Antes de atacar uma dicção pense na inflexão.
A primeira vez que eu ouvi falar sobre “tempo de comédia” (ou timing) foi na escola de teatro, lá em 2001, quando em um trabalho em grupo, alguns colegas apresentaram para o professor uma paródia de uma cena do espetáculo que estávamos ensaiando e que falava sobre a vida de Santo Antônio. A cena foi de improviso e foi engraçadíssima e não me esqueço desse dia porque eu tinha escrito um texto para a minha cena que era cabeçudíssimo e quando a cena deles acabou eu me senti bem tolo por ter problematizado tanto. Eles se divertiram… E nos divertiram. Quando comentou o trabalho, o professor disse: “vocês tiveram um tempo de comédia incrível” e explicou que esse “tempo” tinha a ver com pausas, gatilhos e principalmente, inflexão.
Inflexão, para quem não sabe, é a forma como um texto decorado é dito, sem que pareça ter sido decorado. Quanto mais inflexão você tem, menos o texto parece estar sendo lido. Aprender isso não é impossível, mas no caso da comédia, tenho suspeitas de que a coisa toda é nata. Você pode ensinar alguém a inflexionar naturalmente um texto, mas não pode ensinar ninguém a fazer isso sendo engraçado. Assim que tive essa compreensão, atrizes como Fernanda Torres e Marisa Orth soaram ainda mais fantásticas para mim. A vocação é um processo de construção comportamental, mas o talento existe independente do quanto você está disposto a investir nele.
A primeira vez que eu ouvi falar da Tatá foi por conta de vídeos dela no YouTube. Eu nunca tive lá muita grana e ter TV por assinatura não era fácil para mim. Assim, não a descobri assistindo seus programas ou quadros na MTV, mas sim através dos vídeos que eram postados no canal da rede ou mesmo por admiradores. O primeiro que vi foi o vídeo entre a personagem Odete e o marido Venceslau, onde uma mulher de classe média, aparentemente pacata e conservadora, falava sem parar um monte de impropérios para o submisso marido.
Lembro que o que mais me impressionou não foi o texto falado quase sem pausas, mas a capacidade que a atriz tinha de dar inflexão a frases tão curtas, o que, é claro, invocava uma certa dúvida: ela está ou não está falando de improviso? A lista de personagens ainda passava pela delusional Roxanne e a viciada em queijos Fernandona. Mas, até quando Tatá aparecia por alguns segundos fazendo a convidada do Supertrash, Tati Pirigueti, sua capacidade de imprimir numa única fala a inflexão que correspondia exatamente ao tipo pretendido, era impressionante. Tati, por exemplo, era a típica convidada de Luciana Gimenez que dava uma opinião genérica e recebia aplausos da plateia como se fosse uma filósofa. Bastava uma interjeição de Tatá e o reconhecimento do tipo era imediato.
A comédia, contudo, passa por mais bifurcações do que se imagina. Ela definitivamente não tem a ver com a palavra, ou Chaplin não teria construído um império. Ela nem mesmo tem a ver com a compreensão do que se diz, ou Os Minions não seriam tão populares no mundo inteiro. A comédia tem muito mais a ver com melodia e com identificação, com a exposição da fragilidade pelo viés do ridículo, o que pode sim permitir a qualquer ator conseguir transmitir sua sensibilidade cômica sem precisar dizer nada ou até sem precisar dizer qualquer coisa que seja inteligível. E todo ator tem sua própria melodia, sua própria identidade cômica, que pode ser um traço em comum em toda sua obra, seja cristalizado ou não.
Esse texto é uma defesa ao trabalho de Tatá, isso já está claro. Mas, é uma defesa baseada num ponto muito simples: criou-se uma ideia sobre ela que foi decidida e amplificada pela voz das redes sociais e em algum momento perdeu-se o interesse em avaliar seus personagens com um olhar atento, o que revelaria uma busca precisa da atriz pelo equilíbrio entre sua melodia cômica inerente e as exigências naturais de uma multiplicidade de papeis. Tatá – como tantas outras atrizes – tem seus maneirismos e a questão aqui não é acabar com eles, mas vislumbrar as diferenças que sobrevivem apesar deles. E tenho convicção de que essas diferenças existem.
