Obrigado pela oportunidade, Quinn!
Os dois últimos episódios de UnReal se complementaram de maneira interessantíssima, especialmente no que diz respeito à relação de Quinn com a emissora e, especialmente, com Madison, uma parceria que nos rendeu o ponto mais alto da temporada até aqui: uma sapateada de salto agulha na cara de Gary. Vamos, então, começar discuindo Confront, que nos lançou as iscas e ingredientes para o clímax dessa trama, que foi consolidado em Gestalt.
3×04: Confront

Começamos este episódio diretamente de onde o anterior parou: o man-bun-gate, ou, como Everlasting decidiu chamar, man-bun inquisition. Acabei me decepcionando e sentindo que a história rendeu bem menos do que deveria. Serena praticamente não deu importância para o ocorrido, e o show em si colocou dois personagens com os quais não nos importávamos absolutamente nada para brigar pelos “louros” do ataque.
Zach como culpado foi uma decisão que não favoreceu absolutamente nada a narrativa da temporada, porque o personagem não nos deu nenhum tipo de contribuição até agora, e isso não mudou depois do incidente. Houve uma leve insinuação de que a câmera de segurança pode ter sido adulterada, mas creio que isso teria sido explicado a nós se fosse o caso.
A situação tampouco fez diferença para a narrativa de August, que, com ou sem man-bun, teria sido “negociado” com Serena e posteriormente desmascarado por Rachel. Acabou sendo apenas uma maneira de se livrar de Billy, e se tivermos que eleger um ponto alto dessa história, sem dúvida foi Serena sendo dona e mostrando como se elimina participante mala em um reality show.
Mas, se Serena deu um passo para a frente nesse episódio, acabou dando dois para trás em seguida, já que pela primeira vez caiu como uma pata na manipulação de Rachel e Quinn, que, para não perderem o controle da protagonista após a intervenção da repórter, criaram um elaborado plano de good cop, bad cop que só aumentou a confiança da loira em Rachel.
A repórter, aliás, foi um dos maiores absurdos desse episódio. Nenhuma fome de Emmy justifica o risco de colocar uma jornalista dentro do set após tudo o que já se passou nesses bastidores. A última jornalista que entrou para ver Everlasting de perto precisou ser assassinada, e menos de um ano depois, Chet – A PESSOA QUE OBRIGOU TODOS A FAZER UM PACTO DE SILÊNCIO COM SANGUE – age dessa forma? Eu não sei se o roteiro está subestimando a nossa inteligência ou simplesmente não sendo inteligente sem perceber, mas o fato é que a presença de outra jornalista como uma perturbação narrativa é, além de falta de criatividade, difícil de engolir.

Ainda sobre Serena e Everlasting, o pretendente da vez foi Jasper, que protagonizou uma cena pra lá de romântica com nossa princesa. Foi bonito, mas a sensação é de carência de desenvolvimento, já que, como sabemos da aposta, não temos como acreditar plenamente no romantismo proposto. Essa dúvida acaba prejudicando nossa imersão na cena, e o efeito é o pior possível: ficamos no meio do caminho, nem suspirando de amor por acreditar plenamente nas boas intenções do cara, nem indignados com seu oportunismo.
Alexi também foi um grande nome do episódio, mas pelos motivos errados. A ideia do romance com Jay parece ter sido completamente descartada de repente, e decidiram investir no “lado hétero” do russo novamente. Era esperado que a série fugisse do clichê e, como já havíamos imaginado na review anterior, retratasse Alexi como bissexual. Entretanto, nesse episódio, foi como se as cenas de sedução entre o participante e o produtor nem tivessem existido.
Em vez de manter a linha da sexualidade fluida de Alexi, caímos de para-quedas em um novo arco: seu vício em cocaína, com direito a Jay como fornecedor. Aqui, novamente encaramos um problema de desenvolvimento. Jay é frequentemente usado como uma bússola moral dentro do ambiente tóxico e repugnante de Everlasting, mas a série não consegue se decidir quanto a isso: ora o produtor é moralista e se esforça para fazer tudo certo, ora é inescrupuloso e chega a cometer atos absurdos como esse por mera ambição. Como Jay é um personagem bastante secundário, não temos tempo com ele suficiente para compreender seus conflitos como facilidade como acontece com Rachel. Complicado.

Mas não menos complicado do que a decisão de Rachel de confrontar o homem que abusou dela na infância. Fiquei surpreso com o quão fundo a série decidiu mergulhar nessa trama. O diálogo entre os dois foi denso, complicado e cheio das clássicas afirmações que culpam a mulher por ser estuprada. Foi um momento difícil de assistir, até o ponto em que o pai de Rachel entrou na história. Tudo indica que isso ainda irá crescer, e que esse personagem ganhará importância, assim como os traumas da nossa protagonista.
Se Quinn vem falhando cada vez mais na sua tarefa de ser “mãe” de Rachel (“Quero que você melhore, mas não agora, né, dá pra esperar a temporada acabar!” foi uma das falas mais absurdas já presentes na série), ela está ótima orientando Madison. Seus conselhos para a ex-estagiária estão perfeitos, e eu espero mesmo que fique claro quem é o real inimigo aqui, e que as mulheres dessa série parem de se destruir e chutem os homens que a desvalorizam onde mais dói. A julgar pela aventura de Madison no computador de Gary, esse desejo não deve demorar a ser atendido. Aguardemos.
3×05: Gestalt

