Temporada Final, “Eu Quero Acreditar” e Últimas Considerações.

A verdade que nunca esteve lá fora.

Quando pensamos em Hollywood em termos de indústria – sendo ela o maior polo de faturamento através da matéria-prima do sonho – pensamos sempre no quanto ela também é capaz de ser hiper objetiva e prática. Lembro que um dos meus maiores desprazeres com essa força destruidora da ambição deu-se quando assisti à quarta sequência de “Tubarão”. Ao final do filme o desgosto era tão grande, que nem o desejo de ver o monstro marinho em ação novamente, conseguiu suplantar. O processo criativo tinha sido engolido pelo anseio monetário… Nada era mais importante que faturar.

O motivo de começar falando disso num texto sobre Arquivo X é que provavelmente a maioria dos fãs entende a nona e última temporada, como um movimento de satisfação financeira da Fox, que lucrava – e lucra até hoje – muito com a série. É claro que o dinheiro era importante, é claro que os anunciantes eram valiosos, mas Arquivo X quis uma nova temporada depois das turbulências da Season 8, também por conta da vaidade de seus criadores. Vencer a própria limitação após o encerramento da primeira mitologia, vencer a resistência dos fãs, mas, sobretudo, vencer David Duchovny. A maior verdade acerca desse turbulento momento era essa: tudo era uma questão de Mulder.

Não vamos menosprezar o trabalho de Gillian, claro. A série só respirou sem aparelhos durante os anos finais por conta dela e ela só esteve firme no programa até o momento derradeiro, por conta de sua imensa gratidão à Chris Carter. Scully virou o centro das atenções no Oitavo Ano, mas começou a ser coadjuvante no Ano Nove. Por dinheiro e por vaidade, Carter quis realmente que Doggett e Reyes dessem certo, numa postura equivocada que achava que o roteiro estava acima do show.

Os problemas de mitologia eram visíveis. Cometido o erro maior – os supersoldados – não se tinha muito o que fazer a não ser viver com esse engano. Se pensarmos bem, esse aspecto da nova conspiração não deu um passo sequer no nono ano. Carter parou completamente de caminhar nessa direção, provavelmente num medo paralisante de continuar complicando o que já estava ruim. Nem uma cabeça sequer foi arrancada pelos supersoldados, mas eles ainda estavam ali, sem nenhuma função devida.

O foco foi pro pequeno William, e ele salvou a temporada do marasmo. As questões em torno dele eram as únicas próximas de uma evolução justa. Embora o caminho tomado tenha sido o mais fácil, o de tornar a origem do bebê uma versão bem sucedida de algum tipo de experiência (algo que já tinha sido feito com Cassandra Spender), era o caminho mais digno também. Carter preferiu ser minimalista na mitologia e investiu em histórias soltas que fizessem jus à última temporada. O problema é que isso resultou numa decepção maior que todas as que tínhamos tido até aqui: Um Series Finale dos mais fracos de toda a história da TV.

Mas chegaremos lá… Abaixo, a última lista com os últimos dez melhores episódios da última temporada de The X-Files.

9X01: “Nada Importante Aconteceu Hoje – Parte I”

Por mais problemas que a série estivesse tendo, a ansiedade em ver como seria seu retorno era imensa. E como já dissemos, Carter precisou ser reticente. O episódio chega  como uma possibilidade real de um novo começo para a mitologia. Lucy Lawless faz uma participação especial, vivendo um dos supersoldados que praticamente explicam tudo que precisava ser explicado no ano anterior. Há uma série de recorrências na forma como a trama é conduzida, mas ali havia uma esperança. Esse é o principal motivo pelo qual esse episódio está aqui.

Um pequeno PS: A abertura, dessa vez, mudou completamente, mas, pelo menos, trouxe de volta as frases de abertura.

9X03: “Daemonicus”


Frank Spotnitz abre muito bem o ano com um ótimo “caso da semana”, que além de fazer uma alusão bem-vinda ao universo de O Exorcista, tinha uma trama extremamente perturbadora. De novo, nada de muitas explicações, mas respeitando o modo nublado de ser nublado da série. Frank, inclusive, tem uma extrema atração pelas manifestações físicas do mal, de sua natureza. Daemonicus dá uma aula de identidade visual e respeita imensamente seu papel nessa última jornada.

