O chato necessário de The Well.
Desde que passou a ser identificável que estávamos diante de uma série metodicamente oscilante entre a ação e a calmaria, The Walking Dead vem se confirmando nas suas qualidades e defeitos constantemente. Ela repete seus vícios por lá e a gente repete nossas reações por aqui. Natural então, que depois de uma premiere absurdamente boa, fossemos jogados de novo no poço do adiamento. Essa semana desviamos para o reino, semana que vem desviaremos para o que aconteceu com Daryl e só então, voltaremos aos eventos que encerraram a premiere.
Contudo, há uma pequena diferença dessa vez. Os dois desvios que nos afastam das ações da estreia são complementares no intuito de nos situar para essa nova realidade. É claro que os roteiristas não precisavam usar um episódio inteiro para cada novo ângulo, mas se é assim que o show funciona, temos que aceitar pra doer menos. Alexandria, O Reino e Os Salvadores são três núcleos que desmembram os ritmos das próprias narrativas (já que parece impossível para a produção ser simultânea), mas que são essenciais para situar o espectador nos planos futuros. Por isso, The Well foi um episódio bem chato, mas bem necessário.
O Reino em The Well
Estamos diante de três formas distintas de governo. É um momento bem interessante para a série explorar, porque são três polos políticos e filosóficos que estabelecem as dinâmicas da sétima temporada. Enquanto Alexandria vem de um momento de consciência da necessidade da luta, O Reino já encontrou sua zona de conforto ao ceder aos mais fortes. Na última extremidade, Os Salvadores buscam sobrevivência escravizando outros grupos e quando colocamos os três em perspectiva, podemos dar a eles uma palavra correspondente para cada ideologia: Inquietude, Diplomacia e Intimidação. Ainda temos Hilltop, mas ainda com contornos muito translúcidos.
Apesar de termos passado mais de quarenta minutos no Reino, ainda sabemos pouco dele. Ezekiel é uma figura muito esperada pelos fãs dos quadrinhos e o show foi respeitoso quanto a forma como ele foi adaptado. Há uma grande mudança com relação a maneira como ele é apresentado (falaremos sobre as diferenças lá no final), mas em essência, o “rei” da pacata comunidade foi revelado com honrarias e com toda a afetação que lhe é atribuída mesmo que nas páginas dos quadrinhos. Ezekiel não é um personagem apenas, ele é uma ideia. E esse é o grande forte da dramaturgia da série nesse momento: Rick, Ezekiel e Negan são todos uma ideia.
O episódio usou uma metáfora interessante na sequência em que Ezekiel tenta fazer Carol comer uma romã. Na mitologia grega, Hades, o Deus do Inferno (ou “mundo inferior”, como alguns traduzem), prende Perséfone (deusa da primavera) em seu “reino” ao fazê-la comer uma romã. Carol não aceita a fruta quando conhece o líder, mas parece disposta a aceitá-la na sequência final. Pode ser que a referência tenha sido apenas um toque de charme, mas se acabar sendo como uma espécie de detalhe premonitório, a paz do lugar pode ser só uma fachada para chamas e enxofre.
O Líder em The Well
Nada de muito importante aconteceu porque a intenção era mesmo a de situar a atmosfera. Conhecemos o lugar, conhecemos Ezekiel e alguns personagens novos, como o pupilo de Morgan e um dos braços-direitos do líder, Richard. Soubemos que Os Salvadores já fazem coletas semanais no Reino e que, espertamente, os porcos que os súditos de Ezekiel dão ao bando de Negan, estão tomados de carne pútrida e contaminada. É evidente que não há efeitos notórios nessa façanha, já que eles parecem já ter feito isso antes e Negan não chegou por lá alegando que pessoas ficaram doentes sem nem terem sido mordidas. Mas, é uma ideia inteligente que serve pelo menos para dar ao grupo do reino um pouco de senso de vingança.

Também tivemos a longa cena em que Ezekiel conta a Carol sobre como tornou-se o “rei” e sobre como adquiriu Shiva. De todos os líderes que já surgiram no show, ele foi o que mais me deu trabalho para entender e aceitar. Boa parte disso vem da forma como ele é descrito de maneira afetada, com linguajar medieval, ditados a cada três frases e um tigre de estimação. São muitos elementos exagerados que prejudicam a verossimilhança, mas que funcionam melhor quando sabemos que são parte da ideologia do personagem, da encenação dele.
Colocando por essa perspectiva, Ezekiel se torna mais promissor, já que seu teatro de liderança terá que ser colocado a prova quando as tramas se encontrarem. O grande problema é saber quando essa convergência será possível, já que pela metodologia oportunista sustentada pelo show, ele pode passar semanas e mais semanas contando uma história por vez, testando nossa paciência e boa vontade, apenas seguro de que, no final das contas, a gente vai esperar e gostar. Lá na season 1 nos ofereceram uma romã tenra e suculenta… E nós comemos e estamos presos no inferno, até hoje.
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SPOILERS DOS QUADRINHOS, SE AINDA VAI LER FUJA PARA AS COLINAS.
– Nos quadrinhos, o diálogo em que Ezekiel fala de sua história se dá entre ele e Michonne. Os dois começam um romance e que agora, provavelmente, será atribuído a Carol.
– O Reino, aliás, surge na trama quando Jesus leva Rick até lá para que ele conheça e convença Ezekiel a juntar-se a ele na luta.
– Após Negan matar Glenn, ele vai até Alexandria para fazer uma coleta e na volta, Carl vem escondido no caminhão (cheio de planos de vingança). É através do olhar de Carl (por quem Negan passa a nutrir uma mistura de ódio com admiração) que conhecemos a morada dos Salvadores. Na série esse lugar passará para Daryl e considerando a apatia do ator que vive Carl, essa acabou sendo uma sábia decisão.















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