Gestalt foi a prova definitiva de que as partes que compõem Everlasting este ano são 5: Serena, e quatro rapazes relevantes girando em torno dela. Sim, isso significa que Zach, Warren e Guy não irão acontecer, esqueçam.
Jasper finalmente “ganhou” sua aposta – ou assim ele pensou – e foi para a cama com Serena, e UnReal segue não nos dando quase nada da perspectiva do britânico para que saibamos se estamos diante de uma narrativa de redenção ou não. Levando em conta que Jasper não foi cortado nesse episódio, a ideia da série é fazê-lo render mais, e isso deve significar que ele fará a Madalena arrependida em breve.
O mais interessante da trama de Jasper foi constatar Serena como a suitress mais interessante de UnReal até agora. O fato de ela levar a sério a ideia de encontrar o amor é, sim, uma grande fraqueza que a torna manipulável às vezes, mas, de maneira geral, Serena está dando trabalho. Desafiar Quinn e Rachel recusando-se a cortar alguém é uma rebeldia sem precedentes, mas, como se não bastasse, Serena ainda conseguiu, ao mesmo tempo, humilhar Jasper contando sobre o jóquei e fazer com que as duas ficassem impressionadas com ela e deixassem pra lá a tentativa de controlá-la. Silenciar Quinn e Rachel não é tarefa fácil, e é ótimo ter uma suitress que consegue desta vez.

August segue mostrando as garras a cada semana e deixando claro que ainda vai dar trabalho. Ele pode até ter caído na armação de Rachel com a guia da selva, mas acabou sendo quem riu por último, já que salvou-se da eliminação que a produção havia tramado pra ele. Quinn que se cuide.
Owen, enquanto isso, continua se fazendo presente em todas as tramas do reality, mesmo quando elas não têm nada a ver com ele. Como disse a leitora e amiga Manu Melo, Owen passou esses dois episódios na vibe “eu estava aqui o tempo todo, só você não viu”, e UnReal está estabelecendo o bombeiro como o provável grande amor que Serena encontrará no fim da temporada. Pra isso, porém, ele ainda precisa superar seus traumas, preconceitos e inseguranças em relação ao feminismo, e espero que a série se preocupe em explorar melhor essas questões no futuro.
Correndo por fora de Everlasting está Alexi, e sua trama literalmente pesadíssima. Eu juro pra vocês que se Jay soltar UMA LINHA de discurso moralista em qualquer episódio futuro desse série, vou xingar muito. Mesmo eu não me importando absolutamente nada com o namorado do produtor, já morro de pena. A transformação de Alexi foi tão abrupta que beira a comédia, com o russo passando 90% do episódio travadíssimo. Tá aí um candidato à tragédia fatal no set desta temporada.
E já que fizemos a transição para os bastidores, Rachel trouxe uma verdadeira bomba-relógio para o set desta vez, que atende pelo nome de pai. Essa trama está banhada em Freud em níveis sub-oceânicos de profundidade, com direito a mãe sendo vilanizada pela filha e pai banana sendo controlado pra lá e pra cá pelas mulheres da família, coitado. A única coisa que eu espero é que não seja o velho que se torne o defunto da vez, porque Rachel vai ficar surtada por umas doze temporadas se isso acontecer.

Jeremy segue desempenhando sua única função na série (além de assassinar pessoas a sangue frio e depois culpar a mulher por isso): chegar perto dos homens da vida de Rachel pra mandar o seu famoso “depois não diga que não te avisei”. Dr. Simon, a vítima da vez, parece ser a pessoa que mais precisa de tratamento. O homem fissurou em Rachel de uma forma quase doentia, ao ponto de colocar câmeras no caminhão para espioná-la. Gosto da maneira como a série aborda vícios e patologias da mente, mas pra sair algo de bom desse Big Brother, só mesmo se rolar um paredão triplo com dupla eliminação.
É claro que vamos deixar por último o mais importante: o TIRO NA FUÇA que Gary tomou da nossa rainha Quinn na frente de todo o elenco e equipe de Everlasting. Eu assisto UnReal é para ver esses momentos, gente!!! Chet, claro, viu de camarote a belíssima demonstração de que sua showrunner tem muito mais culhões do que ele, e sua primeira reação, claro, foi achar que ela estaria disposta a transar só porque ele queria. Como muitos homens, Chet faltou algumas aulas da disciplina “elas não são obrigadas”, e ainda levou um belíssimo tabefe de luvas ao ter que escutar “você escolheu a mais fácil, querido, agora vai lá”. Imperatriz de seriado faz é assim, e fico feliz por ver Quinn e Madison finalmente se unindo pelo bem comum em vez de caminharem para a destruição mútua.
Se o gestaltismo defende que o todo é mais do que simplesmente a soma das partes, uma peça fundamental para a sapateada de Quinn nesse episódio foi nossa maravilhosa Madison e suas habilidades hackers. Mas gostaria de saber se o alerta laranja de vocês também acendeu depois de tudo o que houve.
Sabemos que Quinn impõe a Rachel uma relação abusiva (e usa o desenvolvimento profissional como desculpa para tratá-la mal), e já comecei a sentir sua recém-formada conexão com Madison indo pelo mesmo caminho. O problema aqui é que já notamos que a garota tem uma tendência imediatista, e se ela não começar a sentir resultados sendo produzidos em seu benefício, pode ser que a guerra contra Gary seja deixada de lado para se tornar uma guerra civil.
O futuro é preocupante, e que bom que é o caso, porque, como UnReal já nos ensinou bem, o que importa pra gente é entretenimento. E já é seguro dizer que a terceira temporada está nos entretendo muito bem!
















