Assim que as primeiras críticas sobre o ritmo da nova temporada surgiram, logo nos primeiros episódios, tratamos de reforçar que Lynch e Frost não só pensaram na série como um grande filme, como provavelmente não iriam nos entregar um material totalmente submetido às regras impostas pelos grandes canais de televisão. Parece que finalmente estão respeitando as decisões dos criadores e apostando livremente em um projeto que é fruto da imaginação de dois grandes visionários.

A nona parte da nova temporada, depois daquele mergulho no passado inesquecível que o ep 8 proporcionou, funcionou mais uma vez como um grande ritual de costura. Começamos a vislumbrar mais claramente as principais conexões que existem entre os personagens e a desenhar de forma quase linear os eventos que estavam dispersos em três principais grandes blocos: Dougie/Cooper – O bad Cooper (doppelganger) e Twin peaks.

Se existe algo conectando todas essas grandes peças, podemos dizer sem dúvida que é o Major Briggs (Don S. Davis), personagem com relativo destaque na série, mas que sempre esteve, sobre os mistérios que rondam Twin Peaks, muitos passos à frente de todos nós. Apesar do Davis ter falecido em 2008, David e Frost mais uma vez provam que para habitar Twin Peaks é preciso antes de tudo estar disposto quebrar as amarras e deixar a imaginação correr livremente; é assim que Laura, mesmo morta no piloto da temporada e quase sempre sem aparecer fisicamente, é indiscutivelmente a protagonista da série (sei que muitos dirão que é o Cooper, eu defendo que é a Laura). Aqui eles conseguem fazer o mesmo com o Major, ampliando o seu papel na narrativa sem precisar que ele esteja corporalmente presente e isso é fantástico em muitos níveis.

Vamos ao enredo, estabelecendo algumas conexões já colocadas nesse episódio.

O bad Coop (doppelganger)

Ressuscitado, o doppelganger finalmente chegou ao local onde estavam Hutch (eita é o Tim Roth) e Chantal a sua espera. Já com um novo celular, ele envia uma mensagem de texto para Diane (ficaremos cientes disso um pouco depois), onde estava escrito: “Around the dinner table the conversation is lively.” (Algo como: “Ao redor da mesa de jantar a conversa é animada”). Reparem que as letras estavam minúsculas aqui, mas chegam para Diane em caixa alta. Pode ser só um erro de edição, pode ser a configuração do aparelho dela ou pode ser apenas a minha pessoa não querendo acreditar que ela está de alguma forma aliada ao bad Coop. Prefiro a teoria onde ela possivelmente vem sendo chantageada e usada por ele.

O doppelganger liga em seguida para Duncan Todd, revelando finalmente quem é o mandante por trás da violenta morte de Lorraine e da tentativa frustrada de assassinato sofrida por Dougie/o nosso Cooper. Ele pede que o caso seja encerrado e após desligar a ligação ordena que Hutch mate o diretor do presídio que o liberou no dia anterior após chantagem e informa que mais duas vítimas (dessa vez em Vegas) vão ser indicadas logo em seguida.

Gordon, Albert, Diane e Tamara

Diane, Gordon e o dorminhoco Albert
Diane, Gordon e o dorminhoco Albert

O melhor quarteto em sintonia do momento nos rendeu ótimas cenas. O humor do Lynch estava afiadíssimo e os diálogos estavam no ponto. Na cena do necrotério, onde Constance e Alfred demonstram total afinidade, foi hilário perceber o Lynch olhando para os dois com ar de riso.

Já em Dakota do Sul (cientes que o bad Coop fugiu da prisão) tivemos várias pontas sendo redirecionadas. Knox e Macklay repassaram os principais acontecimentos que envolvem a morte de Ruth Davenport, o corpo sem cabeça do Major e a participação suspeita de William Hastings.

Descobrimos que Hastings e Ruth estavam envolvidos até o pé no que vamos chamar de busca por uma “dimensão alternativa”. Ele, um aficionado pela temática, já tinha um blog (criado em 1997) onde registrava as suas buscas e teorias sobre a existência de realidade paralelas (voltaremos a esse ponto adiante).

Temos nesse plot:

1) Albert conectando a idade do corpo do Major com o desaparecimento de Cooper, já que ambos tiveram contato.

2) A constatação de que esse caso tem total ligação com o Blue Rose.

