Um pouco de pele não faz mal a ninguém.

Os episódios das últimas semanas deixaram claro que Sarah Gertrude Shapiro conhece bem o seu público e sabe que é de shirtless que a gente gosta. Mas finalizamos o trio com um pré-finale bastante dark e difícil para os nossos personagens. Vamos, então, começar do começo.

3×06 – Transference

E eis que a trama do casal gay que estamos esperando desde que a versão com gêneros invertidos de Everlasting foi anunciada finalmente aparece em UnReal, mas a maneira como a série escolhe abordar esse assunto foi mais interessante do que eu esperava.

Guy e Warren foram personagens completamente inúteis e irrelevantes e isso não mudou agora. O repentino destaque que a relação dos dois teve nesse episódio é mais que suficiente para notarmos como essa história foi apressada e mal trabalhada, o que gera a sensação de forçada de barra para fazer o plot acontecer. Esse problema, porém, não anula a ideia realmente boa de Sarah Gertrude Shapiro, uma ideia que nos traz de volta à essência de UnReal.

Quando falávamos sobre a possibilidade do casal gay na série, a ideia era que dois competidores realmente tivessem interesse um no outro enquanto tentavam conquistar Serena na frente das câmeras. Mas a série tem sempre que nos lembrar de que não existe nada menos real do que reality TV, e foi exatamente isso que aconteceu. Guy admitiu sua bissexualidade (berrei com a negociação) em rede nacional em nome da fama e do sucesso, além das promessas de Chet e Quinn de que ajudariam sua carreira de chef. Warren, que usa chapéu de caubói para que possamos compreender que vem de um ambiente mais conservador, não concordou com a coisa toda, mas nem precisou. A trama se tornou maior do que ele.

UnREAL 3×06: Transference

Essa história faz referência à décima-primeira temporada de The Bachelorette, exibida em 2015, em que um suposto casal gay, Clint e JJ, veio explicitamente à tona em um dos promos. Durante o reality, os dois davam depoimentos do tipo “eu jamais imaginei que me apaixonaria por um homem aqui, mas tenho cada vez mais confiança no processo do programa e estou aberto ao fato de que estou mais próximo dele do que da fulana”. Clint, particularmente, parecia bem mais investido nesse tipo de declaração do que JJ, mas era algo de que ambos faziam parte, ficando conhecidos inclusive como #BrokebackBachelors.

Passado o fuzuê em torno do suposto romance, porém, a conclusão geral foi de que eles eram, de fato, heterossexuais, e estavam apenas fazendo cena, alimentando as sugestões da produção e pensando em quotes que daria a eles o destaque que queriam no programa. E é esse tipo de situação que UnReal tentou, de maneira um pouco apressada demais, criar na temporada. Foi divertido, mas a série exige um pouco demais quando quer que acreditemos na naturalidade de algumas das falas “incriminadoras”, como Guy dizendo “Você sabe o que eu sinto por você!” a Warren quando este interrompe o encontro com Serena. Ninguém fala isso sem perceber a conotação romântica da frase.

Jasper, por sua vez, segue seu caminho como wifey (amo que eles não mudaram o termo pra “hubby” ou algo assim) e faz a madalena arrependida, como previsto. Eu gosto dele, mas parece que falta alguma coisa. Talvez um pouco do clima de “Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu” que o bombeiro Owen segue nos deixando episódio após episódio. Owen não foi o astro de nenhuma trama em Everlasting, mas ainda assim sempre aparece pra marcar presença e nos lembrar dele. O final óbvio é Serena o escolhendo no fim da temporada, e espero que consigamos fugir disso.

UnREAL 3×06: Transference

A trama do pai de Rachel também acabou rendendo menos do que eu esperava. Eu sempre admirei muito a maneira como UnReal aborda as patologias da mente (e inclusive acho que o respeito e a fidelidade que a abordagem da série demonstra com essa temática em sua abordagem são muito subestimados), e isso não mudou aqui, mas minha maior dificuldade é entender aonde UnReal quer chegar com essa trama. A impressão é de que a ideia aqui é aproximá-la do Dr. Simon, o que considero um desperdício. Há tanto o que explorar na ideia do confronto entre uma vítima de estupro e o autor do abuso, que o caminho que a série escolheu desde que isso acontece lá atrás parece ter sofrido um desvio estranho.

Muito melhor que a relação de Rachel com o Dr. Simon é a relação entre ela e Serena. Adorei o nível de honestidade em que as duas chegaram nesse episódio. Ainda que Rachel continue sendo uma sem-vergonha manipuladora, com Serena é diferente de como era com os solteiros anteriores. Existe uma tentativa legítima de Rachel de manter viva a sororidade, e eu vejo muito mais da Rachel real com Serena (em contraposição à Rachel produtora) do que via antes, e gosto muito disso.

