Todos os caminhos levam ao caos.

Desde que Wayward Pines estreou que o que mais ouço nas redes sociais é um grito de indignação especializada, que se proclama detentor da verdade mais absoluta de todas: essa série é uma porcaria que só tem clichês e obviedades a oferecer. Alguns poucos, onde me incluo, bradam uma coisa diferente: essa é a série boa menos reconhecida da programação atual e por conta disso, seus fãs vivem uma posição complicada… Assistimos ao show com o olhar de quem vê algo que deveria ser respeitado, mas somos vistos como aqueles que estão dedicando tempo ao terrível.

Essa review acabou sendo dupla, mas acho que ainda vale dizer que o episódio com a explosão do caminhão só deu munição pra galera desse primeiro grupo mencionado. Sim, foi uma explosão tola que nunca derrubaria a cerca. Mas, nunca podemos esquecer que os amadores que a planejaram jamais poderiam ter como saber previamente o nível de estragos que poderiam causar. Sem uma bomba realmente potente, a cerca não cairia, o baú do veículo não seria totalmente destruído e talvez, os dois adolescentes que estavam no fundo dele, sobreviveriam. Quem pode dizer?

O fato é que pouco se viu de realmente questionável em toda essa primeira (e agora sabemos, única) temporada do show. Ele começou com um mistério estabelecido de forma sólida, com roteiros que não poupavam grandes personagens e com a proposta de não nos sonegar revelações em nome de uma possibilidade de futuro. Com cinco episódios revelou seu mistério, que era coerente, relevante e minimamente ousado. Metaforizou dignamente em cima de conceitos como liberdade, soberania, violência e medo, e ainda fez uma breve analogia sócio-biológica com os termos da atual engrenagem humana.

Chegando ao final, com seu segredo revelado, Wayward Pines começou a entrar na sua base mais interessante: explicitar a elevação de toda a ambiguidade que sempre foi levantada pelo programa. Se a humanidade acabaria em muitos anos, seria justo privar pessoas de um futuro que elas ainda teriam? O certo foi pensar num mundo estabelecido como o “correto” esquecendo que a natureza só evolui por necessidades inevitáveis? Chamar os frutos dessa evolução de “aberrações” não é errado? E se estou no meio dessa experiência de preservação da “humanidade racionalizada”, devo lutar por ela custe o que custar? Mesmo que o custo seja a humanidade que digo que preservo? Quem é o vilão dessa trama? O morador que só quer ser livre ou o cientista que só quer o planeta como conhecia de volta?

Peço licença aos que julgam esse programa como ridículo e pobre, porque pobreza é a última coisa que enxergo nele. No episódio 1X08, após descobrir que um dos voluntários do projeto se compadecia dos moradores e os preservava, Pilcher resolveu puni-lo com a inconsciência. Isso enquanto chamava de “terrorista”, o grupo da cidade que lutava para passar da cerca. Ao mesmo tempo, o grupo rebelde é que se sentia parte de um cativeiro criado por um tipo de terror psicológico… Quer dizer, a dramaturgia do show tem tanta riqueza de analogias e ambiguidades que me impressiona a forma como ela é tratada com descaso.

Agora, na semana passada, vimos os jovens doutrinados pela ideia de que poucos anos de vida acumulam menos apegos afetivos, agirem violentamente por conta do apego a uma coisa muito mais perigosa: um senso exagerado de auto importância. Um deles assassinou brutalmente quase todo o grupo rebelde, apenas porque manter a cidade é o mais importante, porque a cidade é o pedaço de uma “humanidade” que jamais deve ser esquecida… Que irônico… Quiseram preservar tanto a humanidade que conseguiram preservar até a parte podre dela, aquela parte que mata porque “é o sacrifício certo a ser feito”.

A Reckoning foi um episódio maravilhoso, que estabeleceu os acontecimentos necessários ao mal maior que virá a seguir: Pilcher, dominado pela noção distorcida de dever quase divino, resolve deixar a cidade sucumbir, ou para que seja refeita ou para que prove seu ponto de vista: ninguém é capaz de entender o valor e a importância de seu trabalho. Enfim, aquela cidade dividida entre medo e esperança, vai ter que se unir no objetivo real de sobrevivência. E o quão sensacional não é pensar que veremos uma luta entre a humanidade como foi um dia e a humanidade no que se tornou naturalmente. Que cilada deliciosa para qualquer autor… O humano transformado pela natureza tenta devorar, literalmente, o humano que desafiou a engrenagem inevitável da vida em nome daquilo que mais o torna distinto das outras espécies: o amor pela memória.

Little Abbies: A Fox já anuncia o episódio da semana que vem como Series Finale.

Little Abbies 2: Me sinto extremamente envolvido com os personagens e voltaria para um ano 2 sem dúvida. Odeio a professora da lavagem cerebral (e amo Theresa por ter estapeado ela), sofri com a morte de Harold e entendo as crises existencialistas de Kate e Pilcher.

Little Abbies 3: Grupos de sobreviventes fora da cerca? Entendi que as imagens com Adam faziam parte do que foi estabelecido na primeira tentativa de fazer a cidade funcionar, certo?

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