3) Albert fazendo piada com a quantidade de acontecimentos que giram em torno do corpo do Major, perguntando o que é que fica para a próxima temporada. Uma forma de ironizar, com humor, o formato (gênero) em que estão inseridos.

Enquanto isso…

Dougie Jones/Cooper e Janey-E

Dougie Jones/Cooper e Janey-E
Dougie Jones/Cooper e Janey-E

Bushnell Mullins deu um breve depoimento para a polícia sobre o caso de Dougie, afirmando que ele, apesar de boa gente, frequentemente aparentava um comportamento estranho. É o chefe de Dougie que reforça a ideia de que a explosão do carro e a tentativa de assassinato de alguma maneira podem estar conectadas.

Percebemos que Cooper continua (em estado de transe) identificando elementos do seu passado, como a tomada na parede e os sapatos vermelhos (vejam a imagem abaixo). Muita gente anda impaciente com o estado do antigo Cooper, mas é importante perceber que se ele voltasse rapidamente ao normal, toda a teia de descobertas que estamos vendo ser desenrolada agora poderia não existir, então nesse caso penso que esperar o momento certo para que ele esteja completamente de volta é a melhor das decisões possíveis.

Nesse mesmo plot novas curiosidades e ligações são postas:

1) O fato de Dougie não ter registro e tudo que se sabe sobre ele datar do ano 1997. Sabemos que ele foi fabricado possivelmente pelo bad Cooper e que essa é a mesma data da criação do blog do Hastings.

2) O detetive Fusco usa a xícara para coletar o DNA do Cooper, o que pode acionar o FBI de alguma forma, já que o evil Coop conseguiu sair da delegacia.

3) As digitais do “The Spike” são encontradas na arma com que tentou matar Cooper e isso acaba causando a sua posterior prisão.

E se era de Twin Peaks que estávamos sentindo falta, eis que:

A delegacia voltou a ganhar grande destaque, um dos meus cenários favoritos da série. Fiquei feliz com mais um momento de comédia bem escrito. Andy e Lucy estavam fantásticos nesse ep, com destaque para ela naquela cena hilária em que ela diz para o xerife, logo após receber um cumprimento, que não está na recepção (mesmo estando) por ser hora do almoço.

Andy e Lucy
Andy e Lucy

Se o humor pode nos levar à tragédia, tivemos Johnny Horne, irmão de Audrey, correndo pela casa descontroladamente, sendo seguido por sua mãe até bater de frente com a parede e (aparentemente) morrer. Reparem que uma luz branca surge assim que a batida ocorre e logo depois é mostrado o seu corpo estirado no chão. Seria Laura vindo buscar o antigo amigo? Se ele realmente morreu, talvez o seu enterro seja um gatilho para o aguardado aparecimento de Audrey.

Hawk, Truman e Bobby
Hawk, Truman e Bobby

Fomos levados em seguida para aquela comovente cena em que Bobby visita a sua mãe, Betty Briggs (Charlotte Stewart), com o Xerife Truman e Hawk para buscar novas informações sobre a visita que Cooper fez ao seu pai pouco antes do Major “morrer”. Bonita a forma como retrataram a relação entre Bobby e o Major, que mesmo apresentando um perfil mais sério, sempre acreditou no potencial do filho. Momento para encher a gente de emoção.

“This is the chair”.

―Betty Briggs

A cadeira escondia um pequeno dispositivo onde havia uma mensagem que só foi acessada porque o Major parecia ter ciência de tudo que iria ocorrer no futuro, preparando Bobby para essa importante missão. Nela podemos ver o símbolo que estava na carta do baralho que o bad Cooper mostrou a Darya  antes de matá-la no quarto de hotel, coordenadas que levariam os 3 à um lugar chamado Palácio de Jack Rabbit, uma referência ao curta Rabbits  do próprio Lynch, que já precisamos rever, e o horário : 2:53, o mesmo em que ocorreu a troca do Cooper com o Dougie.

A segunda folha tinha as coordenadas encontradas que apareceram nas temporadas anteriores, onde o nome Cooper aparecia três vezes (o último cortado), o que sinaliza que o Major (que guardou essa mensagem) sempre soube tudo o que iria acontecer. Podemos dizer que os três são: o antigo Cooper, o bad Coop e o Dougie Cooper.

