Ninguém ganha uma partida de xadrez sem ser ambíguo.

Enquanto na belíssima abertura com um tabuleiro, ao som da emblemática canção de Alcione, o conceito por trás de A Regra do Jogo era montado, no desenrolar da trama, uma multiplicidade de personagens levavam a vida flertando com os dois lados da corda-bamba. Por isso, quero começar essa review com uma imagem:

A regra2

No celeiro das dramaturgias mais relevantes das duas últimas décadas, o maniqueísmo não tinha mais seu lugar. O mundo ainda é formado por bons e maus, mas um roteirista competente já sabe que dificilmente a arte lida bem com extremos chapados. Essa foi uma lição que The Sopranos nos ensinou, mas que muitas novelas ainda teimam em ignorar. Mais interessante que o retrato superficial das motivações humanas é a abordagem mais aproximada das complexidades que tornam os conceitos de maldade e bondade, transfigurados.

Tomada de expectativas, A Regra do Jogo começou sua divulgação na direção contrária ao que acabou apresentando ao público ontem. Os arquétipos de mocinhas e bandidos estavam bem determinados para as chamadas, o que até compreensível, porque João Emanuel sabe que o público da classe C precisa ser fisgado imediatamente. Provavelmente foi por isso que as primeiras sequências da estreia se focaram bastante no núcleo do Morro da Macaca. Adeus viagens inúteis a outros países ou mansões e empresas presididas por ricaços esnobes… A Regra do Jogo começou bebendo em outro tipo de fonte, muito próxima aqui do mundo que o Série Maníacos defende… Tal quais as séries que conhecemos muito bem, o primeiro capítulo teve volta de tempo e teve título.

A Outra Face

Vanessa Giácomo apareceu no primeiro quadro se entregando a polícia. Dez dias antes iríamos compreender o que a levara até aquela situação. Não há nada de sensacional na motivação dela para o roubo ter sido a saúde da mãe, mas quando a personagem rouba está ajudando a compor um quadro. Essa vai ser uma história sobre fazer coisas ruins por um bem e fazer coisas boas para o mal. O genial da coisa? Nós aqui, como espectadores, vivendo o dilema moral de perdoar o mal que visou o bem ou o bem que visou o mal.

Em alguns casos, como o de Atena (de uma eufórica Giovanna Antonelli), a bifurcação de sentidos é mais sutil… Nós sabemos que ela é uma escrota que só quer viver às custas do dinheiro alheio. Mas, o método da moça passa pela manipulação das emoções alheias. Nos momentos em que Atena envolve e seduz, ela está promovendo a nutrição de frágeis autoestimas e assim ela ganha o posto de benfeitora, mesmo que na mais turva e limítrofe visão da coisa.

O caso mais vibrante dessa trama já tão bem construída é o de Romero. Ali está o apogeu conceitual da história. E é realmente uma pena que a divulgação de A Regra do Jogo tenha entregado que o personagem era um mentiroso. Da forma como foi conduzido o capítulo, o choque com a revelação da verdadeira face de Romero teria sido muito maior e mais eficiente.

O personagem ganha com a decisão pessoal de ganhar dinheiro encenando honestidade a qualquer custo. E ele vai longe… É daqueles que defendem o feirante quando você é grosseiro com ele, mesmo que não tenha câmeras por perto, apenas porque a “verdade” de sua reputação precisa de mentiras menores para manter firme a sua fundação. Romero é uma instituição de generosidade e justiça, e precisa ser assim em qualquer esquina do mundo, ou o plano falha, ou  a peça termina.

É aí que a nova proposta de direção de Amora Mautner encontra sua justificativa. A diretora espalhou câmeras escondidas pelos sets e com isso planejava capturar organicidade sem pseudo-atuação. Ela foi atrás do Big Brother para compreender melhor esse conceito de “atuação disfarçada’ e conseguiu imprimir isso na novela direitinho. Romero é como aqueles vencedores mais emblemáticos do BBB. Ele monta o personagem certo para as “tias do sofá”, mas quem lhe motiva é seu ego. E vejam só… O ego também gosta de se fazer de bonzinho.

Porém, existe sempre alguém, sempre, que sabe quem é o peão negro fingindo-se de branco e a sequência final com Djanira discando para o Capeta, mostrou que o Big Brother só é eficiente com quem não enxerga com a lupa da convivência. O mundo de Romero e seu teatro sociopático vai ser ameaçado por quem sabe quem ele é por trás do personagem. E é assim que João Emanuel vai tentar conduzir essa novela… As regras do jogo são sólidas apenas até que ganhe a mesa um novo participante ambíguo.

Em tempo: Fascinado com o capítulo ganhando um título (espero que seja sempre assim) e com a abertura. Há séculos que uma novela das 21 não apresentava um bom trabalho, realmente conceitual, na abertura. O detalhe da peça quebrada sendo reconstruída com pedaços pretos e brancos foi de arrepiar.

Em tempo 2: Estou cansado da imagem do Cauã…. Ele precisa urgentemente fazer um nerd, um apático ou um travesti.

Em Tempo 3: Toda a direção e texto do capítulo foram impecáveis.

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