
Assistir uma série pode ser um delicioso exercício coletivo, daqueles que tornam a existência do programa algo infinitamente superior, porque gera reflexão e correlação. Geralmente uma série de sucesso produz uma corrente positiva opressiva. Os fãs podem ser uma força de defesa mordaz, mas não podemos dizer que serão sempre justos.
Spoilers Abaixo:
Gostar de uma série não significa reconhecer sua qualidade. Não sempre. Existem muitas razões que nos fazem continuar a ver um programa e quase sempre elas independem das escolhas que a série está fazendo. Nesse caso, argumentos de defesa cega irritam e incomodam. Mas há também o que chamamos de “séries de potenciais ocultos” e essas só são descobertas por quem desafia o preconceito inicial e segue em frente. Nesse caso, argumentos de defesa são uma maneira de apontar para a verdadeira justiça.
Mas o que é a justiça quando se fala de paixão ou repulsão?
O Série Maníacos desvenda um pouco dos argumentos de ataque e defesa que melhor exemplificam essa dinâmica.
“Quem liga pra série The Walking Dead? O HQ é melhor”.

“Fã da Série: Não é uma série sobre zumbis.
Fã do HQ: É claro que é. Tem zumbis por toda parte.
Fã da Série: Os zumbis são apenas uma metáfora para a existência humana. Organismos irracionais que andam sem rumo e devoram qualquer coisa pela frente.
Fã da HQ: Eu não quero metáforas, quero sangue. Eu quero ver zumbis. É pra isso que esse troço existe.
Fã da Série: Você está sendo simplório.
Fã da HQ: E você tá sendo pedante. É tanta metáfora que não sobra espaço pras tripas.
Fã da Série: Se você quer ver tripas porque não assiste Spartacus?
Fã da HQ: Porque lá ninguém COME elas.”
O problema de toda adaptação é aquele que já sabemos: as comparações. E a gente tem que tentar entender os produtores, já que o ritmo literário é realmente muito diferente do ritmo televisivo. Há de se cortar coisas, ampliar outras, suprimir algumas… O problema todo é quando a adaptação vira uma questão conceitual. Isso é que não pode acontecer. E é o que dá a entender os rumos pretendidos para a série The Walking Dead. Pra mim, que li muita coisa dos quadrinhos, a percepção da série é muito diferente de quem não leu. Mesmo assim, alguns dos que não leram já compreendem o ritmo letárgico do programa, que numa tentativa tola de imprimir mais erudição, se arrasta lentamente. Mas a série é a série. Ela deve ser vista como uma produção independente, até porque, pra quem gosta dela, deve ser uma chatice ficar ouvindo o quanto os quadrinhos são melhores.
“Smash é que faz musical de verdade”

“Smasher: Chupa Glee! É assim que se faz musical.
Gleek: Dá licença, mas sem Glee, nunca teria havido um Smash.
Smasher: Que pretensão. Sem um High School Musical é que nunca teria havido um Glee. Malditos sejam os dois.
Gleek: Nossa… Glee é tão inferior que algumas semanas depois da estreia e Smash já tava toda trabalhada na estética Gleeniana.
Smasher: Credo! E aquelas versões??
Gleek: Pois é… Aquelas maravilhosas versões que Smash teria que comer muito feijão com arroz pra fazer. Só um exemplo: Shake it Out.
Smasher: Quem aguenta a Rachel?
Gleek: Quem aguenta a Karen?
Smasher: Nós temos Ivy.
Gleek: E nós temos Santana! Suck it!”
Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Bom, nesse caso sabemos que o High School Musical veio primeiro. No entanto, Ryan Murphy já tinha visitado o gênero high school em Popular. Qual o problema então de aproveitar uma onda pra fazer melhor que os primeiros que surfaram? Glee é superior ao HSM de tantas maneiras que nem adianta começar a falar. Mas Glee é uma comédia adolescente, que embora seja inteligente e sarcástica, carrega toda a negatividade de ser teen em suas costas. Por isso, quando Smash apareceu todo mundo já sabia o que ia acontecer: comparações. E Smash ia ganhar, claro. Porque era feita por adultos e tinha como base narrativa a execução de um musical propriamente dito. Todo fã de Glee teve que aturar muitos críticos usando a frase destacada aí em cima. E dá vontade de gritar muito pela justiça dos fatos. Smash pode ser maravilhosa (e é), mas encaixar tão bem narrativa e trilha, com muito deboche e sagacidade, é coisa que só Glee sabe fazer.
“Sex and the City é uma série-mulherzinha”

