O que seria de nós sem nossos guilty pleasures?

Se engana quem pensa que a vida de um série maníaco se resume a assistir a Mad Men, The Good Wife, Hannibal, Game of Thrones e outras séries que estão na ponta da língua de qualquer um que é apaixonado por séries. Nem só de exercício intelectual vive um série maníaco. Todo o bom série maníaco também traz consigo uma lista daquelas séries que, às vezes, quando mencionadas entre um grupo grande fingimos nem saber do que se trata – ou, dependendo do grupo, abraçamos à conversação com a face ruborada e um sorriso no rosto. Quem não nutre seus guity pleasures que atire a primeira pedra. E dentre as que constam na minha lista há uma comédia da qual não arredo pé: Vicious.

Vicious chamou minha atenção quando de seu anúncio, ao trazer uma dupla de atores veteranos de grande qualidade (e, não por acaso, knights): Sir Ian McKellen e Sir Derek Jacobi. A premissa, em si, parecia abusar de um nada seinfeldiano: um casal de homossexuais que vivem juntos há mais ou menos 50 anos, e que passam o tempo se bicando e conversando com seus amigos de longa data, têm sua rotina alterada com a chegada de um vizinho jovem (Iwan Rheon, aka Ramsay Snow/Bolton; ou Simon/Barry, de Misfits, se você preferir). A primeira temporada, curtinha como os britânicos gostam (a série é do canal ITV), teve apenas 6 episódios, no “longínquo” verão de 2013 e foi em seguida renovada para uma segunda temporada. Ainda tivemos um especial de natal, também em 2013.

Então, somente agora, quase dois anos depois da estreia é que Vicious finalmente volta de seu hiatus. Quem gosta da série com certeza estava com saudade da aspereza de Freddie (McKellen), das sutilezas de Stuart (Jacobi), das loucuras de Violet (Frances De La Tour), do deslocamento do Ash (Rheon) e, por que não?, da total falta de noção (senilidade?) de Penelope (Marcia Warren). Mas não pense que tudo são flores para Vicious. A primeira temporada foi, também, bastante criticada por conta de seu roteiro fraco, com piadas batidas, e uso de laugh tracks. Além disso, o fato de o casal homossexual interpretado por McKellen e Jacobi ser, realmente, estereotipado levantou criticismos e, até, acusações de homofobia. No entanto, mesmo com todos os esses contratempos, Vicious angariou uma porção de fãs e isto não tanto por conta de sua qualidade (se assim o fosse não seria um guilty pleasure, não é mesmo?), mas sim pela incrível química entre os dois atores veteranos, que faziam até mesmo algumas piadas ruins parecerem aceitáveis devido ao seu talento e grande timing para humor.

E Vicious voltou! E voltou apresentando aquele que talvez seja seu melhor episódio até aqui. Porém, sem mudanças drásticas, afinal, os motivos que levaram às críticas continuam lá. O texto não é nada criativo e abusa dos clichês. O plot central, por exemplo, parece ter saído de uma daquelas comédias de Sessão da Tarde: Violet é abandonada por seu novo marido, mas não sem antes mentir para sua irmã que estava feliz em um luxuoso apartamento com empregados. Para ajudá-la, Freddie e Stuart decidem se fazer passar por marido e mordomo dela, papel que cabe a um contrariado Freddie. As piadas são todas bastante previsíveis e clichês, mas sabe o que mais? Elas te fazem rir. A tentativa de Stuart de se fazer parecer hétero a todo custo ou o fato de Freddie, um ator aposentado, ter criado todo um background para seu mordomo são hilárias (mesmo a primeira brincando com a tênue linha da homofobia). Quem parece destoar do elenco é Iwan Rheon (que eu considero bom ator). Talvez por estar cercado por grandes nomes e não ter a mesma capacidade para tirar do pobre roteiro mais do que ele oferece, seu Ash parece tão perdido e sem propósito que o único momento em que faz rir é quando beija, de forma atabalhoada, Violet. Há que se ressaltar que desde a primeira temporada Ash sempre pareceu um personagem vazio, talvez justamente por não termos dele aquele background que Freddie, com razão, ressalta ser tão importante. Outro ponto a ser ressaltado nessa premiere é a troca de cenários, mesmo que tímida, que faz com que a série perca um pouco aquele estilo bottle episode, que pode se tornar cansativo.

A segunda temporada de Vicious está recém começando. E pelo que pude apurar ela será tão curta quanto a primeira, com apenas seis episódios. Também não espere grandes inovações, roteiros que levarão a premiações ou indicações para Emmys e Baftas. Aproveite apenas os vinte minutos de diversão que a série proporciona, e o privilégio de ver grandes atores esbanjarem talento e timing cômico. Afinal, para um guilty pleasure para quê mais que isso?

Últimas observações:

– A resolução do plot da Violet também beirou a vergonha alheia. Ou alguém achava, mesmo, que a irmã dela estava numa boa e só iria visitar a irmã porque a ama?

– Mas o momento vergonha alheia vai para a cena em que o dublê claramente substitui Iwan Rheon no salto mortal.

– Freddie: “Stuart, I would never think of you as my servant”.

Stuart: “Good.”

Freddie: “I think of you as my housekeeper.”

– Mason (Philip Voss) parece ser o único são em um grupo de malucos. E sua seriedade é realmente engraçada.

– Se bobear, Penelope passa a temporada toda trabalhando como empregada, coitada.

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