Uma mistura de gêneros, estilos e personagens pouco interessantes. Não, essa não é uma review sobre o “Caldeirão do Huck”.

Spoilers Abaixo:

Quando li a notícia no ano passado de que Weeds tinha sido renovada, torci o nariz. O final aberto da sétima temporada não me incomodou. Achava que aquele era um excelente ponto para terminar a história, deixando um gostinho de quero mais e criando uma aparente conclusão para a trajetória de Nancy. Mas eu concordo que a série precisava dessa 8ª temporada para acalmar os ânimos dos fãs e dar um fim decente. O problema é que essa sobrevida de 13 episódios não foi bem aproveitada e o que vimos foi uma temporada confusa e perdida, que nos presenteou com um filler como series finale.

Depois do gancho dramático do antepenúltimo episódio (já que esta finale foi um episódio duplo), optaram por avançar a história em mais de dez anos e a narrar o final a partir deste ponto. Esse foi só o primeiro de uma série de equívocos que foram conduzidos durante mais de 50 minutos. Pode parecer bobagem, mas o recurso de passagem de tempo é a maneira mais preguiçosa que um roteirista pode encontrar para lidar com uma situação. É muito novela das seis!

Ao relembrar todos os fatos desta 8ª temporada, fiquei com a impressão de que ela foi escrita de trás para frente. Esse episódio poderia ser aleatório e vindo logo após qualquer um dos exibidos anteriormente. Faltou definir um foco, escolher sobre o que seria esse oitavo ano.

A temporada começou com Nancy se recuperando do headshot. Em seguida, ela passou os demais episódios ora relutando, ora aceitando o fato de que seu único talento era a venda de maconha. No meio disso, Weeds perdeu a oportunidade de se aprofundar em temas interessantes, cuja discussão é urgente na sociedade contemporânea: legalização da maconha, os poderes medicinais da erva e a incoerência da sua proibição frente a outros vícios como o cigarro e o álcool. Weeds nunca levantou bandeira e sempre foi legal por causa disso. Mas se era para ser feito, que fizessem direito.

Nancy teve o exato fim que merecia. Vimos a MILF enfrentando uma crise de ninho vazio, com todas as suas crias seguindo seus respectivos caminhos. Silas virou pai de uma linda menina, fruto de seu casamento com Maggie, que por sua vez despreza a sogra por motivos que todos nós desconhecemos. Inclusive, esse plot me incomodou um pouco pelo excesso de piadas envolvendo a surdez da personagem.

Shane conseguiu entrar para a polícia, mas não ficou claro se ele estava do lado dos bons ou dos maus policiais. Fato é que ele se tornou uma pessoa transtornada, enfrentando problemas com álcool. Eis um dos maiores desperdícios da série. O filho do meio, desde criança, manifestava traços de sadismo e psicopatia, que tiveram seu ápice no momento em que ele assassinou Pillar. Dali por diante, seguiu-se ladeira abaixo, em plots imbecis como o da Noruega, onde trabalhou com fantoches, e também na sua chegada à academia de polícia, que gerou momentos de vergonha alheia, como ser abandonado seminu após um assalto, digno de qualquer comédia de Charlie Sheen.

Ver o desenvolvimento de Stevie talvez tenha sido um dos poucos pontos positivos do episódio. Diferente do que aconteceu com os outros filhos, Nancy parece ter acertado e foi uma espécie de mãe superprotetora e presente, fato confirmado pelo agradecimento emocionado feito pelo caçula. Vimos que ele cresceu tendo diversas figuras masculinas como referência, sendo a do rabino Dave a mais presente. A descoberta da real identidade de seu pai, Esteban, acabou rendendo a melhor cena do episódio, no Bar Mitzvah motherfucker.

Andy não quis mesmo saber de Nancy. Mudou-se para RenMar, onde morou com seu pai, casou, teve uma filha e abriu um restaurante de comidas orgânicas. Esse destino do personagem serviu para ressaltar o quão parada sua vida ficou nos últimos anos, quando adotou os filhos de Nancy e passou a viver em função da realização de um amor que sempre se mostrou platônico. Quis que Andy e Nancy ficassem juntos durante quase toda essa temporada, mas quer saber? Ela não o merecia.

Outro fator que me incomodou bastante foi o retorno aleatório de diversos personagens. Jenji Kohan havia anunciado que faria do finale uma grande homenagem aos fãs da série. Assim, gente cuja existência eu nem me recordava mais apareceu para dançar na festa, fazer um comentário referente ao passado e sair. Preferia que esses retornos não tivessem acontecido. Primeiro porque não foi possível trazer as mais importantes: Celia e Isabel, embora tenhamos descoberto que esta última virou um rapaz. Segundo, porque mais uma vez houve preguiça na condução desse arco. Seria possível escolher apenas os melhores personagens e criar histórias interessantes ao longo da temporada, ao invés de inserir novos e inúteis, como foi feito. Preferia que tivessem trabalhado melhor esses retornos, no estilo do que ocorreu com Heylia na 7ª temporada.

Apesar de ter me simpatizado com o final de Doug, que se tornou uma espécie de guru espiritual e abriu sua própria religião, não gostei do modo como foi conduzida a reconciliação com seu filho gay. Sério, nesses últimos anos ele só citou o garoto de forma pejorativa. De repente, teve uma crise de consciência e fez o possível para acertar a situação. Ambos estavam bem, cada um para o seu lado.

Entre os pontos positivos desta finale, destaco as piadinhas tecnológicas, mostrando que o celular vai parecer um pedaço de vidro e que a substituição de máquinas por gente pode gerar problemas no comércio. A investida de Nancy no segmento de maconha deu certo, uma vez que o consumo foi legalizado em alguns estados. Foi uma forma bem bacana e sutil de dizer que o futuro é a legalização. Tal fato tornou Nancy rica, porém sozinha.

O vazio existencial de Nancy resultou na poética cena final. Um a um, os quatro principais homens de sua vida foram se sentando, ao seu redor e dando um tapinha no cigarro de maconha, já legalizado. A emoção estava visível, principalmente nos olhos de Shane, e me levaram a acreditar que se tratava mais de uma despedida dos atores do que a finalização da série.

Apesar de tudo, Weeds termina sendo um exemplo negativo para outras produções televisivas. A série foi genial em suas temporadas iniciais, mas a ganância dos produtores acabou insistindo em renovações desnecessárias que acabaram desgastando a produção. É uma pena que algo que poderia ser memorável, saia do ar deixando a sensação de que foi tarde. E no caso, tarde demais.

Outros comentários sobre o series finale de Weeds, você confere no próximo Podmaníacos, que vai ao ar nos próximos dias. Até lá!

Artigo anteriorLeverage – 5×10: The Frame Up Job [Mid Season Finale, part 2]
Próximo artigoAudiência USA – TV a Cabo: 14/09 a 20/09