9X06: “O Senhor dos Insetos”

 

Com uma dose delicada de humor, O Senhor dos Insetos apareceu com uma ideia interessante ligada aos feromônios que dominam a essência dos adolescentes. O conceito foi exagerado e mesmo com um pé no cinema trash, aproveitou bem esses elementos. Samaire Armstrong (a Anna de The OC) viveu a mocinha desejada pela “criatura deslocada” e Jane Lynh (Glee), viveu a mãe-alfa do jovem apaixonado. Jesse, de Breaking Bad, também pode ser visto aqui.

9X08: “Não Confie em Ninguém”


Um lindíssimo teaser abre esse fantástico episódio escrito pelos criadores da série, e que se aprofunda nos dramas de Scully com uma sensibilidade incrível. De novo, a mitologia não nos oferece nada de novo (a não ser a revelação de que os supersoldados tem uma fraqueza estúpida), sobretudo porque já sabíamos que os agentes eram vigiados em todas as instâncias. O episódio é ótimo por sua estética, por sua carga emocional, pela presença ausente de Mulder, por Terry O’Quinn com seu bigodinho confirmando que os agentes dormiram juntos em Todas as Coisas… O episódio é ótimo porque tem paixão nele. Esquecendo a bobagem da repetição do “seu filho ou Mulder tem que morrer”, ele passa quase incólume pelas críticas.

9X10: “Procedência”


Depois de alguns bons episódios procedurais, a notícia do cancelamento veio definitiva, pelo menos em caráter oficial. Procedência também tinha seu planejamento e junto com sua continuação, vieram para esclarecer quais eram as questões em torno do bebê. Foi um movimento importante, porque passou a focar no lugar certo, e ajudou a produzir outro dos melhores episódios da série: William. A nave alienígena vista em Biogênese torna a aparecer e ajuda a melhorar a atmosfera do episódio (com direito a ótima sequência do pedaço dela voando para o berço de William). Há um flerte com uma interessante discussão acerca do que separa Deus como nós vemos, do Deus que já era questionado pelas teorias de “Eram os Deuses Astronautas?”. E terminamos com os Pistoleiros Solitários falhando no que acabaria sendo a última de suas missões.

9X11: “Providência”


A razão pela qual “o filho de Scully tem que morrer” finalmente encontra a luz. São motivações um pouco nebulosas ainda, mas que evidenciam um plano que talvez tivesse tido tempo de seguir com verdadeiras surpresas, se tivesse nascido antes. O episódio começa com um ótimo teaser narrativo, abordando as sempre interessantes organizações de culto ao alienismo (mas sempre pouco exploradas), e vão, pouco a pouco, deixando claro que o problema não é William ser especial, é ele ser filho de Mulder, que tem um legado grande demais para ser ignorado por sua prole. O tempo todo, Carter não é muito claro sobre se o bebê é fruto de um pró-colonização ou contra-colonização. Nenhum problema até aí, mas o apego a velhos formatos (como a insistente mania de criar enigmas) enfraquece a qualidade do episódio. Vale lembrar que o “arroz de festa” Alan Dale dá as caras por aqui fazendo um supersoldado caladão que, sem dúvida, seria sério candidato a vilão promovido, caso o programa continuasse no ar.

9X14: “Improvável”


INSANO. O único episódio solo de Carter na temporada (além do último) foi simplesmente INSANO. Exatamente por isso, irresistível. Nele, Monica precisa encontrar um assassino usando numerologia (o episódio em que a personagem esteve melhor desenvolvida, aliás) e o 666 vem para nos assombrar na trama. Ela e Scully são as estrelas dessa improvável ligação dramatúrgica entre o mal e a presença de Deus na forma como são traçados nossos caminhos. O episódio traz um Burt Reynolds inspirado e uma direção (também de Carter)que quebra todos os protocolos da série. Aqui, funciona. Improvável é um episódio divertido e provocativo, mas ainda assustador, e com um final que entrou na galeria dos finais mais INSANOS que já foram vistos na TV até então.