Outra relação que soa mais real é a de Quinn e Chet quando eles não estão transando. Ver Quinn encorajando o ex a erguer a cabeça e correr atrás das coisas foi realmente muito legal, e um dos poucos momentos em que senti empatia por Chet até agora. Já ficou chato elogiar nossa indicada ao Emmy e vencedora do Critics’ Choice Constance Zimmer, mas é incrível como, desde os momentos mais simples aos mais extravagantes, a atriz jamais perde uma oportunidade de brilhar quando o roteiro dá isso a ela.

Por outro lado, Jay está indo ladeira abaixo, e caiu no terrível plot do vício em drogas. Tenho horror e estou em pânico com o que pode vir dessa história. Será mesmo que precisamos dela? Espero chegar ao fim da temporada e poder vir aqui dizer que sim, precisávamos. A temporada está me enchendo de sentimentos conflitantes, mas minha fé ainda não foi abalada, e sigo confiando no melhor que sabemos que UnReal pode nos dar.

3×07 – Projection

UnREAL 3×07: Projection

“Ser mãe é padecer no paraíso”. E, com esse clichê brega, abrimos nosso texto sobre Projection, cujo plot mais interessante foi, sem dúvida, a reflexão de Serena sobre ser mãe.

Existe todo um estereótipo ligado a mulheres de sucesso, cujo senso comum tende a avaliar como aquelas que não têm potencial para ser mãe, não têm instinto materno. Isso, obviamente, é um absurdo. É apenas mais uma maneira de fazer com que mulheres se sintam mal por priorizarem suas carreiras, por enfrentarem um mercado dominado pelos homens, que não curtem essa concorrência e, ainda que inadvertidamente em alguns casos, reforçam a mentalidade patriarcal de que lugar de mulher é cuidando da casa.

Serena é, de fato, uma representante desse estereótipo, mas isso não tem a ver com falta de “instinto materno” ou inaptidão para ser mãe. Tem a ver com, como a série mesmo fez questão de frisar, a boa e velha falta de prática. Ora, se Serena não tem crianças à sua volta e está acostumada com a agressividade do mundo corporativo (especialmente para uma mulher), é claro que, num primeiro momento, a leveza e o tato com Riley não existiriam.

Mas como toda pessoa, Serena consegue pegar o jeito, com um pouco de prática, convivência e vontade de compreender aquele mundo. Foi isso que UnReal mostrou nesse arco e foi isso que Owen, de maneira superbacana e classuda, jogou na cara de Rachel, que ficou completamente desarmada em sua hipocrisia e até meio orgulhosa e emocionada com aquela situação.

UnREAL 3×07: Projection

Rolou uma forçada de barra com a menina quase sendo atropelada e ainda por cima salva por Serena, que quase se jogou na frente de um caminhão para salvá-la. Sim, rolou. Para deixar tudo ainda mais maravilhoso, a culpa foi toda da Quinn e sua ambição por manipular Everlasting? Sim, foi. Mas, a esta altura, já estamos nos acostumando com esses absurdos. O jeito é se entregar e se divertir quando eles acontecem.

Nas entrevistas promocionais desta terceira temporada, a própria Sarah Gertrude Shapiro adotou um discurso bem mais brando em relação a sua obra: sim, ela é inspirada pelo tempo em que Shapiro trabalhou em The Bachelor, mas ainda assim é uma ficção, há muito drama e muito exagero no roteiro. Saímos bastante daquela ideia da primeira temporada, quando a série vendia “vamos contar tudo sobre como são os bastidores de um reality show” e fomos para um “ok, a série é inspirada nisso, mas não é beeem assim”. Isso não anula a crueldade e a manipulação de que todo reality sem dúvida faz uso para ser bem sucedido, mas agora cabe a nós compreender que existe um filtro a ser aplicado aqui, e absurdos como esse vão acabar acontecendo.

Seria melhor se a série não precisasse fazer uso de recursos tão exagerados para contar sua história? Sem dúvida, mas vamos trabalhar com o que temos e aproveitar o que há para ser aproveitado. Dentro do possível, UnReal lançou uma pauta bacana em sua trama e isso é importante reconhecermos. Faltou alguma coisa, claro. Esse assunto não foi tão bem tratado como a violência policial contra negros ou como a delicadeza que envolve as patologias da mente. Mas isso não invalida sua abordagem.

