Se você quer se sentir confortável e feliz na poltrona de uma sala de cinema, esse é o filme para você.

 

Quando a projeção de Minha Irmã & Eu começa, a mão da diretora Susana Garcia passa pela tela como se fosse visível a olho nu. Essa “mão” tem características distintas: as imagens do Rio de Janeiro ao som de uma canção do momento, a possível sequência de flashback e a narração em off cortando a cena enquanto créditos em fonte chapada rolam na composição de ângulos solares, onde os quadros flertam mais com a TV que com o cinema. Foi assim que Susana conseguiu um grande feito no mercado: a tradição dos aconchegantes filmes nacionais que fazem parte do calendário do nosso fim de ano.

Para o nosso país, essa tradição foi conquistada depois de décadas de muita luta… E foi perdida quando a pandemia chegou. O último grande sucesso desse período foi Minha Mãe é Uma Peça 3, o último do querido Paulo Gustavo; que conseguiu arrecadar mais de 137 milhões de reais; um feito histórico e condizente com o tamanho do talento do criador da Dona Hermínia. Tudo que não precisávamos era perder, também, a mágica do nosso cinema.

Enquanto continua sendo ignorada nos circuitos de premiação (e por grande parte da crítica especializada) a comédia sempre acaba sendo o recurso que sustenta o comércio artístico com força suficiente para bancar a experimentação necessária – mas menos popular – do drama. Os códigos que formam o gênero cômico são esses que Susana reconhece bem em sua direção: simplicidade, fisicalidade, afetuosidade. A comédia não é sempre “simples”, claro; tampouco a comédia “simples” é menos grandiosa. Do mesmo jeito que para fazer rir é preciso acessar uma sagacidade elusiva; para reunir um compilado de situações de riso, também é preciso ter timing.

Sendo assim, não veremos em Minha Irmã & Eu um cinema de ângulo, de transição, de conceito, do mesmo jeito que veremos nos sucessos densos da sala ao lado. É necessário sublinhar esse ponto, porque grande parte da rejeição à comédia vem de uma comparação esdrúxula com o drama. A comédia ainda tem ângulo, transição e conceito; mas eles trabalham a favor da catarse; sendo ela, a catarse, uma reação emocional que dificilmente está atrelada a erudições distanciadoras. A comédia quer te desopilar do mundo lá fora… e quando ela consegue, não há coração que resista.

Miriam e Mirelly

A força de Minha Irmã & Eu está em suas protagonistas. Assim como acontecia com Paulo Gustavo (e com a própria Ingrid em sua franquia solo), o texto é um apoio necessário para estruturar a trama; mas a conquista do riso está no talento com que os atores conseguem usar essa estrutura e escapar dela ao mesmo tempo. Curiosamente, esse também é um traço recorrente dos atores de comédia: eles são o personagem, precisam do personagem… e também escapam dele, numa espécie de método (consciente ou não, só eles poderiam dizer) de que existem coisas que o público precisa e que só a persona do ator poderia fazer.

Mas, ainda assim, o roteiro escrito por Ingrid Guimarães, Susana Garcia, Célio Porto, Veronica Debom, Leandro Muniz e Fil Braz tem uma preocupação estrutural bastante calculada. Miriam, a irmã vivida por Ingrid, é uma goiana conservadora que vive para a família e para sua própria referência regional. Mirelly, a irmã vivida por Tatá Werneck, fugiu dessas mesmas raízes e veio para o Rio de Janeiro, onde finge que é uma influencer e se recusa a admitir os próprios fracassos. O charme está nessa dinâmica, onde elas pensam que se contradizem, mas estão presas no mesmo abismo: infelizes com as escolhas que fizeram.

Os roteiristas não se acanham na hora de jogar com as armas mais poderosas que puderem. Ingrid e Tatá estão no topo disso, mas é notório que cada uma foi situada num ponto de apelo popular, considerando o que está mais vigente no país. Goiânia, sertanejo, peão sexy, jargão pecuarista… Enquanto do outro lado, Rio de Janeiro, internet, fama, escândalos, astros globais… Tudo foi pensado para contemplar o máximo possível de setores; agradar o máximo possível de pessoas; mas, sem esquecer de pelo menos uma pitada de identidade: algumas tiradas de Minha Irmã & Eu são ousadas em comparação com outros títulos do mesmo segmento.

Ingrid e Tatá estabelecem uma química imediatamente. Ingrid está vivendo uma personagem que precisa de contenção na maior parte do tempo. Ela exerce a função de manter a história nos trilhos, mas consegue se salvar dessa responsabilidade da metade para o final, quando a trama deixa de lado a dinâmica de “soltar e prender”; e entrega as duas irmãs ao caos. À essa altura, já acreditamos nelas e podemos perdoar os exageros narrativos (e eles são muitos). O mais importante é a expectativa da próxima loucura que elas vão viver.

Tatá faz o processo inverso. Ela começa tão lá em cima que o único caminho possível é desacelerar. Uma vai aprender a ser mais louca e a outra vai aprender a ser mais responsável. Então, a Mirelly de Tatá vai se humanizando da metade do filme em diante. No começo, sua capacidade de improviso ao inventar justificativas malucas para suas mentiras é usada quase descontroladamente. Mas, assim que a busca pela mãe perdida começa, a tensão de não ser descoberta e a ternura ao se reconectar com a irmã vão sensibilizando a personagem.

Tatá tem uma melodia própria, como é característico de todo humorista. Paulo tinha, Ingrid tem, todos têm. E ela acessa essa “música” quando lhe convém, segurando as rédeas do que compõe sua personagem, mas deixando um braço livre para buscar essas características quando elas servem ao contexto da cena. O trabalho de atriz de comédia, o trabalho de ator de comédia, está na capacidade de nos levar de volta para o coração da história quando é preciso. Mirelly tem a emoção de sua própria auto-descoberta. E nesses momentos, ela fala sério (para logo depois mostrar um “retrato falado” hilário do bandido que cruzou seu caminho). A plateia se emociona, ri, se emociona de novo; e ri de novo.

Quando o filme chega na inevitável “moral da história”, as personagens já nos convenceram daquilo que deseja toda comédia que ousa se apresentar numa sala de cinema: de que valeria à pena assistir a mais um compilado de loucuras. Talvez não em um outro road movie (a pitada de Thelma e Louise estava lá), mas em algum outro contexto que continue reforçando o traço em comum dessa produção de cinema nacional cômico que estamos tentando acordar: de que estamos aqui uns pelos outros; família, amigos, amores… Qual a graça de estar sozinho? Sem o outro não existe o riso. E tem coisa mais forte que a alegria compartilhada?

Minha Irmã & Eu espera por vocês nos cinemas. Vão lá rir junto. É bom demais.

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