque ele realmente é um episódio bastante engraçado, provavelmente o mais bem sucedido de Wilfred nesse quesito, com o cachorro atirando para todos os lados a sua natureza imatura que a série domina, sua obsessão pelo urso de pelúcia e masturbação e a total dúvida se ele estava sendo sincero sobre o seu acidente. Conseguindo envolver uma ótima representação de problemas psicológicos e o que eles causam em um homem comum, um humor simplista, mas potente ao fazer de Wilfred uma figura emblemática, companheira e ainda um cachorro que tem que fazer suas necessidades em público e dirigir vans roubadas em direção a uma parede de tijolos, Wilfred inicia 2012 com seu episódio mais fascinante em sua pequena jornada. Procurem gifs. do Ryan apagando o cigarro na perna do Wilfred.

Continuaremos a cavar.

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