“Macho: Bando de menopausadas.
Fêmea ou MachoGay: Mulheres do nosso tempo.
Macho: Não sabia que ainda estávamos nos anos 90.
Fêmea ou MachoGay: É uma série sobre comportamento humano antes de tudo.
Macho: Uma jornalista metida a independente que só pensa em personificar seu príncipe, uma advogada meio megera que só fica com quem a deixa sentir-se superior, uma patricinha-bem-passada que se acha a Barbie e uma velha safada que já deu pra toda Nova York.
Fêmea ou MachoGay: Tem coisa mais humana que isso? E é uma série tão engraçada… E tem peitinhos o tempo todo.
Macho: Ah, isso é legal. Mas a Carrie é tão estranha…
Fêmea ou MachoGay: Isso é mesmo… Só não olhar pra ela.”
A parte dos peitinhos já deveria ser suficiente como primeiro incentivo, mas de fato qualquer pessoa que queira ver uma série inteligente e eficiente, devia ver Sex and the City. São dramas femininos? São. Mas desde quando o drama tem gênero sexual? Poucas vezes algo tão sagaz foi feito na televisão mundial, e durante seis temporadas a trajetória das quatro amigas foi impecável.
“Breaking Bad é infalível”

“O fã incondicional: Dá licença, mas você tá falando de Breaking Bad. Dobre a língua.
O fã tardio: Não vi essa Coca-Cola toda, não.
O fã incondicional: Cara, é Walter White! Pelo amor de Deus!!
O fã tardio: E pelo jeito a invocação de seu santo nome já deve ser suficiente.
O fã incondicional: Vince Gilligan planejou sua criação com minúcias.
O fã tardio: Vince Gilligan fez um monte de besteiras no Arquivo X.
O fã incondicional: Não era criação dele.
O fã tardio: Ele deveria pedir desculpas públicas por aquele finale da segunda temporada.
O fã incondicional: Ele merecia o Pulitzer pelo finale da quarta.
O fã tardio: Por quê? Por aquele joguinho batido de “Ah, Walter e Jesse brigam… Oh, Walter e Jesse se unem novamente… Oh, parece que dessa vez alguma consequência séria vamos ter… Ops, ainda não”… Fala sério, até o câncer do cara eles curaram. “
O terreno aqui é minado. Falar coisas negativas sobre Breaking Bad é quase o mesmo que profanar território sacro. É como urinar na tábua dos mandamentos. E exatamente porque sempre notei isso, que lá fui eu assistir essa produção tão perfeita. Só pra constatar que como toda série, ela não tinha nada de perfeita. No entanto, a rejeição a uma crítica sobre o programa é tão grande, que cheguei a pensar duas vezes em incluí-la nesse top. Ainda acho que a série é muitíssimo superior a muita coisa que vemos por aí, mas no que diz respeito a ousadia, ela fica muito aquém de algumas irmãs de gênero. Breaking Bad é cheia de tensões, isso é fato. Mas nada nunca explode de verdade na cara dos protagonistas. Esses, que vivem uma eterna dinâmica de junta e separa. Em quatro anos de existência, Breaking Bad preserva seus personagens regulares com total afinco, e isso numa série que lida com o limite da segurança o tempo todo. Não que a morte seja importante numa narrativa, mas devemos considera-la como reação natural a certas escolhas que fazemos. Walter e Jesse se dão muito bem… A despeito de todo o sangue derramado de pessoas que não nos importam, eles são sempre muito sortudos. E tudo em nome da segurança da temporada seguinte… Já vi posturas mais corajosas que essa.
Breaking Bad é riquíssima em pzisismos, simbologias, metáforas e está nisso a sua maior qualidade. Porém, ao menos pra mim, a série não funciona como um produto de ousadia e imprevisibilidade. E se a corrente de defesa a ela não fosse tão xiita, a iniciativa desse texto até perderia completamente a relevância.
“O final de Lost é uma droga”

