A culpa é da minha cunhada, que é de morte.
O segundo episódio de Magnífica 70 mostrou uma melhora interessante em relação ao piloto ao conseguir se afastar um pouco seu desempenho da coisa mecânica das atuações, além de ter apostado muito em personagens realmente interessantes (Vicente e, em menor escala, Dora e Isabel).
A utilização histérica do recurso dos flashbacks ainda prejudica bastante o andamento da trama. A segunda metade do episódio (que teve a duração assustadora de mais de uma hora) se arrastou muito mais que seu início e, muito embora a amarração com o processo de “criação” de Vicente (que coloco entre aspas, porque na verdade não houve criação) tenha sido bem feita, justificando e encurtando nosso conhecimento do próximo filme da Magnífica, não há como deixar de imaginar se era possível que isso fosse feito de um modo diferente.
Inclusive, com a exposição massiva do passado de Vicente, diretamente ligado à Isabel e Ângela, pouco sobrou a se conhecer sobre o personagem. Sabemos que ele é totalmente reprimido pelos valores morais que o cercam, enquanto sua mente mistura e, ao mesmo tempo, tenta separar os conceitos de “amor”, “desejo” e “obcessão”. A batalha entre a moralidade e a devassidão vista no episódio anterior se dão constantemente em seu interior, como uma dicotomia entre o bem e o mal e, embora ele esteja certo de que a negativa de ceder à tentação da irmã menor de sua esposa tenha sido a melhor decisão, ele carrega nos ombros a culpa que sente por sua morte. E tudo isso é lenha na fogueira para seu apego com Dora.
Em contrapartida pudemos ver um aprofundamento do personagem, especialmente no que diz respeito a suas relações e como elas o influenciam. Isso certamente nos dará o tom da jornada do protagonista e de trama por ele guiada. E, ainda nesse assunto, não podemos deixar de destacar a atuação de Marcos Winter, que consegue transmitir muito bem todas as nuances de Vicente em sua interpretação.
O segundo episódio de Magnífica 70 não só aprofundou seu protagonista, como deu espaço para Isabel e Dora, não só no sentido de entendermos os papeis que elas desempenham na vida de Vicente, mas como donas de sua própria história.
Para Dora vemos uma mulher que entende que pode fazer uso de sua sensualidade para alcançar os objetivos com Dario em relação ao dinheiro da Magnífica, que tem aquele cheiro de libertação para ambos. Ela é claramente o cérebro da dupla e entende que é melhor garantir o sucesso de seus planos que arriscar uma operação feita no calor da emoção.
Já em Isabel pudemos ver além de seu amor e ciúmes por Vicente. Ela é uma mulher formada em Direito e que deseja exercer a profissão, o qual não faz certamente pela influência (ou amarras) que o pai tem sobre o marido, como se fosse uma extensão da prisão em que vivia quando estava debaixo do teto do general. Ou seja, ela se agarrou ao casamento como um modo de se libertar, mas não alcançou seus objetivos.
Aliás, ficou claro que Vicente foi enxergado como um passaporte de libertação das garras do General Souto por ambas as irmãs. Não questiono de nenhuma delas os sentimentos ou desejos, mas é fato que o aparecimento do jovem contador surgiu como uma esperança de fuga daquele lugar. Mesmo Ângela e seu poder de manipulação do pai não tinha a vida facilitada.
E foi justamente esse o universo de disputas entre irmãs, culpas e repressões que inspirou o roteiro de Vicente e apadrinhado (depois de uma pressão básica) pelos cabeças da Magnífica, que veem nos talentos do censor em driblar os vetos da censura uma fonte de aumento de seus lucros, algo que certamente move exponencialmente os outros peões do jogo de xadrez dessa série. Algo que desperta nosso interesse pelo desenrolar da trama.
Relatório final:
– O flashback de Vicente passa-se no ano da morte de Ângela, datada pelo episódio anterior em 1968;
– Conhecido pelos registros históricos como “o ano que não acabou”, 1968 se destacou na História como um ano de grandes movimentações sociais por todo o mundo. Um dos eventos mais famosos desse período é o “Maio de 68” na França;
– No Brasil, ocorreu uma intensificação dos movimentos radicais contra o regime militar vigente, que desencadeou uma reação da linha dura (representada pela cena inicial do flashback de Vicente). Nesse mesmo ano, no dia 13 de dezembro, deu-se a promulgação do AI-5;
– Dona Sueli, chefe de Vicente, é uma clara alusão à Dona Solange, que foi diretora pelo Departamento de Censura Federal entre 1980 e 1984, e a figura mais conhecida desse departamento tão odiado pelos artistas da época. Ela recebeu até uma homenagem de Léo Jaime em sua canção Solange;
– Na cena inicial tivemos Isabel e Vicente tentando escolher um filme para assistir. Nisso tivemos menção aos célebres Ao Mestre com Carinho, O Poderoso Chefão e Eram os Deuses Astronautas?;
– Como contraste às personagens femininas donas de seu destino na série, tivemos demonstrações da visão sobre as mulheres da época. Do controle do general às filhas (achando um absurdo Isabel trabalhar como advogada) ao tratamento estúpido de Manolo com Dora, passando pela objetificação de Larsen para trazer espectadores para seus filmes;
– A esposa do General Souto (interpretada pela maravilhosa Joana Fomm e que definitivamente precisa de mais espaço) acusou o marido e passou por uma terapia de eletrochoque. Aposto que ela também está louca para fugir do homem;
– Frase inicial do texto baseada nos nomes vergonhosos dados ao roteiro de Vicente. Sério, não tinha coisa melhor que “A Culpa” e “Minha cunhada é de morte”?
Agradecimento especial aos leitores, que opinaram ou apenas leram e trouxeram movimentação para o Primeiras Impressões. Espero ter a presença e as opiniões de vocês, e prometo tentar enriquecer as reviews com todas as referências que minha paixão por História permitir. Também gostaria de agradecer àqueles que fizeram o maravilhoso paralelo com a obra de Nelson Rodrigues e sua forma sublime de falar sobre os demônios da classe média carioca (e que podemos transportar com segurança para os personagens dessa série). Espero poder contar com mais observações pertinentes e aguçadas de vocês, para engrandecer esse trabalho;














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