O primeiro papel de Tatá numa novela foi emblemático. Valdirene – de Amor à Vida – tinha um tipo que ela conhecia muito bem: a jovem delusional louca pela fama que esconde uma profunda insegurança. Era quase como se ela pudesse repetir Roxxane sem mudar nenhum trejeito. Isso não podia acontecer, claro, então Valdirene foi preparada com uma pitada a mais de vulgaridade, um traço mais distante de Roxxane, onde Tatá poderia se apoiar. O sucesso foi absoluto, sobretudo porque era a primeira personagem. Como tudo que ascende rápido demais, as metralhadoras críticas estavam prontas para o ataque assim que um novo papel surgisse na tela. Acredito que as decisões criativas acerca da Danda, de I Love Paraisópolis é que acabaram sendo arriscadas demais.
O vídeo acima é bem curto, mas dá o tom do que foi essa primeira personagem da “trilogia das sete” que Tatá iniciou. Danda foi proposta a ela como um tipo mais dado a desvios de conduta moral, mas talvez pela pouca substância do texto, Tatá tenha ido se refugiar no que fazia melhor: falar na própria melodia. Ela tomou a decisão – e pra mim consciente – de deixar que Danda não tivesse uma expressão verbal clara 100% do tempo, talvez por achar que desse jeito a personagem fosse manter sua essência como atriz, o que acaba sendo, no final das contas, o que as pessoas esperam dela. É uma linha tênue e complexa, porque ao mesmo tempo em que se cobra a “diferença”, aumenta-se a expectativa para que ela seja sempre muito engraçada.
Com a Fedora de Haja Coração a clareza da construção de personagem foi evidente. Tatá deve ter pensado muito sobre todas as críticas e construiu sua Fedora com uma cadência vocal completamente diferente de tudo que já tinha feito. Era um sotaque, mas também era uma melodia mais aguda, vocacionada sem pressa, com todos os estereótipos da menina rica e mimada muito bem impressos. Para a crítica e parte do público já era tarde demais… A decisão sobre quem era Tatá como atriz já estava tomada e ninguém precisava assistir a novela para ponderar isso. Fedora teve momentos incríveis de muito apelo emocional, em que seu amor por Leozinho e suas inseguranças pessoais vieram à tona com sensibilidade. Mas, Tatá já era “aquela atriz que tá sempre igual e não tem boa dicção”. Caso encerrado.
Atualmente, em Deus Salve o Rei, Tatá se diverte com uma Lucrécia que vai da euforia ao abismo em segundos. Numa mesma cena, ela precisa ser sedutora, depois feliz, depois triste e enfim, muito triste, com direito a respirações abafadas e olhares lacrimejantes. É uma energia completamente diferente. Mas, é claro, sem nunca perder de vista que ela é a Tatá Werneck e que quando ela aparece na tela, o que as pessoas esperam é que ela faça alguma coisa engraçada. E ela, então, faz. Isso não significa, de modo algum, que a personagem ficou perdida no meio do caminho. A personagem existe com a melodia de Tatá, é como se fosse uma versão, um feat entre quem a atriz é e quem a personagem precisa ser. É evidente que Valdirene não poderia estar em I Love Paraisópolis, Danda não poderia estar em Haja Coração e Fedora muito menos poderia estar em Deus Salve o Rei. E partindo da premissa de que cada uma delas tem seu lugar muito bem definido, podemos concluir que elas são pessoas completamente diferentes.
Tatá e Eu
Eu tenho minha própria história com ela… Comecei a namorar uma pessoa que morava com outra, que vinha a ser funcionária da Rede Globo e que trabalhava diretamente com a ídola. Eu surtei. Não só porque ele falava de Tatá como se ela fosse uma vizinha de porta, mas porque, de alguma forma, essa era uma oportunidade dela saber pelo menos que eu existia. Pra esse amigo logo foi ficando muito claro o meu nível de admiração. Eu via o Tudo Pela Audiência em looping e sempre que parávamos para falar a respeito, eu me tornava aquela pessoa em que nos tornamos quando falamos sobre algo que nos apaixona: um chato.
Era um alívio imenso ver esse meu amigo contar sobre como ela era gentil. Nós, que estamos longe das celebridades, temos esse ranço de mitologia negativa e só ficamos esperando uma oportunidade de confirmar como todos eles são insuportáveis. Um dia, eu peguei dengue e passei vários dias de cama. Uma noite, sem que eu nem imaginasse, eu recebo pelo whatsapp um vídeo desse meu amigo que trabalhava com ela. Abri e era ela falando comigo. Tatá, além de maravilhosa, é um antídoto natural contra Aedes, porque qualquer dengue dentro de mim fora evacuada com sucesso. Só vê-la tentando falar meu nome já era incrível demais. Eu comemorei muito, publiquei nas redes, enlouqueci. Fiz um em retribuição, imitando Roxanne e pedi que meu amigo mostrasse para ela.
