Desde o fim da terceira temporada de UnREAL (que, aliás, parece ter sido ontem), a expectativa para a continuidade e encerramento estava nas alturas, graças principalmente ao material promocional divulgado sobre o derradeiro ano da série. Nele, a promessa era simples: uma nova Rachel, loira, totalmente repaginada, seria a suitress da vez, trazendo inclusive de volta vários homens que já participaram do show para disputá-la.
A premiere da quarta temporada já desmente essa ideia, deixando claro que Rachel continua sendo a produtora de sempre, apenas mais loira e aparentemente mais cruel. Quando Quinn diz, na promo, “Enough with being a producer, you’re the suitress”, a fala está longe de poder ser levada ao pé da letra, e por isso jamais poderia ter sido retirada de contexto como foi.
Isso não significa, porém, que Rachel não esteja, na prática, tentando bancar a suitress. É isso que Quinn percebe: que, da escolha do elenco às twists planejadas para controlar as eliminações, o que Rachel está fazendo é a busca por um companheiro. Para tanto, ela chamou os rapazes que tinham mais química com ela ou que ela mais admirava, criando, junto com a outra metade do elenco – feminina – uma seleção de Everlasting All-Stars para ninguém botar defeito.
A esse conceito está ligada uma série de novas promessas descumpridas, a começar pelo conceito de All Stars que UnREAL tenta nos fazer engolir: um bando de whos de temporadas de Everlasting anteriores ao começo da série, que, pra nós, não têm nenhuma característica que os diferencie do elenco de qualquer outra temporada de noobs que assistimos até agora. Uma das principais características de temporadas All-Stars é a chamada recency bias, ou seja, a reconvocação de participantes das 3-4 temporadas imediatamente anteriores porque é delas que o público lembra, o que aumenta a probabilidade de fidelização de audiência. Desta forma, a série tinha a faca e o queijo para trazer de volta Anna, Beth Ann, Jasper ou até Adam Cromwell, pessoas que nos fariam de fato sentir que estamos vendo uma temporada All-Stars. Mas não foi o que aconteceu.
O retorno de Maya e Roger, apesar de serem personagens fracos para receberem o título de “All-Stars”, foi uma ideia bem-vinda, principalmente por abrir uma série de discussões sobre abuso que funcionam muito bem na série, mas a execução acabou sendo bastante ruim. Houve toda uma expectativa para algum tipo de confronto interessante em Everlasting, e o resultado foi extremamente anticlimático. Ficou até feio para a série a forçada que deram para vilanizar Maya, especialmente depois da participação de Faith, que adorei rever, mas só encheu mais ainda essa trama de buracos.
Um pequeno detalhe que divertiu muito mais do que todos os nomes chamados para retornar ao reality foi a “convenção” de fãs de Everlasting que se juntou em um bar para assistir ao icônico episódio da queda de Maya. Ver pessoas fazendo cosplay de Anna noiva, Faith caipira e August hippie foi um toque divertidíssimo para referenciar os famosos fandoms malucos de shows de TV.
Outra ótima promessa da série tem a ver com a ideia de que a temporada seria muito mais difícil de produzir e manipular, já que um elenco de All-Stars já conhece o programa, é mais safo e entende melhor o que fazer para usar as câmeras a seu favor. Isso acaba não acontecendo. Rachel faz gato e sapato dos homens e mulheres do show, todos com personalidade fraquíssima e que caem em absolutamente tudo que ela arma. A única diferença aqui é que Rachel está claramente mais cruel e desapegada, muito diferente da Rachel que sempre entrava em crise e sentia culpa pelo que fazia.
De onde paramos

Paradoxalmente, Rachel começa a série totalmente carente e desesperada por homens, morrendo de ciúmes das participantes e tentando concorrer com elas. Essa ideia faz todo o sentido quando pensamos no ponto em que a terceira temporada nos deixou: com Serena, após seguir o conselho de Rachel, decidindo que era uma mulher forte e independente, e não precisava se forçar a se adaptar a homens caso eles não correspondessem à sua concepção de par ideal, recusando portanto os dois homões da porra que estavam caindo aos pés da suitress na grande final. A cena final de Serena, recebendo milhares de mensagens de homens por aplicativos enquanto se sentia deprimidamente solitária dentro de sua luxuosa limusine, foi um dos maiores acertos de toda a série (aliás, o finale da terceira temporada é, com muita folga, o melhor season finale da série, e quase sinto que seria melhor se tudo tivesse terminado ali).
Faz sentido, portanto, que a situação de Serena tenha despertado em Rachel o medo de se tornar a suitress do ano anterior: bem-sucedida, mas para sempre sozinha. UnREAL poderia ter feito um elo melhor entre as temporadas para justificar a transformação, para que essa análise soasse como uma ideia mais embasada e menos como um grande esforço de compreender uma forçada de barra da série. Mas é uma boa maneira de entender a maneira meio patética como a personagem se desespera para conquistar os homens à sua volta, indo ao outro extremo do conselho que havia dado a Serena.
A busca de Rachel por homens cai por terra graças ao seu envolvimento com Tommy Castelli, especialista em game-shows convocado por Rachel para estruturar a primeira metade dos episódios de Everlasting All-Stars, que elimina uma pessoa por competições físicas. Eu gostei mais dessa estrutura do que esperava, confesso, mas ela se desgastou rápido, já que a cada nova prova havia uma sabotagem para mandar alguém específico para o hospital e eliminar a pessoa por medevac. Na vida real, uma série dessas não duraria um mës por falta de segurança. Na primeira temporada, as críticas às manipulações, às roubalheiras e ao machismo que a série direcionava a reality shows eram, até certo ponto, verossímeis, mas agora são apenas chacota.
O problema de Tommy é que já vimos essa exata história antes, com Coleman, e já sabíamos que, quando Quinn decidisse, a brincadeira acabaria. Por outro lado, todos os pretendentes de Rachel ainda foram muito melhores do que o insuportável do Jeremy, e se há um ponto positivíssimo da quarta temporada foi a eliminação sumária desse mala, que só servia para dar uma injeção de culpa em Rachel quando isso convinha ao roteiro.
Personagem-ícone faz assim