“O Detrator: Seis anos de enganação. Final de bosta.
O Defensor: Seis anos de deleite. Uma resposta insatisfatória não desmerece a jornada.
O Detrator: Desculpa esfarrapada. Se eu quisesse ver uma “série sobre pessoas” eu assistia o ABC Famíly.
O Defensor: Toda série é sobre pessoas.
O Detrator: Que é? Não gostei mesmo. Passei seis anos louco pelo episódio seguinte, discutindo temporadas, tecendo teorias, me arrepiando com reviravoltas, chorando de emoção com os personagens, mas não gostei do final e agora vou ficar debochando.
O Defensor: Muito maduro.
O Detrator: Mimimi, mimimi, mimimi… Olha a luz!! Proteja a luz!! Luz é meu *#*$… Eu quero a resposta que eu queria!! A que eu queria!!
Quem é fã das simbologias de Lost tem coceiras quando escuta esse tipo de declaração. A frase acima nem é um argumento em si, mas é como se fosse a síntese deles. A declaração fica ainda mais difícil de ouvir quando vem de um fã declarado, daqueles que se voltaram contra o programa depois do series finale. O deboche quase sempre vem junto. Ironias sobre a “luz” ou sobre “a série sobre pessoas” já quase viraram bordões. A grandiosidade de Lost, no entanto, samba sobre toda essa preguiça intelectual e se reafirma como algo absolutamente superior a tudo que já vimos ou estamos vendo na televisão. Claro que dizer isso já deve estar irritando alguém que acha que de fato, o argumento mais estúpido sobre Lost é dizer que seu final foi maravilhoso. E foi, doa a quem doer. Respostas que não agradam não são o mesmo que não ter respostas. A série é um ciclo que se expandiu e se fechou. Vale a metodologia, se de fato o emocional não for capaz de conquistar.
“Boardwalk Empire é uma cópia de Sopranos”

“Os Filhos de Tony: Quietinho aí, caçula. Quem vem primeiro é quem manda.
Os Filhos de Nucky: O tempo de vocês já passou.
Os filhos de Tony: Concordo, mas quem manda agora não é Nucky Thompson.
Os filhos de Nucky: E quem é?
Os filhos de Tony: Don Draper.
BE é uma cópia de Sopranos? Não, não é. Até porque, pra ser teria que malhar muito. Depois do final da série de David Chase, os roteiristas contratados foram pra praça com seus currículos e brigaram pra ter seus nomes nos créditos principais. Tanto Matthew Weiner (Mad Men)¸quanto Terence Winter (BE) conseguiram essa oportunidade. A questão é que enquanto Weiner tentou imprimir uma linguagem particular logo de cara, Winter colheu frutos demais na árvore de Chase. Boardwalk tem um excesso de semelhanças com a saga de Tony Soprano e a partir do momento em que enfraquece sua qualidade (como na segunda temporada) as cobranças e comparações aumentam muito. Mesmo assim, imagino que os fãs de Nucky tenham que lidar com esse fantasma desde que o programa estreou e que rebater essa natureza referencial seja o maior desafio deles.
“Fringe é muito mentirosa”

