Porque toda terceira parte precisa voltar às origens.

Logo que a segunda temporada terminou, preparei um post chamado “Glee: 30 Canções Que Fazem Valer a Pena”, reunindo 15 canções da primeira temporada e 15 da segunda. Elogios e ameaças de morte à parte, retorno para comentar aquelas que considero as 15 melhores canções da terceira temporada.

Está difícil ser fã de Glee. O movimento intelectual de ódio ao programa cresce a cada dia, ao mesmo passo em que a série, ironicamente, só melhora. A gente se resigna, entende que 98% dos críticos negativos não continuam assistindo a série, ou nem mesmo a assistiram, caindo num abismo de preconceito do qual não voltarão mais, claro. Mas de fato, a pressão é grande, mesmo que os fãs de bom senso entendam que a estrutura e dinâmica de Glee depende de identificação.

A segunda temporada não nos ajudou. Eu, como bom underdog que sofreu as mazelas escolares por conta de sexualidade, adorei. Mas também entendo o lado dos fãs para os quais a série não falou. O resultado foi uma corrente negativa grande, que como sempre, se baseia em ideias pré-concebidas a respeito de séries teens que colocam os atores cantando pelos corredores. E houve também o problema com as canções originais, uma maldita ideia que a equipe de roteiristas nunca devia ter levado adiante. Ao mesmo tempo em que até esse fracasso foi trabalhado adequadamente, com o próprio universo da série entendendo isso. Um final frio, então, anunciava problemas, que ainda bem, não vieram.

A terceira temporada começou tímida, mas logo foi mostrando que tudo estava mais amadurecido. Era hora de esquecer experimentações e se apoiar no que funcionava. Depois dos dramas e afetações de praxe a uma série adolescente, Glee pôde voltar a debochar de si mesma e das hipócritas regras morais americanas.

Sinto muitíssimo que muitos tenham desistido, ou mesmo que muitos não se identifiquem com ela. Glee sabe fazer humor ácido como poucas e desafia os bons costumes colocando seus personagens em situações de pura transgressão. Ainda tropeça, mas se salva com um texto ágil, inteligente e sarcástico, e com uma proposta deliciosa de privilegiar o indivíduo que jamais teria sido privilegiado na televisão.

Musicalmente (Que é o que interessa nesse post. Desculpem, eu me empolguei), a terceira temporada retomou os grandes momentos. Errou um pouco ao dedicar muito tempo ao set list de West Side Story, esfriando as coisas, mas se recuperou ao criar as TroubleTones, um anexo do New Directions que movimentou a história e enriqueceu as competições (E vou agradecer sempre por Sugar).

Essa foi a temporada do reassentamento, de selecionar melhor os eventos e harmonias, tudo para que a vitória final fosse mais especial.

Abaixo, então, e aleatoriamente, 15 dos melhores momentos dessa temporada. Para os fãs e para os que não são fãs. Música boa transcende qualquer barreira.

“We Are The Champions”

Nada melhor do que começar com o hino mais esperado pelos fãs da série. Se dependesse do sucesso do New Directions, eles não cantariam essa tão cedo. Porém, a vitória veio, e todo mundo sabia que as chances de rolar um Queen seriam grandes. Como Glee tem boas lembranças de canções da banda, as expectativas eram grandes. E foram satisfeitas. Embora não haja tantas elaborações na música, a distribuição de vozes foi muito esperta e Cory canta com muita vontade, exatamente dentro do espírito do momento. Se formos reparar bem, a maneira como a música foi trabalhada lembra muito o que eles faziam no início da série. Finn e Rachel como base, um arranjo de guitarra e bateria bem marcados, e uma evolução de coral bem característica. A métrica é muito semelhante à usada em Somebody to Love. Enfim, grande momento do programa e catarse garantida.

“Fly / I Believe I Can Fly”

Os números musicais das competições sempre geram muita expectativa, sobretudo porque geralmente esse é o momento em que assistimos o bem vindo momento de superação dos underdogs. Glee sempre foi ambígua nesse sentido, alternando números medíocres (Ah… Nova York) com verdadeiros símbolos de catarse. Esse mash-up de Fly / I believe I can Fly saído das carreiras de Nicki Minaj e R.Kelly ficou tão incrivelmente comovente que sempre fico marejado quando assisto. A voz de Lea, as intervenções de Finn, a levada hip-hop de Blaine… Tudo casadinho com uma atmosfera de competência perante a competição, marcado pelos cortes das expressões rendidas de Sue e Sebastian, e do orgulho de Will, Burt e dos pais de Rachel. Daqueles momentos lindos da série, que fazem o coração se render. E a música ficou lindíssima.

