A esperança que habita o coração do cidadão de New Orleans.

Após um pequeno salto temporal na trama da série, a tão aguardada premiere da última temporada de Treme chega para concluir os arcos abertos, e ainda aproveita para mostrar que a vida mudou, há esperança no ar, há um senso de que se deve fazer, pois não se pode ficar chorando pelo passado. O clima em New Orleans é diferente, bonito é ver as diferentes tramas, que de repente namoram, se tocam e se afastam, em um ritmo tão parecido com o da vida real, onde o destino (se é que se pode acreditar nele) trata de decidir o que faremos de nossas vidas. Parece que em Treme, os personagens tentam deixar o destino cuidar apenas de uma parte dessa aleatoriedade, pois agora, todos parecem empenhados em algo, todos parecem esperançosos, a mágoa e o trauma são vistos tão longe. Treme é uma representação tão agridoce da realidade, seus momentos mais simples podem ser tão intensos, é impossível não se emocionar. É impossível não se identificar. Esse texto tratará de algumas tramas e seus desenvolvimentos, mas dificilmente conseguirá expressar o que o autor ou o leitor sentem, como espectadores de um dos melhores dramas da atualidade.

O primeiro presidente negro dos Estados Unidos, junto dessa nova era, veio a esperança, que dura alguns momentos, mas logo algo trata de trazer o povo de volta à realidade dura da vida. Yes We Can Can é um marco para a série, pois New Orleans foi deliberadamente negligenciada por George Bush durante sua administração e Obama representa o interesse do povo, de maioria negra, que reside na cidade. Quando Antoine fala para sua filha, “Este é o presidente, querida, ele se parece com você”, a emoção que flui na cena, e que transcende a tela, é enorme, o roteiro ainda utiliza o som de um trompete solitário, em um fundo de comemoração, para levar Kermit Ruffins a perceber que a comemoração pela vitória e Obama nas eleições não é tão bem vista pela nefasta polícia de New Orleans, a sequência que encerra a cold open é uma representação do que estaria por vir no resto do episódio, um contraponto forte entre esperança e volta à realidade.

DJ Davis is in da house. O entusiasmo e admiração pela vida e pelas coisas simples que rodeiam o personagem transformam-no no alívio cômico da série, mas isso não significa que sua trama seja desinteressante ou menos relevante que as outras. Davis sempre procurou fazer o que gosta, da maneira que achar melhor. Trabalhando em uma rádio novamente, o personagem não se acomoda, pois isso seria errado para seu espírito. Uma coisa que se destaca na história de Davis, e que considero extremamente genuína e legal, são seus relacionamentos com as duas ex-namoradas que a série apresenta, Janette e Annie. Acho tão interessante e moderno a maneira como os três se relacionam, Davis sempre manteve um bom relacionamento com Janette mesmo após o término, e agora faz o mesmo com Annie. O fim da temporada passada mostrou que as coisas não andavam bem com o casal, e ainda mais interessante é ver que Davis se relaciona melhor quando apenas amigos, do que quando namorando. O espírito livre do personagem faz com que ele aja dessa maneira.

Se tratando de Janette e Annie, vê-se que ambas buscam o mesmo objetivo, o back to basics. Janette sempre sentiu falta de New Orelans, quando, nas temporadas passadas era chef em New York, e mesmo com a volta para sua amada cidade, ainda não se sentia confortável cozinhando em um lugar tão artificial e comercial. No fundo, Janette quer estar mais próxima do que usa como inspiração, a arte e a cultura que tomam conta da cidade. Annie sente-se decepcionada com seu agente, e as dúvidas aparentes da personagem talvez tragam-na de volta às ruas do Vieux Carré, onde inicialmente tocava com Sonny por trocados. É incrível como os artistas da série sentem falta da cidade que os inspira. O mesmo acontece com Delmond, que apesar de ter uma trajetória musical totalmente diferente da de Annie, também emociona-se ao ver o pai cantando no encontro dos índios.

Por mais que a premiere da nova temporada seja repleta de novos rumos e motivações, existe algo que sempre habitou a série e sempre habitará, e trata-se da maior crítica de David Simon, presente na maioria de suas obras audiovisuais: a polícia. A corrupção, a negligencia e o abuso de poder. Elementos tão comuns quando se fala da força do governo que mata e fere o mais necessitado, aquele que mais precisa de ajuda. Em diversos momentos do episódio a polícia se faz presente, prendendo Sonny por urinar na rua, analisando a comemoração da vitória de Obama, sendo extremamente falha na investigação de um assassinato e finalmente, deixando um presidiário morrer simplesmente por falta de interesse na vida do próximo. Mas para esses problemas, a série apresenta dois embaixadores do bem, que por sinal, estão mais unidos que nunca nessa temporada final. Toni e Terry sabem dos problemas que a cidade vive, sabem que a polícia é uma instituição de caráter duvidável e sabem que muito trabalho deve ser feito na busca por um mundo melhor. Sinceramente, não entendo o rumo da trama de Terry, que há algumas temporadas vem sendo rejeitado pelos colegas, considerado um delator. A frustração do personagem é evidente, mas não se vê ações maiores que a intimidação e tentativa de motivar um colega, ou a dignidade de investigar um caso, coisa que não parece ser prioridade para a polícia da cidade.

Toni, por outro lado, está sempre atrás de justiça, essa premiere coloca a personagem e sua filha Sofia em um lugar tão confortável, a perda do marido já parece superada, o sorriso das duas caminhando pelas ruas comemorando o resultado das eleições é tão agradável e dócil, “E você ainda queria que eu votasse em Connecticut”, diz a filha. O que fica claro é que as motivações que levam a personagem a essa eterna busca de justiça pelo mais fraco são legítimas e genuínas, porque o trauma que geralmente leva alguém a se tornar compulsivo por algo para esquecer a aliviar a dor, já se foi.

Nesse início de temporada todos os personagens parecem mais maduros. É incrível ver as novas responsabilidades de Antoine, por exemplo, e como o personagem começa a aceitar esse crescimento. Treme apresentou personagens extremamente machucados durante suas primeiras temporadas, e o processo de cura que iniciou no início da temporada passada começa a mostrar resultados. Parece que a reconstrução da cidade, ou a demolição da casas abandonadas, feitas pela empresa de Nelson condizem com o que sentem todos. É hora de reconstruir a alma, é hora de destruir o que sobrou de ruim do passado. De que adianta viver sem esperança?

Outras observações:

É tão admirável como a série consegue criar um balanço tão preciso entre o drama, a graça e a música.

O salto temporal de uma temporada para outra é tão importante para justificar as mudanças de comportamento dos personagens, suas vidas e outros detalhes da série.

Treme tem uma audiência miserável, deve-se agradecer a HBO pela oportunidade cedida a David Simon para finalizar a série do jeito que ele entende ser necessário.

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