Quando o preconceito está nos olhos de quem vê.
A frase acima é absolutamente perigosa, porque muitas pessoas a utilizam como muleta para tentar disfarçar ou amenizar os próprios preconceitos, responsabilizando os demais ou “a chatice da sociedade” por suas falhas em vez de fazer uma autocrítica.
Entretanto, decidi ser ousado e abrir a review desta maneira porque algo mágico aconteceu. UnReal me fez feliz e se recusou a transformar Beth Ann num estereótipo ambulante, tornando a discussão do racismo algo muito mais complexo e interessante do que o show poderia mostrar.
Interessantemente, a série pegou um gancho em uma recente pesquisa realizada pela CNN em 2015 sobre a bandeira dos Estados Confederados: 57% da população considera a flâmula um símbolo do orgulho sulista, do fim da guerra civil e da união posterior à derrota do sul escravista, derrota que determinou o fim da escravidão no país. É um resultado consideravelmente maior que os 33% que enxergam tal bandeira como um símbolo do racismo. A última pesquisa havia sido feita em 2000, com 59% dos entrevistados afirmando que a bandeira era apenas símbolo de orgulho sulista.
É claro que há muita controvérsia nessa questão, já que a maioria da população é branca e, entre os negros, 76% consideram a bandeira um símbolo do racismo. Ativistas como Ruby lutam, inclusive, para que ela seja banida de eventos públicos no país em respeito aos grupos étnicos que sofreram com a escravidão.
O problema é que Beth Ann deixou muito clara sua admiração pelo novo príncipe de Everlasting e o quanto ela se preocupava em não magoá-lo. Podemos nos chocar: a dona do biquíni estampado com a bandeira dos 13 estados confederados do sul não é a racista que achávamos que era. É claro que ela não está acostumada a lidar com a cultura negra em razão do lugar de onde vem, e por isso comete certas gafes como dizer “your people”. Mas está evidente que Beth Ann não tem todo esse problema com os negros que Rachel havia afirmado que tinha. Ela estava ciente da controvérsia causada pelo símbolo e não tinha a menor intenção de ofender alguém… até Rachel, claro, provocá-la e coagi-la a fazê-lo.
Curiosamente, Beth Ann conseguiu virar a maré a seu favor ao arrancar o biquíni e ainda ganhar um ato de cavalheirismo de Darius no processo. Ao meu ver, a personagem é fascinante, e roubou totalmente a cena de Ruby (e de todas as outras meninas) no processo, ao ponto de eu nem ter certeza de que foi mesmo a emissora que obrigou o quarterback a manter a loira no elenco. Ruby é admirável por dar voz àquilo em que ela acredita, mas acabou não surpreendendo como a rival havia feito, e ao meu ver ficou para trás na corrida por conta disso.
A não ser que contemos com o fato de que Jay, também conhecido como a beesha produtora recalcada, manipulou sua protegida para que ela não armasse barraco. O interessante desse personagem é o fato de ele representar duas minorias ao mesmo tempo, e portanto carregar nas costas o maior peso possível em termos do tratamento que dá às participantes.
Apesar disso, ainda tenho dúvidas quanto ao idealismo de Jay. Ele não era assim antes, e seu principal interesse era autopromoção no próprio show e na emissora (ao ponto de ter puxado o saco do pulha do Chet por um tempo para tentar crescer lá dentro) e não consigo acreditar muito nessa onda moralista. Mas foi interessante ver Rachel questionando justamente o que eu havia questionado na review anterior: “É recalque meu amô?”. Também gostei da resposta “A sra. fica focando em mim enquanto azinimyga de verdade estão fazendo a festa”.
Sendo Jay confiável ou não, o fato é que ele mexeu com a cabeça da protagonista suficiente pra ela criar coragem e fazer um big move pra cima de Quinn e Chet. Aplaudi de pé e confesso que me iludi achando que ia dar certo. Mas, assim como Rachel, levei um blindside com o surgimento de um novo personagem – que me parece uma espécie de versão masculina de Rachel.