“Cough Syrup”

Eu até me assustei com esse inusitado cover do Young the Giants. Se a canção era linda com aquela levada rock da banda, com o arranjo de violoncelos bem marcado e sintonizado com o arranjo original da música, tudo ficou ainda melhor. Darren Criss está muito bem nos vocais e descreve as emoções da letra (inspiradíssima) com uma propriedade realmente admirável. Além disso, a canção é encaixada no episódio com maestria e ilustra a grande virada de Karofsky (amo esse personagem) de maneira muito correta. É um daqueles casos em que a versão original quase não é alterada e vemos um trabalho de releitura sensível e delicado.

“Perfect”

Com a saída de Blaine daquela estrutura tão cristalizada dos Warblers, pudemos ver mais de seu potencial pop. Essa temporada nos ofereceu bons momentos, que até ajudaram a puxar Kurt daquele marasmo broadwayniano em que ele vive. Perfect é um ótimo exemplo disso. Não há grandes novidades no arranjo, mas o casamento das vozes de Darren e Chris foi tão bem feito que a canção ganhou uma delicadeza que a versão de Pink não tem. Mas esse é um dos casos em que a canção é melhor apreciada na sua versão full. A edição do episódio não privilegiou a música e cortou até mesmo partes da letra que falariam muito melhor à cena.

“Rumour has It / Someone Like You”

A primeira grande bomba musical da terceira temporada de Glee veio tarde, lá perto do final da primeira metade, mas provocou tantos comentários e downloads que só provou o quanto a série ainda é relevante no cenário pop. Com a maneira massiva como o mercado lidava com Adele, era de se esperar que ela não demorasse a ter mais um hit na série. O que ninguém esperava é que a bela canção-chiclete Someone Like You não fosse ser cantada por uma chorosa Rachel, e sim pelas agressivas TroubleTones, numa versão absurdamente criativa, que contou com a base de uma das canções menos executadas da cantora, a ótima Rumour Has It. E tudo funciona perfeitamente. A cena é ótima, a coreografia é ótima, os vocais são um desbunde e esse fica eternizado como um dos momentos mais fortes do programa.

“ABC”

O reinado de Michael Jackson nessa terceira temporada rendeu bons momentos. Infelizmente o confuso episódio em sua homenagem não fez tudo que podia para honrar seu nome. Dele, apenas um grande momento fulgura nessa lista, e não se trata de ABC. Uma olhadinha na apresentação dos Jackson’s 5 no You Tube, chega a dar um nó na garganta. Um lindo Michael canta ABC ainda garoto, com a propriedade de uma grande estrela. Um artista em profusão. O sentimento se repete ao ouvir Ben, uma das canções mais lindas e comoventes da história e que fica maior ainda quando pensamos que foi feita por um menino ainda. Para ABC, a série preparou um daqueles momentos de sorrisão, em outra das boas apresentações competitivas (sem Rachel, pasmem), quando fica provado que Tina sempre mereceu mais destaque (embora eu tenha adorado as ironias feitas a isso, mais tarde, dentro da própria série) e que o sucesso de um número não depende da dinâmica Rachel / Finn / Kurt / Mercedes.

“Mean”

Simpatizante de Taylor Swift desde que ela foi interrompida por um panaca enquanto ganhava um prêmio, sempre curti essa musiquinha discreta e singela que ela arranjou de uma maneira muito dedicada. É bem verdade que a versão dela é superior em detalhes. Tem as palminhas, a bateria… É uma canção competente. Mas vê-la nas vozes graves de Puck e Bestie foi realmente desbravador. É um grande momento dos dois e embora acústica, a versão supera a original em força e apelo dramático.

“Big Girls Don’t Cry”

Glee sempre buscou arriscar em suas versões. Se não no arranjo, ao menos nas estruturas de parceria. Big Girls Don’t Cry não seria a mesma se cantada apenas por Rachel (já que não houve mudança considerável no arranjo), mas ao trazer Blaine e Kurt para esse ménage, tudo cresceu 300%. Aqui, infelizmente, mais uma vez a versão apresentada na edição do episódio não fez jus à canção. A versão full é muito mais bem acabada e envolvente.

“I Will Survive / Survivor”

As meninas do TroubleTones foram das melhores coisas dessa temporada. Além de um conceito, o grupo também ofereceu momentos musicais ousados e empolgantes. Entre Stronger e I Will Survive, acabei ficando com a última, já que a pitadinha de Survivor deu um up grade na música que é impossível não levantar e sair dançando. E ainda me impressiona como eles são inteligentes nesse sentido. Assim como na segunda temporada, em que uma pitadinha de West Side Story no meio de Unpretty tornou o que era bom em ótimo, esse pedacinho de Survivor tornou essa versão em um momento único e insuperável de Glee.