A eliminação de Zach acabou saindo melhor do que a encomenda. Ri muito da “United Nations of Douche” e Quinn nos representou quando deixou claro que ele estava certíssimo no que dizia.Quinn também nos representou quando ficou impressionada com o eliminado, dizendo “onde isso estava durante toda a temporada?” Às vezes, um participante planta brilha às vésperas de sua eliminação e ficamos pensando “onde estava essa pessoa a temporada inteira?” Foi exatamente a esse fenômeno comum em realities a alusão feita aqui, e é muito divertido ver a série brincando com coisas que nós, fãs do gênero, sabemos que acontecem.

UnREAL 3×07: Projection

Falando em reality TV como gênero, a conversa que Quinn tem com Fiona e que se mostra um choque de realidade pra cima da produtora executiva é maravilhosa! Quinn pode ser a fodona que quiser, mas no fim das contas, ela ainda está produzindo apenas TV de quinta categoria, e jamais se juntará aos nomes grandes e realmente respeitados dos shows de TV com profundidade enquanto ficar só nisso. Por outro lado, a confiança que ela exala é um exemplo para todos nós de paixão e de autoconfiança. Ok, Quinn sabe que o show é merda. Mas ela também sabe que ELA é fantástica, e tudo que o show conquistou foi graças à sua competência, que não deve ser subestimada. Foi um duelo amigável interessante o que as duas travaram, e mostrou muito do que a própria TV pensa sobre si mesma.

Agora, sabemos que Gary está preparando seu contra-ataque e que Quinn pode sofrer um duro golpe num futuro próximo. Estou preocupadíssimo com ela enquanto o próximo episódio se aproxima. Ok, ela não se ajuda nem um pouco tratando Chet daquela maneira, mas a narrativa não caminha para um rompimento da boa relação entre os dois, muito pelo contrário. Aguardemos.

3×08 – Recurrent

UnREAL 3×08: Recurrent

Não precisei me preocupar por muito tempo: a iminente traição de Chet se revelou um fracasso, ele sente afeto demais por ela (e vice-versa) para que esse absurdo acontecesse. Talvez o único momento em que Quinn me emocionou de verdade numa cena foi a confissão de sua senha. A terceira temporada caminha para fazer com que nós, espectadores, comecemos a shippar Chet e Quinn de novo, e confesso que essa ideia está mais interessante em minha mente agora do que estaria há 1 mês. Mas, ainda assim, prefiro que não aconteça.

A semi-traição, porém, rendeu ótimos momentos envolvendo ninguém mais e ninguém menos que Madison, com todos os seus recordes de falta de noção sendo batidos. Particularmente, é de se estranhar um pouco que Madison, em seu terceiro ano naquele set, não faça nenhuma ideia da regra básica do jogo: não destruir a imagem do protagonista da temporada. Por outro lado, a pressão que foi posta nela e a insegurança que ela vinha sentindo por ter feito a Xtina em The Voice e perdido todos os seus protegidos antes do F4 foram suficientemente exploradas para que o erro tenha ficado minimamente crível.  E foi bem engraçado ver absolutamente todas as pessoas com cara de WTF??? Enquanto Madison se divertia e se orgulhava da bomba atômica que estourou no set.

O erro de Madison apenas evidenciou algo bacana sobre o passado de Serena. A empresária é gente como a gente: uma mulher insegura e maltratada, que envolveu-se com um boy lixo e tornou-se submissa e emocionalmente dependente dele, até ser desprezada e passar a agir como uma maluca obsessiva stalkeando o ex como se não houvesse amanhã. Quem nunca, né verdade?

É impressionante pensar que Serena, tão centrada e inteligente, tenha de fato se desequilibrado tanto ao ponto de visitar no trabalho um homem que ainda nem tinha tido a dignidade de pedi-la em namoro, apesar de viver saindo com ela. A pobrezinha ficou tão desesperada quando ele decidiu ignorá-la, que ativou o modo psicopata e perseguiu George até ele pedir uma ordem de restrição contra ela.

Vimos muito pouco de George, mas, ao meu ver, suficiente para conseguir enxergá-lo muito claramente como alguém que abusaria ou abusava psicologicamente de Serena. O “tratar como louca” é o sintoma mais evidente desse tipo de abuso. George não se preocupava com o quão machucada Serena estava, ao ponto de chegar a fazer tudo o que fez. Ele não tinha interesse no ponto de vista dela, no sofrimento dela. Ele só se importava consigo mesmo, o que é evidenciado pela frieza de George ao praticamente expor Serena como se ela fosse a Lorna Morello (vejam Orange Is The New Black para esta referência maravilhosa) de Everlasting.