A nossa ida ao palácio já está agendada. Reparem que as datas 1/10 e 2/10 aparecem no papel, o que fez o Xerife concluir que daqui a dois dias eles devem seguir para o palácio.

Por fim tivemos Ben e Beverly trazendo um pouco de romance no meio de tanto suspense, com o Ben dando uma freada legal nas investidas da moça e quem diria.

Preston, Hastings e o blog

Hastings  e Tammy Preston 
Hastings  e Tammy Preston

Pois é verdade que estamos diante de um blog que realmente existe nesse universo expandido surreal e criativo que a gente tanto respeita. Claro que todo mundo correu para verificar se o http://thesearchforthezone.com/ era real e lá estava ele, totalmente liberado, repleto de links, pequenos textos e sons misteriosos, tudo fruto das investigações do Hastings.

O interrogatório de Tamara com Hastings foi sem dúvida a colagem final que o episódio precisava.

Descobrimos que Hastings e Ruth encontraram o major nessa dimensão alternativa, onde Briggs hibernava (o que justifica a preservação do seu corpo). Ele precisava ter em mãos importantes coordenadas que podiam ser encontradas pelo casal e que provavelmente iriam permitir sua locomoção para outro lugar. Escondidas num banco de dados militar, os números foram encontrados e anotados na mão de Ruth. Quando o casal foi entregar as coordenadas para o Major, criaturas apareceram tentando interceptar a ação. Os números foram entregues, o Major começou a flutuar e em seguida a dizer as palavras : Cooper, Cooper, antes da sua cabeça desaparecer. Ruth é morta e Hastings acorda, como se estivesse num sonho. Ele afirma que o local onde o Major estava tinha bastante gente, o que o impediu de identificar o assassino. São essas as coordenadas que o bad Coop está buscando.

Por fim tivemos a cena no Roadhouse, com a esperada aparição de Sky Ferreira (Ella). Apesar da conversa sobre emprego e todo o resto que rolou entre ela e Chloe (Karolina Wydra), nada chamou mais atenção que a alergia (coloca com algum propósito) que ela estava no braço esquerdo, uma maquiagem tão real que deve ter provocado coceira em muita gente.

Que episódio rico de informações, que como toda boa ponte estava repleto de conexões muito bem amarradas. Ficou claro a importância de respeitar o fluxo da narrativa, de entender que cada revelação, para ter a importância devida, precisa acontecer no momento certo. Vamos destacar a atuação do Matthew Lillard, da Laura Dern e principalmente do próprio Lynch (dando até um tapinha no cigarro). O próximo episódio que se chama Laura is the one, só pelo nome já me causa arrepio. Será nele que veremos Laura saindo do Lodge ou será apenas mais um capítulo da sua instigante e misteriosa mitologia em torno da sua alma?

Apontamentos do Log:

– Primeiramente agradecer a nossa querida Flavia Alfonsi, que legenda a série na Netflix e que nos proporcionou esse momento inesquecível.

Adicionar Imagem com o nome DIANE.

– A última data de atualização do blog criado pelo Hastings é 2015, o que confirma que estamos exatamente 25 anos depois dos eventos da segunda temporada. Você pode achar a trilha sonora da série nele.

– Curiosa a relação que o evil Coop possui com a Chantal, uma química para lá de assustadora.

– Jerry locão das ervas na floresta, que figura.

– Que bom ver Chad levando uma surra de bom senso do xerife Truman.

– Será que alguém interceptou a mensagem que Diane recebeu? Não é só o tamanho da fonte que mudou, tem até uma vírgula no lugar errado. #esperança

– O braço esquerdo é outro elemento simbólico importante do universo de Twin Peaks, ele é a parte do corpo retirada pelo Mike (que resultou no anão), é o braço que fica adormecido pelas pessoas marcadas pra morrer (que usaram o anel da coruja). Diante disso a alergia de Ella pode ter alguma ligação. Teorias também apontam que ela e a Chloe estão relacionadas à menina do 119, que reside na frente da casa onde Dougie estava antes de desaparecer.

– Só o Major Briggs é capaz de nos salvar e de ser o principal pano de fundo de um episódio tão esclarecedor.

– No Roadhouse, Hudson Mohwake performou Human e as meninas do Au Revoir Simone  cantaram A Violent Yet Flammable World.

– Qual a cor da sua cadeira preferida, bege ou vermelha?

Até a próxima.

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