Aquela pequenina e poderosa voz da repressão tentava sussurrar críticas à minha suposta alienação perante uma celebridade, mas eu respondia com minha principal filosofia de vida: Eu tenho orgulho de me apaixonar por pessoas, ângulos e recortes, todos os dias. Quando Tatá passou a me seguir no twitter, eu voltei a festejar aos quatro ventos desavergonhadamente. Quando ela falou comigo no twitter, eu fiz festa como um pernóstico fã de carteirinha (sem carteirinha).

Houve algumas tentativas frustradas de conhecê-la… Por causa do meu amigo, quase fui em sua festa de aniversário, mas fiquei envergonhado. Ele conseguiu com ela um lugar na plateia do Tudo Pela Audiência, ela prometeu me chamar para uma brincadeira no palco, mas no dia da gravação o planejamento do programa não incluía nenhuma participação da plateia. O mais perto que cheguei de Tatá foi quando ela passou perto de mim com a cara desfigurada por um monte de torta. Fizeram uma faixa para ela nesse dia, ela saiu carregada pelos seguranças… Os tempos mudaram para a troteira da MTV.
Até que um dia eu fui convidado para ir à festa de lançamento de Deus Salve o Rei, cobrir o evento; e eu sabia que ela estaria lá. Esperei por horas para conseguir um tempo e depois de muita paciência e expectativa, tive o tão esperado encontro, que aconteceu exatamente como eu sempre imaginei, com gentileza, humor e carinho. Vejam aí:
Isso é muito mais que uma questão de exaltação da cultura da idolatria – embora eu não veja problema nenhum em ter ídolos – em uma esfera imponderada. No mundo de hoje há de se ter certa coragem em admitir suas paixões por artistas, porque está em vigência uma tola necessidade de afirmação de personalidade independente, em que todos postam frases de efeito sobre “não ser fã de ninguém” como se sê-lo fosse o mesmo que ignorar questões mais importantes no mundo. Eu tenho ídolos, eu sou fã, porque para mim a arte é sobre inspirar e se eu não abro o meu peito para admirar quem interfere positivamente na minha rotina, eu não estarei sendo inspirado. E eu quero cor na minha vida, eu quero e eu gosto do que me colore sem nem mesmo saber que colore.
> SENSE8, O Que Esperar do Episódio FINAL (Sem Spoilers)!
Ser famoso tem dessas loucuras, você nem imagina que tem tanta gente assim que admira tanto você. Que vai ver com tanta importância um simples olhar ou uma simples foto. Mas, quando amigos me inspiram eu os abraço e digo que os amo, quando um amor me faz feliz eu o enalteço com o coração, quando um professor me ensina eu o agradeço com o sucesso, quando um artista me atinge eu o sigo e faço textos sobre como ele é sensacional. Eu não julgo o amor e admiração que sinto pelas pessoas, eu compartilho.
E pensando na mínima possibilidade de um dia, por um revés do destino, esse texto vir a parar nas suas mãos Tatá, eu quero que você termine ele lendo isso aqui: Você é FODA, você tem um tempo de comédia, uma inflexão, um carisma, que são inacreditáveis. Você é inteligente para cacete, você é uma atriz talentosa, tem um puta conhecimento de cultura pop e o melhor: você é gata. Vou dizer bem descaradamente que toda vez que te vir, eu quero um abraço, uma gongada e uma foto SIM, porque fotos com celebridades não são só formas de colecionar pseudoimportância, mas sim maneiras de congelar momentos inesquecíveis.
Não seria exagero dizer “obrigado”. Esse texto é pra você, sua linda. Pra você ler, a gente se encontrar de novo um dia e…

Stalker Note: Voltei a rever Tatá no dia da exibição da novela para convidados e tinha levado o Will comigo. Ele queria conhece-la e tirar uma foto. Dessa vez, contudo, não tivemos sorte. Ela parecia se esquivar e eu não entendia por que. Tatá não falou com a imprensa aquele dia, ficou quietinha no canto enquanto os colegas davam entrevistas. Esperávamos por ela e ela sempre dava um jeito de não passar perto da gente. Ficou bem claro que queríamos abordá-la e ela deixando claro que não ia ser abordada. Só em casa a ficha me caiu: ao entrarmos no evento, eu e Will tivemos que vestir um colete imenso cedido pela própria Globo. No colete estava escrito em letras garrafais a palavra repelente definitiva: IMPRENSA.





















