Não há música de Pablo do Arrocha que consiga descrever a complexidade e a intensidade das emoções de amor, desespero e traição sofridos pelos fãs de um livro vendo o material adaptado para a TV. Quando se lê um livro, imagina-se todo um universo particular das paisagens, construções, climas e pessoas que povoam as páginas. E a expectativa que o coração carinhoso cria é a de que, quando trazida à vida na telinha, a história seja o mais próxima possível a essa criação prévia. Por mais fiel que seja a adaptação, nunca será capaz de atingir a unanimidade, uma vez que cada pessoa pensou tudo de uma forma diferente. Então começa o processo de desapego, em que cada um de nós passa a abrir concessões quanto aos detalhes e passamos a desejar que, pelo menos, a alma do livro esteja visível na tela.

Outlander é uma saga extensa, detalhista e cheia de esmero criada por Diana Gabaldon. Qualquer um que tenha lido as páginas escritas por ela deve ter ficado com um frio na espinha (além da empolgação, óbvio) quando soube da notícia da transposição para série de TV. Havia muita brecha para que tudo desse errado. Uma protagonista feminina forte cuja história de amor é uma coadjuvante frente ao que suas ambições e expectativas num cenário passado poderia se tornar uma figura romântica cuja existência dependia de um homem amado a seu lado para salvá-la e dar sentido a sua vida. Um protagonista masculino humano, com falhas e frágil frente aos perigos que o cercava poderia vir a ser um herói blindado, perfeito e invencível. Uma história épica, sensual e feminista poderia se tornar um conto misógino com sexo gratuito.

A realidade, no entanto, revelou ser outra. Outlander conseguiu ser uma adaptação louvavelmente fiel. O escrito de Gabaldon se desenvolve e se revela de forma calma e pausada. Não há a urgência em ganhar o leitor com shock value e acrobacias narrativas nas primeiras páginas. A autora prefere, por outro lado, construir o ambiente da história e as camadas psicológicas de seus habitantes para então mover sua história de forma natural e progressivamente alarmante. A série seguiu à risca essa dinâmica e colocou como uma característica intrínseca seu ritmo pausado e contemplador. O maior exemplo disso são os episódios Castle Leoch, The Way Out e The Wedding, nos quais acompanhamos inicialmente a rotina no castelo Mackenzie, depois o desvelar da vida e das crenças da população e, então, o nascimento de um casamento. The Wedding, aliás, foi um episódio que inicialmente gerou estranhamento para os leitores, pois traz, de cara, o beijo final da cerimônia. Mesmo com essa diversificação de ordem, o intuito do material original estava lá: mostrar que o casamento era mais que uma instituição e que era preciso mostrar, através de conversas e pontos de vistas como cada parte se conquistava e passava a acreditar no surgimento do sentimento.

Diante das 800 páginas do escrito, era de se imaginar que a série fosse ser montada através da costura dos recortes possíveis de serem mantidos. E foi nesse ponto que a equipe de Ronald D. Moore surpreendeu. Eles ressaltaram certos traços da personalidade do livro, principalmente, o feminismo, mas o mais interessante e revigorante é que eles complementaram o próprio livro. Em, The Reckoning, acompanhamos a investida de Jamie e sua trupe para resgatar Claire das mãos de Black Jack, o que não é mostrado no livro. A discussão calorosa entre Collum e Dougal, que leva à afirmação deste de que era o pai de Hamish, não é exposta de forma direta no livro. Mas nada supera a riqueza, a beleza e a sagacidade, em Both Sides Nows, de trazer flashes da vida de Frank após o desaparecimento da esposa. Isso, em momento algum, é trabalhado no escrito de Gabaldon e, mesmo assim, serviu não somente para aumentar o desespero e a tragédia da história, mas como uma forma de dar um adeus apropriado e amargo para o ex-marido de Claire, fazendo o público lembrar que toda sua insegurança e todo o dilema quanto aos dois homens de sua vida eram necessários e reais.

Claro que sempre será triste saber que não pudemos ver a conversa sobe sexo entre Jamie e Hamish, padre Bain correndo dos carrochos, o horror do ponto de vista de Claire enquanto levava surra do marido e a bela fala de quando eles se reconciliam (“Você é muito esperto, rapaz, pensei sonolentamente comigo mesma. Frank nunca descobriu como conseguir isso.”). Mas, no lugar disso, ganhamos uma série que soube abstrair o que o livro tinha de melhor e potencializar isso, entregando grandes presentes como o “Há alguma justifica para o estupro?”, o ponto de vista do Sr. Fraser sobre o casamento e toda o shakesperianismo dissimulado da Geillis Duncan de Lotte Verbeek. Apesar das dúvidas que tive no início, hoje o único sentimento que me resta é o de gratidão pelo respeito e pela sensibilidade de Ronald D. Moore e toda a equipe da série ao dar vida às páginas de Diana Gabaldon.

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