“O lado de quem Entende: É tudo uma questão de referência… De Isaac Asimov, de Stephen King, de mitologia…
O lado de quem Subestima: Pra que ver uma série que pra ser assistida precisa de uma consulta bibliográfica?
O lado de quem Entende: Está tudo embasado.
O lado de quem Subestima: Aquela palhaçada de lado a, b, c, y, z está embasada no quê? E aquela maluquice de entrar na consciência dos mortos através de um banho de barril? Que laboratório é esse que tem uma vaca dentro? E aquele velho doido? Que droga aquele pobre coitado vive ingerindo? E o Pacey? Porque ele não pega logo aquela loirinha? Ela é fancha? Só pode ser… Ah não, é muita mentira.
O lado de quem Entende: Se a gente for cobrar realidade de tudo só vamos assistir documentários.
O lado de quem Subestima: Fringe é pra quem vive alienado.
O lado de quem Entende: Não, Pedro Bó. Fringe é pra quem tem cérebro.”
Se você não tem paciência pra lidar com ficção, e ainda mais ficção científica, fique longe de Fringe. Agora, se você entende que todo fato científico um dia já foi filosofia, fique conosco. Essa é a série que mais já foi fundo nas fronteiras entre o real, o científico e o quântico. E quando se lida com esse tipo de variedade, não adianta ficar preso a estúpidas noções de realidade. Não existe realidade. Não existe mentira na ficção, só existe previsão.
“True Blood é ótima”

“O fã: True Blood é sensacional!
O sensato: Quantos dedos tem aqui?”
True Blood é como um vício. A gente reconhece os malefícios, mas continua usando por pura compulsão. Essa série desceu os degraus da permissividade como quem não enxerga os relevos. De repente tudo passou a ser possível! Vampiros, bruxas, fadas, lobisomens, e se não bastassem os lobisomens, panteras! Já estou esperando ratos encantados na próxima temporada. Reconhecemos suas qualidades estéticas, seu sexismo e seus momentos de humor, mas daí a dizer que True Blood ainda é padrão HBO, não dá.
“The Killing sabe o que está fazendo”

“O que parou de acreditar: Alguém matou Rosie Larsen?
O que continua acreditando: Não fala besteira, cara. Claro que matou.
O que parou de acreditar: Não sei… Estou começando a achar que ela vai aparecer viva, fumando um charuto e dançando Tico-Tico no Fubá na própria cova.
O que continua acreditando: Os caras sabem o que estão fazendo.
O que parou de acreditar: Sabem nada. Estão decidindo quem é o assassino na purrinha. “
Se os criadores e produtores de The Killing quiserem, eles podem prolongar o mistério por anos. Basta criar uma tensão, dar uma pista falsa que se revela no finale e depois voltar na temporada seguinte com um monte de novos personagens que representam novas possibilidades que acabarão não se concretizando. A essa altura, não tem mais a menor importância saber quem matou essa criatura. A gente só quer que acabe.
“The Vampire Diaries é uma série oportunista e parece com a saga Crepúsculo”

“O fã de TVD: Se você assistir vai entender o que eu estou falando.
O que odeia Crepúsculo: Eu nunca vou assistir isso.
O fã de TVD: Cara, dá uma chance. Eu tô falando sério mesmo.
O que odeia Crepúsculo: Aff, menina com cara de chuchu dividida entre dois seres sobrenaturais? Não dá.
O fã de TVD: Mas assiste, por favor…
O que odeia Crepúsculo: Tem lobisomen?
O fã de TVD (hesitante): Tem.
O que odeia Crepúsculo: Tem bruxaria?
O fã de TVD (entristecendo): Tem.
O que odeia Crepúsculo: Os vampiros andam na luz do sol?
O fa de TVD (arrasado): Andam. Mas só alguns, e tem o anel…
O que odeia Crepúsculo: Sem chance!!
O fã de TVD: Assiste, por favor. Assiste, eu imploro. É bom, é muito bom…”
É basicamente isso mesmo. Existem razões isoladas que tornam TVD totalmente repulsiva para a maioria do público. No entanto, que série fantástica!! Ela tinha tudo pra ser terrível, mas acabou sendo uma das melhores coisas da televisão atualmente. Muito disso é o dedo de Kevin Williamson, que entende do riscado, e que entra com um texto seguro e um ritmo frenético que não perdoa personagens, não poupa reviravoltas e consegue o fato raro de permanecer relevante.
O pior é que se você que não vê, visse, ia concordar. Eu garanto. Bastar conseguir passar pelo piloto e pronto, mito desfeito.
E vocês, quais argumentos sobre séries que sempre ouvem por aí? Compartilhem.





