9X17: “William”


Todos ficaram sabendo que Duchovny voltaria para o encerramento da série, mas o que não sabíamos era que ele dirigia e daria pitacos na execução de William. O episódio começa com um casal ansioso pela chegada do filho adotivo que tanto desejaram. Em choque, percebemos que se trata do filho de Scully e Mulder. Voltamos no tempo para descobrir como chegamos até ali, e damos de cara com uma trama impressionante que mistura tudo que a série foi de maneiras muito mais competentes que no series finale. Um homem deformado surge com informações sobre tudo que diz respeito ao Arquivo X e logo todos começam a desconfiar que se trata de Mulder. Somente vendo o episódio é que dá pra entender a força do medo, do suspense, da tensão, da angústia que aquela dúvida provocava em todos os personagens, e em nós. Por fim, o segredo maior era tão chocante quanto a ambiguidade da situação, e Scully se vê obrigada a abrir mão do filho para mantê-lo vivo, na única e realmente trágica decisão dos roteiristas desde o momento em que ficou decidido o fim.

9X18: “Dias Alegres”

Vince Gilligan (que tempos depois criaria a unânime Breaking Bad), se despediu dos roteiros de Arquivo X com esse discreto Dias Alegres. O episódio também trouxe Michael Emerson na sua chance derradeira de fazer parte do projeto que abriria portas para a possibilidade de Lost existir com tanta força, no futuro. Vince escreveu uma história interessante sobre um homem capaz de tornar visível e real, tudo que ele imaginasse. A exemplo do que aconteceu em Três Desejos, Scully tem, e perde a chance de provar algo inédito na história da ciência.

9X19 / 9X20: “A Verdade”


Dói ter que admitir que muito pouco se tem a dizer sobre esse último e totalmente inútil series finale de The X-Files. De bom, não se tem quase nada a dizer realmente. Ele aparece por aqui porque somos fãs, e acabamos sempre amando esse ou aquele detalhe. Aqui, no caso, amamos o beijo de verdade trocado entre os agentes, amamos a forma como se tratam com carinho deliberado, finalmente, amamos Mulder de volta, amamos que a grande verdade em questão tenha sido revelada nos primeiros segundos de episódio, e que fosse uma prova de que The X-Files sempre esteve na vanguarda… Fora isso, só havia motivos para odiar…

Pecados foram cometidos nessa temporada, mas nenhum deles foi tão imperdoável quanto o que encerrou os nove anos de show. A lista abaixo poderia se resumir a apenas um erro: “A Verdade”. Porém, vamos dar uma olhadinha nas outras coisas menos graves, mas nem por isso incólumes.

Os piores episódios da nona temporada são:

9X02: “Nada Importante Aconteceu Hoje – Parte 2”


O problema desse episódio: Nada importante aconteceu hoje. Pra piorar a sensação de “não estamos indo a lugar nenhum”, a gravidez de Lucy Lawless atrapalhou os planos de Carter e essa trama dos supersoldados foi sepultada de vez.

9X13: “Audrey Pauley”

Vamos resumir assim: Outro episódio com todos a beira da morte. Hospital voador. Parentes de pacientes com morte cerebral aparente, em pânico com esse episódio. Final esdrúxulo e condução sem sentido.

9X15: “Eles Nunca Morrem”

Mas morreram… Os Pistoleiros Solitários tiveram sua série própria, que não durou nem metade de uma temporada inteira. Como consolação, Carter e Vince Gilligan fizeram esse “episódio-despedida”, sem Mulder e nem Scully, apoiado na mitologia extinta da série deles que ninguém viu, e ainda por cima os mataram sem a menor necessidade. Vergonhoso.

9X19 / 9X20: “A Verdade”

Sem nenhuma mitologia pra desenvolver e sem nenhum segredo relevante que justificasse o título (visto que a data da colonização na mitologia anterior não era a mesma do apocalipse Maia), Chris Carter resolveu fazer um episódio-tributo… E foi cagada atrás de cagada. Duas horas de duração podem ser resumidas assim:

Mulder entrou onde não devia.

Mulder foi preso.

Mulder e Scully fugiram.