Melhor do que todo o elenco All-Stars foi a maravilhosa Candy Coco, a stripper que foi introduzida como superfã de Everlasting, na sacada mais divertida da temporada. Ver Candy tentando fingir que conhecia o programa para justificar sua inclusão no elenco era muito maravilhoso. O arco me lembrou a Casa dos Artistas 3, em que, para tentar competir com o fenômeno Big Brother, com elenco anônimo, Silvio Santos decidiu que cada “artista” entraria na casa acompanhado um fã seu, que também seria participante, e eu só conseguia imaginar como alguém tinha a cara de pau de aparecer na TV se dizendo fã da Carola Scarpa.
Candy foi ótima em todos os sentidos: era, de fato, uma participante inteligente demais para cair nas manipulações da produção, mas, ao mesmo tempo, era totalmente mercenária, aceitando agir da forma como todos queriam desde que ganhasse contrapartidas, como um celular ou um papel de destaque em uma série roteirizada. Para completar, não levava desaforo pra casa, armava barracos mil e usou sua profissão como trampolim para um discurso feminista bastante crível, sendo de fato uma das poucas mulheres do elenco que não entrava em competições tacanhas com outras mulheres. Se eu fosse espectador de Everlasting, teria torcido como nunca para Candy ganhar o milhão – de preferência sozinha.
O fim das rainhas e dos plebeus

A tensão entre Rachel e Quinn para disputar quem mandava em Everlasting foi interessante de acompanhar, mas melhor ainda foi ver a maturidade com que Quinn foi tratada pelo roteiro. Ela simplesmente não estava mais disposta, e abriu mão do show quando viu que Rachel estava fora de controle. Gostei muito dessa decisão, e achei que a trama de Quinn, cujas realizações pessoais foram aos poucos pesando mais do que o sucesso profissional na série, se fechou de maneira satisfatória, mesmo com alguns caminhos tortos. Chet acabou conseguindo se redimir, e funcionou bem como o apoio da rainha nessa jornada, sem ganhar qualquer trama solo. Mais uma decisão acertada.
Porém, esse foi apenas um acerto diante de muitos erros de finalização da série. Por exemplo: o que Jay fez para merecer o final mais feliz de todos? Por que a maravilhosa Madison – equivocadamente apagadíssima durante toda a temporada final – foi a única do nosso elenco fixo a se dar realmente mal no fim da série? Erros como esses dão uma sensação muito clara de que a produção simplesmente não conhece o público da série. A última pessoa por quem torcíamos era Jay, o maior hipócrita dos bastidores de Everlasting, e a última pessoa que achávamos que merecia punição mais pesada que todos os demais era Madison.
Mas decepcionante mesmo foi ver que, no fim, a série apelou novamente para uma crise de culpa de Rachel para livrá-la. Àquela altura, eu já não estava mais torcendo por ela, e adoraria que ela terminasse a série pagando pelo que fez, e quem sabe finalizasse sendo solta na última cena, anos depois, num momento tanto literal quanto metafórico de libertação.
> 3 SÉRIES IMPERDÍVEIS DA NETFLIX!
O que podemos dizer sobre o fim de UnREAL é: a série tentou. O esforço para nos entreter é nítido, e por vezes bem-sucedido, e eu adorei ter acompanhado uma temporada All-Stars de Everlasting como a derradeira do show. Era o último conceito que faltava ser explorado, e que bom que foi. UnREAL teve um importantíssimo papel crítico na TV sobre a própria TV, e deixa um legado que considero bastante digno. Porém, as ideias já estavam se esgotando, e chega a ser um alívio ver que, por mais brega que seja a cena do estúdio em chamas, finalmente podemos dizer, de forma igualmente brega, que Everlasting, como toda narrativa de reality, teve o mesmo destino que as histórias de amor que vendia: não foi imortal, posto que era chama, mas foi infinita enquanto durou.






