“How Will I Know”

Com um laço prateado imenso na cabeça, Whitney Houston aparece cantando How Will I Know nesse vídeo que eu faço questão de postar aqui:

O ritmo é aquele bom e velho “dançante” dos anos 80 e chega a assustar o quanto Glee transformou essa canção. Não tenho registros de algo parecido, então estou creditando a criatividade ao programa. Porém, mesmo que haja, o que essas meninas (incluindo Kurt) fazem com essa canção é de emocionar qualquer um. É de sentar, ouvir, e aplaudir de pé.

“Shake it Out”

Se nenhuma das canções dessa terceira temporada te comover, tenta com Shake it Out e duvido que algo dentro de você não se revire de emoção. Parecia impossível que a canção poderosa e irresistível de Florence pudesse ter uma versão à altura, mas eis que no episódio 18 da temporada, Glee marcou mais uma vez seu nome na história, com uma porrada musical de arrepiar a nuca. Tina, Mercedes e Santana apresentam um cover que supera toda e qualquer expectativa e é de longe, uma das coisas mais lindas já feita pela série. E o melhor: encaixadinho no plot, num dos momentos dramáticos de maior poder dessa temporada. A letra, unida à sensibilidade dos vocais, e ao enredo proposto, tornou “Shake it Out – Glee Cast” num pedacinho de ouro da contemporaneidade.

Em tempo: Sei da versão acústica de Florence, mas não dá, gente. Não tem comparação.

“Smooth Criminal”

O episódio/tributo à Michael Jackson foi cheio de boas intenções, mas padeceu de uma incoerente falta de brilho. E falta de glamour numa história sobre o Rei do Pop e suas lantejoulas, não dá. Enquanto o tributo à Madonna tinha um conceito bem distribuído entre versões inspiradas de suas canções, e o de Britney investia muito no apelo  visual de seus videoclipes, o de Michael não investiu numa boa história e nem numa elaboração imagética. Ficou no meio do caminho… Dos números apresentados, apenas Smooth Criminal surpreendeu. Além da voz perfeita de Santana, o arranjo com violoncelos foi um achado. E achado mesmo, já que a série apenas utilizou os artistas e a versão deles da canção, colocando as vozes por cima. Até o cenário com cadeiras já fazia parte do videoclipe dos músicos. Mesmo assim, a combinação foi muito acertada e vale a pena a menção nessa lista.

“Stereo Hearts”

Esse é o momento de falar sobre os vencedores do The Glee Project.

O reality show mais louco e irresistível da televisão lançou nada mais que dois vencedores e lá foram eles participar dos seus sete episódios de direito. Os vencedores coadjuvantes, Alex e Lindsay, em uma participação bem menor, fizeram muito mais. Lindsay arrasou em Buenos Aires e Alex quebrou tudo com seu Unique (tornando as escolhas oficiais de Ryan Murphy ainda mais duvidosas). Boggie Shoes é uma delícia de ouvir e dá uma surra na versão original. Já Damian foi o mais azarado na parte musical. Não souberam aproveitar sua voz grave e só curti Being Green depois de ouvir atentamente, fora do contexto do episódio, onde ela parece deveras apática. Damian canta muito bem a música e merecia mais destaque. Já Samuel Larsen teve uma estreia mais bacana com essa bem produzida Stereo Hearts. Eu havia decidido incluir apenas uma música dos vencedores do reality, e Stereo Hearts só ganhou de Boggie Shoes por causa do belíssimo arranjo vocal masculino, enriquecido com um belo coral gospel. Espero que o vencedor da segunda temporada tenha mais sorte.

“Girls Just Want To Have Fun”

Outro exemplo brutal da capacidade de Glee de chutar o pau da barraca. Muitos consideraram o maior sacrilégio do planeta pegar esse hit de Cindy Lauper…

… e profaná-lo com algo tão deprimente. Mas pra mim funcionou muito! Sempre adorei as músicas de Cindy, mas cantadas por outras pessoas. Aqui, a sensibilidade do arranjo é notável. O piano é lindíssimo e é curioso como a música, cantada desse jeito, dá à letra um sentido mais aprofundado.

“Roots Before Branches”

E por fim, um metalinguístico momento musical de Glee. A série, como a conhecemos, termina. Para o último momento, nos entregam a belíssima cena final de Rachel indo buscar seu destino. Lea Michele canta Roots Before Branches, música de trabalho de uma dupla chamada Room For Two. O que surpreende é que essa dupla é formada por Nikki Anders e seu marido, velhos conhecidos de The Glee Project. Titio Ryan Murphy quis então que Rachel cantasse essa canção para fechar o ciclo high school da personagem, e ao mesmo tempo, intertextualizar a série e o reality. Funcionou. O momento é fortíssimo e a música caiu como uma luva.

Nos vemos na quarta temporada, onde tudo vai mudar e tudo pode acontecer. Tem sido venturosa a experiência de acompanhar Glee. Espero que pra muitos de vocês, também.

Para conferir a parte 1 clique aqui e aqui para a parte 2.

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