Em torno disso, Carter criou um monte de loucuras fantasmagóricas ridículas, com Mulder vendo personagens mortos, e conversando com eles, e indo para um julgamento sem pé nem cabeça que apenas recapitulou a série inteira, sem oferecer nenhuma informação importante. Então eles redimem Kersh, destroem o porão pela enésima vez, esquecem que Dogget e Reyes existem (salvando-se a cena em que John salva o pôster “I Want to Believe” da destruição) e usam a palavra “alienígena” a cada duas frases. Trazem a Canceroso de volta para dizer coisas óbvias e o matam de novo de forma estúpida (nenhuma das “mortes” dele foi bacana)… Mulder e Scully terminam em fuga e graças a Deus, a edição final abriu mão da “cena-vergonha-alheia” que mostrava o Presidente Bush sendo revelado como parte da conspiração. 

Assim a série termina… Deixando uma sensação de que não devia terminar agora, mas sobretudo porque esse não era o final que a trama merecia… Não era o final que a gente merecia. Em 9 anos de existência, The X-Files debruçou-se sobre tanto conteúdo, tanto conteúdo, que parecia impossível que o maior problema do final seria uma completa e indisfarçável falta de assunto. Eles se dedicaram tanto ao que tinha sido a série até o ano 7, que se viram num beco sem saída, incapazes de encontrar superação, incapazes de novas abordagens que fossem justas com o passado do programa.

Entre 19 de Maio de 2002 (data da exibição do final) e 2008, tivemos que lidar com essa decepção sorrateira, que não apareceu no início – suplantada pela euforia – mas que começou a tomar conta de tudo, gritando “não pode acabar assim”. E então veio o segundo filme… E essa foi mais uma esperança destituindo-se de força. A gente quis acreditar… Mas não adiantou.

The X-Files: I Want to Believe

Com o filme sendo produzido para estrear em 2008, a pergunta maior era: vai rolar mitologia? A série tinha revelado o dia 22 de Dezembro de 2012 como data da colonização (sendo o apocalipse Maia previsto nas previsões), então era natural achar que um segundo filme fosse falar disso, redimindo todo o desastroso series finale que nos assombrava até então. Mas… A Fox ouviu a ideia sobre mitologia e decidiu que não, dando para o longa, menos da metade do orçamento do filme anterior.

Ansioso por fazer o filme acontecer, Carter topou não falar de mitologia e cometeu seu primeiro erro: se não vai falar de alienígenas, não use como subtítulo do filme, uma frase que representa o centro criativo da mitologia do show. “I Want to Believe” se protege na limpidez de sua narrativa, mas acaba sendo morno demais para os fanáticos de outrora.

Não vamos nos enganar… É claro que o filme tem uma qualidade técnica até muito superior ao primeiro. “I Want do Believe” é cristalino no que diz respeito ao seu visual, à sua paleta, e tem um cuidado fantástico em pegar seu tema realmente chocante, e torná-lo impressionantemente elegante. Porém, como a natureza desse tema é essencialmente científica, Scully sofre mais coerentemente as ambiguidades do caso, tornando todo o dilema moral de Mulder ainda mais forçado. A postura trágica dele ou as lágrimas de sangue do padre pedófilo não chegam nem perto da sinceridade das angústias de Scully. E só na cena em que discute com ela as feridas do passado, que Mulder acontece de verdade no filme.

“I Want to Believe” comove pelo apelo dos personagens, mas os traz de volta dentro de um contexto insípido, sem utilidade nenhuma para o legado do show. E isso não poderia ser pior, visto que o fracasso de bilheteria tornou o terceiro filme (e esse sim reconhecendo a necessidade de voltar a falar do núcleo da série) praticamente impossível. 2012 passou… Mulder e Scully precisam reagir a isso. William já teria idade suficiente para entender muitas coisas… Porém, a sensação de que não tivemos nosso desfecho merecido, vai continuar. The X-Files segue forte pelo que foi, mas não resistiu ao futuro que ele mesmo desenhou.

XXX

Quero agradecer imensamente a todos que acompanharam os reviews de todas as temporadas da série. Esse foi um trabalho muito especial e eu fui muito feliz realizando-o. Ontem, dia 10 de Setembro a série fez 20 anos, e essa foi minha forma de representar todo o meu respeito e gratidão para com ela.

Forever Excer, guys.

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