Foi bonito o discurso de Quinn para Serena e o apoio que ela e Rachel deram à protagonista, por mais que haja interesse próprio na saúde mental dela para que Everlasting continue sendo gravada. Esse momento nos ensina o que é sororidade, e como é importante que as mulheres tenham essa mentalidade de autoproteção quando necessário.

E aqui era realmente necessário, pois Owen e Jasper ficaram bastante abalados com o acontecido, principalmente o segundo. August, desde o começo, evidenciou que não se importava e julgou mais George do que Serena, mas os demais caíram direitinho na sabotagem. Se bem que Alexi não parecia estar nem aí pro que estava acontecendo, como aliás vem sendo de praxe nos últimos episódios.

UnREAL 3×08: Recurrent

Não vi muito sentido em Rachel sentar com Jasper para expô-lo, e tampouco achei que dessa conversa saiu algo que possa expô-lo como um merdinha, a não ser que o show decida incluir Rachel em seus episódios (recurso que de forma nenhuma é utilizado em realities para construção de imagem e de narrativa). Acho que a ideia aqui era só dar ao espectador um reforço da ideia de que Rachel e Quinn são as rainhas da manipulação e vão distorcer tudo para conseguirem o que querem.

August, espertíssimo, disse tudo que Serena queria ouvir para conquistá-la e permanecer no programa. Eu não compro o que August vende. Ele é um cara ok, mas esse personagem “santo”, que preza pela gentileza, não me parece a pessoa que praticamente chantageou Quinn para permanecer no programa há alguns episódios.

Ainda bastante alheio a Everlasting, Alexi revelou o que todos nós, menos Jay, já sabíamos: ele é o boy lixo russo da parada. Tratar o ato romântico de Jay como ele tratou foi de uma insensibilidade e grosseria incríveis. Ok que Jay, assim como Serena, fez a pisciana e já quase pediu em casamento depois de uma convivência mínima. Mas é uma atitude linda e que requer muito carinho e afeto para ser dispensada grossamente daquela forma. Pobre Jay, fiquei com pena. Ele está carente após o fim do seu relacionamento, e faz todo o sentido que queira suprir isso aqui, mas realmente se colocou numa situação muito ruim, que jamais terminaria bem.

Mas amo que um Jay machucado é um Jay que também entra no jogo de manipulação e elimina sem dó o participante que não o tratou bem. Serena, já extremamente vulnerável, chegou a ser engraçada no momento “ai não sou obrigada a lidar com isso, elimino Alexi, tchau”.

Assim, enquanto Serena se divertia com August (o terceiro dela nessa temporada, que rainha!), Rachel, também vulnerável, tentou aliviar a tensão com o novo psiquiatra, mas, para a minha surpresa, ele não aceitou e mostrou total profissionalismo e ética, algo bem raro em UnReal. Assim, restou a ela Alexi, em um momento “fechou o círculo” que só machucou uma pessoa: o próprio Jay, repetidas vezes.

Mas a expectativa agora é: o que o novo time de vingadores Chet e Quinn planejará para derrubar Gary de uma vez por todas:? Não sei, mas estou ansiosíssimo para descobrir. Vejo vocês no finale, pessoal!

UnREAL 3×08: Recurrent

Observações da United Nations of Douche:

– Asa foi internado, fugiu, voltou pra casa e Rachel novamente confrontou a mãe. Triste, diz muito sobre como é difícil superar certas doenças, expõe como vítimas de estupro são tratadas, mas narrativamente essa história continua não indo a lugar algum.

– Eu não poderia me identificar mais com a Revenge de Jay, que parece bem-sucedida à primeira vista, mas acaba saindo pela culatra e destruindo mais ainda a pessoa que foi machucada pra começo de conversa. É um resumo perfeito de todas as minhas tentativas de me vingar na vida.

– Quinn parabenizando a camera girl por ter filmado uma cena de corpos masculinos com competência que homem nenhum teria atrás das câmeras foi um daqueles momentos pelos quais assisto a UnReal. Empoderamento na veia! A primeira coisa que veio a minha mente foi a falta de pudor que todo cameraman tinha nos programas como o do Gugu nos anos 90, em que a câmera praticamente focalizava o útero das dançarinas no palco. UnReal não tem medo de fazer o jogo virar com estilo e dar um tapa de luva no “profissionalismo” masculino no processo. Porque UnReal é assim, tudo vira crítica, e é por isso que a gente adora!

REVISÃO GERAL
Nota:
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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.
unreal-3x06-08-transference-projection-recurrentNão podemos ignorar os absurdos aqui e ali, como o quase atropelamento da criança, mas, em geral, UnREAL continua divertida e crítica na dose certa. Pra quem assiste sem grande expectativa, seguimos satisfeitos.