Nunca estivemos entediados.
A ideia de redenção em Breaking Bad sempre apareceu estranha e difusa. Entre a imoralidade, o universo da série chega a ser moral em um nível… Utópico. Tudo vai e volta. Tudo que vai PRECISA voltar. Vince Gilligan – que mais e mais prova ter nervos de ferro – é um fã desse tipo de justiça poética (ou de ação e reação, para colocar em termos mais concretos, narrativos).
Logo, chega a ser previsivelmente Breaking Bad-esco o clímax da série. Temos o Momento Triunfante de Vitória. Entornamos esse Momento, e ficamos nele por tempo o suficiente para vê-lo apodrecer. Hank prendeu Walter com as mãos quentes. Hank venceu! E não funciona bem assim, funciona? Pois os nazistas estão chegando, e quando eles chegam…
O final do episódio funciona tanto como essa grande puxada de tapete, quanto como a tal Reação de todas as ações da série. Ou justiça para todas as injustiças da série. Ou, dependendo de como você encarar a situação – e, menos metaforicamente, esse talvez seja o jeito mais certo de ver as coisas –, apenas mais uma dose de imoralidade, de sujeira… Em uma história que, bem, pinga de lama.
Mas para quem aquilo é justo, afinal? Comecemos pelo óbvio: Walter White vai sofrer. Isso, pelo que eu sinto da série, é um fato consumado. Fugir em um avião alisando um bigodinho imaginário – esse tem que ser o final do Saul, não o do Walt.
Por outro lado, baleado acidentalmente por nazistas parece um final perfeito. E é o tipo de ironia que Breaking Bad ama: um final mesquinho e burro. Nada de grande esquema. Nada de uma morte heroica. Apenas uma bala na barriga, e sangrar e sangrar até o deserto de Albuquerque virar mar.
E Walter é o único personagem que não pode morrer. Nós sabemos que ele não vai morrer. Uma metralhadora e um frasco de veneno o aguardam no futuro da série. Que… Injusto? Mas o episódio faz bastante esforço para descrever a corruptela total das pessoas ali presentes. Não é só Walter que dá o título a essa história, embora ele seja o pior e mais exemplar.
Hank é a figura heroica dessa temporada, se existe uma. Mas ele é aquele herói real (não confundir com o nauseante termo “anti-herói”, que tá sendo muito usado e pouco significado, ultimamente). Suas falhas são falhas não por virtuosidade, mas pela necessidade que ele tem em conseguir resolver essa situação. E não é só necessidade. É manha, lábia, jogo de cintura. Pura inteligência – inteligência em um nível Walter White. E o instinto é o mesmo, a força é a mesma. Hank só substitui a vaidade de Walter por certa humildade, por um cansaço. Não é orgulho, é necessidade, quase.
E os caminhos que Hank busca são caminhos que a série claramente reprova. Ele usa de intimidação, ele usa de ocultação. Ele está, basicamente, conduzindo uma força-tarefa sem autorização policial. Justiça em Breaking Bad trabalha por caminhos completos.
Então, se isso já afeta Hank, imagina Jesse – que vive incompletamente, que é incompletamente. E que qualquer moral ou imoral, que qualquer redenção ou condenação, que qualquer coisa sempre aparece… Incompleta. Quando são listadas acusações para Jesse pelo telefone, temos Walter tentando ganhar tempo e simpatia, sim. Mas também temos lembretes importantes. Esse meio-mundo no qual Jesse vive não significa inocência.
Seria apropriado, então, entre todas as contas, terminarmos o episódio com Jesse levando um tiro na boca?
Ou, que tal, Hank levando um tiro no ombro, caindo no chão e sendo executado na nuca por Todd?
Mas não é assim que terminamos o episódio. Temos Walter trancado em um carro, fora da ação: a série tem planos maiores para ele. Temos Hank e Gomez em um tiroteio contra os nazistas, que parece suicida. Temos Jesse fugindo de tudo. Jesse sempre foge de tudo. Terminamos justamente pendurados nesse momento de tensão, esperando esse futuro não tão distante que a série tem planejado.
Já ouvi muitos falando que esse episódio soa como um final alternativo para a série. E sinto que é intencional. E talvez um showrunner mais cínico tivesse feito isso, mesmo. Terminado a série com esse episódio, só adicionando algumas cenas para dar finais para Saul e Skyler. Teria sido fácil demais, também. Mas Breaking Bad sempre vive além do suspense, e geralmente se encerra com algum tipo de declaração ou impacto. As pontas soltas são mais reflexivas do que narrativas. O que talvez resulte no suspense impecável que a série cria a partir do que é esperado.
Isso, e, claro, Michelle MacLaren – que ganha este último parágrafo como uma semihomenagem. Ela pega um roteiro estruturalmente diferente, e ata todos os seus lados com a palavra “propulsão”. A primeira parte do episódio pulsa, e a segunda parte desce, e o resultado é um contraste marcante. Os dois trechos se elevam por isso. O último, em particular, parece um feito tremendo – uma sequência de quase vinte minutos que simplesmente não perde uma ida. Parte disso é a construção que o Michael Slovis ajuda a fazer do deserto, imensamente claustrofóbico. E a outra parte é o puro dedo de saber quando puxar ou soltar os atores, o ritmo das cenas, a imagem.
Walter dirigindo o carro? Puxa. Walter ligando para os nazistas? Puxa. Walter pensando em se entregar? Solta. Hank prendendo ele? Solta. E isso se repete durante todo o final do episódio, indo e voltando, em um ritmo meio de maré – criando a segurança e a tensão… A segurança e a tensão… Balançando os poderes, até tudo estourar.
E puta que pariu. Como estoura.
Puta. Que. Pariu.