Acho que isso tem potencial para ser um enorme acerto ou um grande erro. Não sei se eu precisava de um novo chefe a esta altura, principalmente um chefe que favorece as ideias de Chet. Me parece um retrocesso dar poder a Chet novamente, e espero que isso não dure.
O mais interessante dessa resolução é que vejo nela uma crítica muito clara ao ambiente de trabalho machista que domina as emissoras de TV. É claro que Gary ia preferir dar o cargo a um brother vindo sabe-se lá de onde do que a uma mulher, e é claro que a opinião do único homem envolvido na produção seria a mais favorecida pelo novo manda-chuva, né verdade?
Aliás, vale entrar na sessão “furo do episódio”, que pelo visto vai aparecer em toda review: a sequência que culminaria na apresentação do novo chefe começou com Gary descendo a lenha em EverBlasting, o show da dupla dinâmica de ex-namorados babacas. Gary chegou a dizer que a obrigação de Quinn era ligar pra ele pra impedir aquela loucura de Chet de acontecer. E aí chega o novo chefe indicado pelo cara que acabou de dar esse surto e diz o quê? Que gostou mais da versão do Chet. Isso faz sentido pra vocês?
Eu tive muita dificuldade de aceitar o envolvimento de Rachel com Adam na temporada passada, mas creio que esse novo personagem tenha tudo pra virar um pretendente (e rival) à altura dela. A princípio, se o plano for um novo casal, estou aprovando. Mas ainda não decidi se realmente queria um novo personagem agora. Já pensaram se Gary desse um blindside ainda maior e pusesse Graham, o host, para comandar tudo? Seria lindo demais!
Eu havia ensaiado em falar um pouco sobre Graham na review passada, mas como havia muitos assuntos a ser abordados, resolvi adiar. E essa decisão acabou se mostrando bem oportuna. O episódio focou bastante em Graham sendo menosprezado e maltratado o tempo inteiro, e existem duas possíveis explicações pra isso.
A primeira delas, e a que mais enxergo como provável, é a picuinha divertida, mas bem boba e tosca, de Sarah Gertrude Shapiro, criadora e showrunner de UnREAL, com Chris Harrison, o host de The Bachelor, por ele ter andado falando mal da série em entrevistas, de forma que nada disso acabe nem rendendo nenhuma trama importante e seja só um shade meio gratuito mesmo.
Mas vejo também a possibilidade de uma tentativa de criar algum twist interessante envolvendo Graham mais à frente. Quinn o alienou bastante com a maneira como ela o tratou, e seria justo vê-la sofrendo consequências disso no futuro. Graham foi muito pouco explorado e gostaria de vê-lo mais bem aproveitado nesta temporada.
Insurgent continua segurando muito bem a peteca nesta segunda temporada de UnREAL, e mostrando que a série, ao contrário do que eu havia imaginado, ainda tem muita lenha pra queimar mesmo mantendo o formato de Everlasting. De fato, estou gostando tanto da ideia que já quero cinco temporadas, com a quinta sendo uma all-stars para que possamos ver Britney, Faith, Anna, Ruby e Beth Ann de volta ao show. Por favor, UnREAL, nunca te pedi nada, vai!
Secret scenes:
– Chantal desapareceu, e eu não estou nada surpreso.
– Tiffany teve um arco interessante nesse episódio e honrou o #TeamBocatch, mas sinto que sua história teve mais a ver com servir de escada para outros personagens do que com alçá-la a estrela de primeira grandeza desta temporada.
– Yael me lembra as personagens da Débora Secco e da Juliana Paes na novela “Celebridade”, vale tudo pra aparecer. E já estou ansiosíssimo por essa parceria linda dela com Madison! Que essa dupla renda muito ainda! Oremos!















